SEGURANDO O ESPECTADOR
Mudanças no roteiro reestruturam a narrativa de Heroes que continua sendo uma das minisséries mais hypadas do momento
Por Fernando de Albuquerque

Pode-se dizer, sem medo de cair na mesmice, que Heroes, hoje, é a minissérie mais hypada da paróquia. Ela só perde para Lost, que está em sua enésima temporada, sem margem para fim e com a fama de ser um dos enlatados que mais entorpece seus espectadores. Heroes está longe disso. Sem ser uma unanimidade (porque toda ela é chata e burra) o seriado acabou de estrear sua segunda temporada na NBC, e por aqui no canal pago Universal com direito a personagens novos, trama renovada e uma imbricada rede de intrigas que faz a platéia ficar firme na poltrona e ter a certeza de que os ciclos serão fechados e respostas serão devidamente oferecidas.

O sucesso da série tem se tornado uma grande surpresa desde o último ano. O programa está entre os 15 de maior audiência (e aí não estão inclusos somente séries) e atrai mais de 14 milhões de telespectadores toda semana. Esse bom momento traduz um movimento onde o apelo estético das HQs influenciam não só produtos audiovisuais, mas também materiais publicitários como nas campanhas da Tim e da Fanta que usam a estética extraída da cultura japonesa. Tudo tentando conquistar toda uma geração (aqueles com vinte e poucos) que cresceu sob a égide de mocinhos e vilões construídos pelos X-Men e Power Rangers.

Diferente da primeira temporada que passou boa parte de seu precioso tempo buscando reflexões geneticistas, essa segunda temporada vai direto ao cerne da questão: os poderes dos super heróis. Mas, contraditoriamente, faz com que a ação demore para começar. Boa parte dos primeiros episódios exibem conflitos individuais de cada personagem – como a luta de Parkman para conseguir o distintivo de detetive, ou mesmo a luta do pai de Clair para fazê-la passar despercebida na escola – e a instalação de uma complicada rede de intrigas e jogos de poder entre os personagens que desejam ora dominar o mundo, ora mapear todo código genético dos super poderosos, ora estabelecer pesquisas reais doa a quem doer.

Mais uma boa surpresa é que essa segunda temporada abandona o caráter de epopéia poética, quando um narrador central comanda o desenrolar da trama, como na obra-prima A Divina Comédia, quando o italiano Dante Alighieri conta sua passagem pelo inferno, purgatório e paraíso. Quem exerceu esse papel durante a primeira temporada foi Mohinder Suresh – eleito o segundo homem mais sexy da televisão norte-americana segundo o TV Guide, perdendo apenas para o doutor Derek MacDreamy de Grey’s Anatomy – que agora cede lugar a uma miríade de personagens que ganham destaque com o desenrolar da trama. E aí cabe exemplificar a líder de torcida, agora com um namoradinho no estilinho Peter Petrelli, que tem boa parte dos capítulos dedicadas à sua vida de adolescente em busca de um relacionamento, ou mesmo Hiro Nakamura que perde parte de sua importância assumindo um papel que procura vaguear pelos porquês históricos dos super poderosos.


Hiro: ele ainda continua o fofo da trama, mas seu papel na série perdeu importância

Outra característica que se perde em relação à primeira temporada são os arcos, um recurso narrativo em que um conjunto de episódios estão envolvidos em uma questão maior, como por exemplo a famosa frase “Save the cheerleader, save the world” que martelou na cabeça de 90% dos personagens envolvidos na trama central. Uma estrutura permanece intacta nessa segunda temporada são os os cliffhangers. Explico: é aquela cena final onde ocorre um grande gancho para o episódio posterior (Heroes é um grande usuário deste método assim como Lost).

Nos episódios fica claro, no entanto, a maneira como o seriado seduz o espectador, sua aura “cool”, dirigida para o público jovem e que acaba por conquistar o espectador comum à procura de uma história que tenha aventura, suspense, comédia e drama. Nessa segunda temporada, Heroes pode crescer mais ainda, principalmente se Kring e sua equipe cuidarem melhor dos roteiros dos episódios, como ocorreu no melhor episódio da primeira temporada, “Five Years Gone”.

NOTA: 8,0

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