Diomedes Chinaski, ou João Vittor de Souza Passos, tem 26 anos e é um dos rappers mais instigados da cena musical do hip hop pernambucano. Apesar de já fazer algum tempo que atua no movimento e ter participado coletivo A Chave Mestra, só no mês de fevereiro último Chinaski participou, pela primeira vez, do Festival Rec-Beat, onde realizou um dos shows mais potentes do evento. Inquieto, irreverente e com uma atitude ousada diante do showbiz brasileiro, seu trabalho se destaca por apresentar composições que utilizam uma linha melódica refinada e letras com rimas bem estruturadas.

Seu nome artístico é uma composição onde ele conjuga o nome de um personagem do quadrinhos O Dobro de Cinco, de Lourenço Mutarelli – Diomedes – com um dos pseudônimos do escritor Charles Bukowski – Chinaski.

A trajetória de Chinaski é marcada por posicionamentos firmes, destacando a polêmica provocada pela música e videoclipe “Sulicídio”, feitos em parceria com o rapper baiano Baco Exu do Blues e lançados no final de 2016. A letra, feita por ele, bateu de frente com os rappers de São Paulo e Rio de Janeiro ao criticar os privilégios de MCs como Doncesão e Dalsin, entre outros, nos esquemas de shows e festivais hip hop pelo Brasil. Ao lado de Don L e outros rappers nordestinos, Chinaski diz não querer derrubar ninguém. Ele assegura que apenas defende uma maior integração entre os artistas e mais igualdade no tratamento aos grupos de fora do eixo Rio-SP pelos agentes e organizadores de eventos. Segundo ele, a imagem predominante do rapper com roupas extravagantes, correntes no pescoço, num carrão, é muito limitada, mas estava predominando no hip hop brasileiro. Valorizar ainda mais composições que abordem as questões sociais, trabalhar com esmero as rimas das músicas e levar o rap para além dos guetos são algumas de suas pretensões.

Criado no bairro de Jardim Paulista, em Paulista, Região Metropolitana do Recife, Diomedes Chinaski agora está morando no bairro do Ibura e passou uma tarde conversando com O Grito!, três dias antes de seguir para uma turnê de sete shows em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

O GRITO! : Chinaski, conta pra gente como você entrou no mundo do hip-hop.
CHINASKI : Eu comecei a escrever com 15 anos e minha influência musical veio da família. Minha avó e minha tia tinham as vozes muito bonitas e elas sempre gostaram de cantar em casa, nos dias de festas, músicas antigas de Nelson Gonçalves. Meu pai era evangélico e me levava para a igreja e eu gostava das músicas, tinha interesse pelo piano. Eu consumia muita música, mas me incomodava as letras só falarem de amor, amor, amor. Então eu vi na televisão o trailer do filme sobre Cazuza e percebi que ele falava de outras coisas. Mas eu comecei a escrever mesmo quando eu ouvi Racionais, porque foi aí que eu vi um tipo de música em que eu podia falar sobre as coisas que me afetavam. Eu me impressionei quando ouvi músicas falando de presídio, de violência policial, de racismo e percebi que o que eu queria fazer mesmo era rap.

Quando foi que você sentiu que podia ter uma carreira na música?
Foi em 2009 quando eu ganhei a Liga dos MCs aqui no Recife e fui disputar a jornada nacional de MCs no Rio de Janeiro, representando Pernambuco. Então, eu gravei pela primeira vez num estúdio com o pessoal lá e desde então não parei mais de gravar. Aí eu comecei a acreditar nessa parada de carreira.

Então você tem quase dez anos de carreira e todo esse tempo você tem sobrevivido só de música?
Só comecei a sobreviver de música de um ano para cá. Até hoje eu penso como eu consegui gravar todas as músicas sem dinheiro. Eu já vendi tapioca, já fui operador de telemarketing, estagiei numa empresa de transportes quando estudava Ciências Sociais na Universidade Federal de Pernambuco, fiz muitas paradas.

Você concluiu o curso?
Eu abandonei. Na época tinha acabado de me separar, estava morando sozinho e não conseguia conciliar estágio com aula, tinha a distância para ir de um lugar a outro, falta de dinheiro. Eu achei também meio confuso o lance da academia, não consegui me adaptar e achei que o que eu tinha aprendido já era suficiente. Desde criança eu sempre gostei de estudar o que eu gosto. Mesmo na escola eu só focava no que me interessava.

E no rap foi assim também?
Foi, mas também foi muito difícil gravar e produzir coisas com qualidade. Só recentemente consegui, antes era tudo na tora. Depois do governo Lula as pessoas da periferia começaram a comprar equipamentos e aí L.O., lá de Caetés, montou o estúdio dele e eu gravava lá. No rap a gente consegue fazer as paradas apenas com uma placa de áudio, um computador, um microfone bom, porque os instrumentais são criados nos Fruity Loops eletrônicos, então eu gravava por um valor na base da amizade, era muito barato. Mas, às vezes o esforço era pesado, eu ia para o estúdio andando no sol quente porque não tinha grana para a passagem. O lance era conhecer pessoas que gravavam e negociar com elas.

E como você divulgava o que produzia?
Nessa época eu divulgava no 4shared, a gente nem sabia dessa onda de YouTube, fazia uma arte, colocava o link pra download e divulgava no Orkut. Era só isso. E graças a isso o pessoal foi conhecendo a gente, e tem muito fã hoje que eu vejo que foi dessa época e migrou do Orkut para o Facebook, Instagram. A internet foi muito importante, era uma forma da gente ser visto.

Mas você participava do movimento hip-hop?
Sim. O que deu muita visibilidade pra gente também além das redes sociais foi a batalha, acho que até mais que a internet. Na efervescência da época, quando eu comecei, foi quando Emicida começou a batalhar e isso expandiu muito o movimento. Eu participei da Batalha da Escadaria (no Recife acontece na esquina da avenida Conde da Boa Vista com a rua do Hospício) desde a primeira edição, ganhei muitas vezes e só parei de ir faz um dois anos. O bom da batalha é que ela é na rua e atrai qualquer pessoa, porque tem o lance do humor, o cara vai passando e acha engraçado, aí para e assiste. E depois quer conhecer as músicas dos MCs que estavam se apresentando.

Uma coisa que eu percebo na tua música é o uso de uma base melódica refinada que dá uma característica muito pessoal ao teu trabalho. Como é o teu processo de criação?
Quando eu comecei, eu estava muito preso a imitar os artistas que ouvia, como Facção Central e Racionais. Quando a gente ia cantar até o sotaque era paulista. E aí Poema Liricista, que é um monstrão, me despertou. Disse para eu usar o sotaque daqui, as gírias daqui. Ele me despertou também para o lance da literatura, falou para eu ler uns livros, buscar umas palavras diferentes. E nessa época, as paradas estavam meio tensas em Jardim Paulista [bairro da periferia do Grande Recife, em Paulista], meus pais então me levaram para morar no Curado e lá eu não tinha muitos amigos. Comecei a ler Kafka, Dostoievsky e Charles Bukowski, que foi o cara que eu mais pirei. Li também sobre poesia e métrica. Comecei a ouvir mais MPB, me interessar pela sonoridade das músicas. E conheci também o trabalho do rapper americano Tyler, the Creator. O som dele tem muita influência de free jazz e eu me apaixonei pela sonoridade do jazz, porque eu gosto muito de música calma e gostosa. Eu faço umas paradas bate cabeça, mas não é o que eu mais gosto.

Você também cuida muito das rimas das tuas músicas.
O rap tem muitas rimas internas, rimas externas, rimas multissilábicas, e eu procuro referências de poetas. Quando eu vi a estrutura métrica da Divina Comédia, de Dante Alighieiri eu achei incrível. E mesmo sendo rapper eu pretendo fazer um tipo de música que dialogue com a MPB, com o jazz, que envolva mais músicos instrumentais. Todo trabalho que eu fiz até agora considero um treinamento. Eu ainda não tive condições financeiras para fazer o que eu quero. Eu vejo caras como Chance, the Rapper, Kanye West, Frank Ocean, Kendrick Lamar botarem o bagulho em outro nível, fazendo coisas bonitas e incríveis e eu me inspiro neles.

Agora vamos falar um pouco sobre “Sulicídio”, feita em parceria com Baco Exu do Blues. Como surgiu essa ideia?
Quando a gente fez “Sulicídio” a cena estava configurada da seguinte forma. Nos Estados Unidos o rap é uma música feita pelos negros para emancipação dos negros. No Brasil o rap da velha escola era um rap feito exclusivamente pela favela e para a favela. O tempo foi passando e como a classe média alta aqui no Brasil tem mais acesso à cultura americana que a periferia, o rap da nova escola se tornou algo consumido por essa classe e, automaticamente, os rappers que começaram a ter sucesso eram de classe média porque refletiam a mesma aparência e modo de vida dos ouvintes. Então os rappers brancos e privilegiados dominaram a cena e tinha uma quantidade de grupos e cantores que se podia contar nos dedos, e só eles tinham acesso aos shows e turnês. E, embora no Brasil inteiro tivesse gente fazendo rap, ninguém tinha acesso a esse meio.

Foi quando eu ouvi “Control“, de Big Sean e Kendrick Lamar, onde eles diziam que respeitavam as estrelas do rap, mas ao mesmo tempo afirmavam que eles iam assassiná-los, no sentido de matá-los artisticamente. Isso gerou polêmica e causou a maior treta nos Estados Unidos. Moral da história: Kendrick hoje está ao lado dos grandes nomes. Eu percebi que foi uma estratégia rap. Eu sei que no Brasil não se compreende essa parada de competitividade de forma saudável, mas eu vi que atacar os ídolos desse público era uma forma de chamar atenção dele.

Eu queria mostrar que a cena rap poderia ficar muito mais dinâmica, complexa e com uma grande variedade de artistas em vez de só Oriente, Haikaiss, Costa Gold, Cacife Clandestino, Cone Crew. E não tem um preto aí, tá ligado? Não significa que o som dos caras não prestem, mas não era só questão de talento, tinha a ver com privilégio social, um esquema que naturalmente colocou eles lá e não deu espaço para outros que também mereciam estar nessa cena.

Vocês não eram contra eles?
Não, mas a gente precisava arrombar a porta para que houvesse direito a pelo menos um livre comércio. E tem mais: o rap estava muito saturado, os temas eram só “fumar um”, “pegar uma praia”, “ficar com as meninas”, porque os caras só vivem isso. Quando a música saiu eles começaram a responder nas redes sociais e o negócio foi ficando grande. Mas, veja bem, a gente aqui fazia rap há vários anos e só conseguia no máximo umas dez mil visualizações, isso quando era um bagulho que tinha estourado. Ai de repente veio “Sulicídio” e o clipe já teve sete milhões de visualizações no YouTube.

Então a estratégia deu certo e repercute até hoje?
Deu. Os caras continuaram fazendo as paradas deles, mas hoje, a cena tem mais artista dentro, e negros inclusive, porque tem Baco, tem BK, tem Djonga, de BH. Tem o lance do canal da Pineapple que fez a série de vídeos Poetas no Topo, tem as cyphers da ADL (Além da Loucura) do Rio que estourou com “Favela Vive“, tem Luiz Lins, aqui de Pernambuco. E o público também aumentou porque agora está acompanhando o pessoal que está estreando e não só os famosos. Então a treta de “Sulicídio” chamou a atenção até de gente que não ouvia rap nacional. E hoje, muitos artistas que a gente atacou compreende o que aconteceu. Se a gente tivesse feito uma letra cheia de amor, carinho, dizendo que a gente tava lutando, ninguém ia dar atenção. Tinha que chamar mesmo de filho da puta, dizer que ia matar.

Ao mesmo tempo a gente vê que teve um fortalecimento do rap no Nordeste e você está contribuindo para isso.
A semana passada teve o festival Conexão Nordeste, em Natal. As atrações principais eram eu, Luiz Lins, Matuê e os outros grupos eram todos do Nordeste. Isso nunca tinha acontecido, casa cheia só com artista nordestino. Antes tinha que trazer um desses grupos do sul, botavam os daqui para abrir e, no momento deles tocarem, o som estava sempre uma merda. Mas no contrato dos grupos de fora era determinado que os decibéis do som deles tinham que ser mais altos. Aí eles vinham com iluminação, operador da mesa, com melhores cachês, camarins, então sempre se tinha a impressão que eles eram melhores. E quando o público deles ia para os shows e via as apresentações dos grupos locais dizia: “poxa eles são fracos né?”. E veja agora, teve esse festival só com grupos do Nordeste, Don L lançou o disco dele em São Paulo, no Sesc Pompéia, e esgotou os ingressos em 13 minutos, Don L e Baco lotaram o Circo Voador no Rio.

São Paulo, Rio tem realidades com questões que são semelhantes às nossas, mas também existem diferenças sociais e culturais. Como você reflete isso nas tuas músicas?
Essa é a base do meu trabalho. Antes de fazer “Sulicídio” a gente ia nas festas de rap e via pessoas daqui falando com sotaque carioca e era muito engraçado. Isso também foi uma das minhas motivações. Agora as pessoas começam a ter orgulho em dizer que são do Nordeste. Agora tem gente de São Paulo e Rio imitando a gente, dizendo:”eu estou falando que nem vocês, o som de vocês é massa”. A ideia central é essa. Eu aprendi com Don L e Nego Gallo, pois eles falam exatamente nas letras como o pessoal de Fortaleza fala. E esse é o nosso diferencial e que torna o nosso som bonito. Eu não quero criar uma guerra, eu não sou um imbecil, eu não odeio as pessoas do Rio de Janeiro ou São Paulo, sempre quis valorizar o nosso trabalho e mostrar que nosso rap é bom.

Chinaski, fala um pouco dos teus trabalhos.
Eu tenho vários trabalhos. Quem me segue antes de “Sulicídio” conhece as minhas músicas, tem coisas minhas no YouTube. Tenho Ressentimentos, Réquiem, com a Chave Mestra tenho o disco Novo Egito e o EP Coração no Gelo. Agora tenho dois EPs solo e tem a mixtape colaborativa com Luiz Lins, Matheus MT e Mazilis. Mas como eu já disse, tudo para mim é um treinamento, não quero chamar nada que eu fiz de álbum. Eu quero fazer um álbum foda, bem produzido, convidar músicos da MPB. Não quero mais só rap, tá ligado?

Não diga isso porque a galera do rap vai ficar chateada…
Eu falo isso musicalmente, da sonoridade. Eu quero ampliar ela. Eu sinto falta de instrumentos, não quero ficar só nas batidas eletrônicas, entendeu? Eu quero entrar num circuito que seja mais aberto, ir para festivais. A participação no Rec-Beat foi o momento mais importante da minha carreira. Pra mim foi o melhor show que já fiz. A gente ensaiou muito, investiu tudo naquela performance e deu tudo certo. Eu não quero fazer uma música só de noitada, de festa, quero envolver teatro, moda, quero sair da repetição que a gente vê em muitos videoclipes de rap. Eu sou rapper, gosto de rap, mas quero ser assimilado como um artista de música brasileira.

Todas as fotos da reportagem: Jonatan Oliveira, especial para O Grito!
Agradecimentos: Aqualtune Produções, Durap, da Batalha da Escadaria

Holofotes é uma série da Revista O Grito! que destaca novos artistas pernambucanos.

Sem mais artigos