MÁRTIR POR UMA AMERICA MELHOR?
Clint Eastwood dirige e estrela um provocativo conto sobre xenofobia e rixasétnicas na América
Por Eduardo Carli de Moraes

I hear it was charged against me that I sought to destroy institutions,
But really I am neither for nor against institutions,
(What indeed have I in common with them? or what with the destruction of them?)
Only I will establish in the Mannahatta and in every city of these States

Inland and seaboard,
And in the fields and woods, and above every keel little or large that dents

The water,
Without edifices or rules or trustees or any argument,
The institution of the dear love of comrades.

I Hear It Was Charged Against Me, escrito por Walt Whitman

Walt, o protagonista de Gran Torino, traz implícito no próprio nome uma carga pesada de patriotismo americano: nos traz à lembrança, num relâmpago, tanto a imagem do maior poeta já a tecer loas e hinos-de-louvor aos EUA, Walt Whitman, quanto um dos nomes mais monumentais da pop culture americana: Walt Disney. Mas o Walt de Clint Eastwood, ao invés de se derreter em elogios à pátria mãe ou fabricar um castelinhos ilusório de Fantasia como refúgio contra as penas da realidade, encarna uma outra persona: a de Defensor Durão da América (ou ao menos do quarteirão dela onde mora).

Carrancudo e briguento, Walt é bem menos doce e lírico do que o Grande Poeta Whitman, que parecia valorizar algo acima das instituições nacionais e estatais e sonhava com algo melhor: “the institution of the dear love of comrades”. Essa utópica convivência pacífica e amena entre camaradas, sonhada e pregada por Whitman, está longe de ser uma realidade em Gran Torino – filme assombrado por rixas raciais e xenofobia. É um conto sobre a busca dolorosa e difícil por regeneração moral e redenção, batalhas muito presentes na obra de Eastwood em sua fase madura.

O veterano diretor prova aqui, mais uma vez, que envelheceu como um bom vinho: Tio Clint não têm nos decepcionado nenhuma vez nos últimos anos (em que cometeu grandes filmes como Menina de Ouro e Sobre Meninos e Lobos). Com Gran Torino, além de adicionar mais um belíssimo filme a seu arsenal, conquistou a maior bilheteria de sua carreira como cineasta.

A visão do personagen Walt, que Clint encarna com muita garra e fibra, é carregadíssima de preconceito racial e xenofobia no começo do filme, mas tonra-se mais atenuada conforme vamos progredindo na narrativa. Walt é bem um americano da velha guarda, durão e de difícil trato, que se relaciona com todos ao redor aos resmungos e rosnados. Claro que possui a bandeira americana hasteada em sua sacada e opiniões rígidas de antipatia e fúria contra os “invasores bárbaros” que conspurcam a pureza da América. Um pouco daquela rigidez de caráter dum Dirty Harry reaparece na figura deste Walt, o Justiceiro, que quer limpar as ruas da escória que são as gangues de gringos arruaceiros. Ele é do tipo que pega em sua espingarda e sai pra resolver com as próprias mãos as “tretas” que cidadãos mais disciplinados deixariam nas mãos da polícia. Ele até caçoa do padreco, que sugere que rezar e confiar nas autoridades terrenas é o melhor caminho, com mordaz ironia: “rezei para a polícia, mas infelizmente minhas preces não foram atendidas…”. Vê-se que tantos anos encarnando personagens durões em westerns e policiais deixou suas sequelas em Clint Eastwood, que ficou um tanto viciado em demonstrações de macheza (aliás muito divertidas!)!

Mas a preocupação do filme não é tanto o heroísmo truculento e sanguinário, mas sim as metamorfoses íntimas por que passa este personagem. Pois Walt é um daqueles homens que foi condicionado a ser uma Máquina de Morte Ambulante – e que sabe que Deus está sempre do lado da América! Ensinaram-lhe a odiar todos que tinham olhos puxados e neles meter bala sem dó na Guerra da Coréia, onde ele sujou as mãos de muito sangue oriental. E agora, na velhice, permanece atormentado pelos fantasmas daqueles garotos assustados de quem tirou a vida. Por isso ele é um homem em conflito: ao mesmo tempo, um americano em delírio de xenofobia, encarnação de uma fúria culturalmente implantada; e, por outro, alguém imerso em culpa e que possui uma dívida moral que precisa pagar (o que talvez explique a gentileza e amizade que surge no trato com seus vizinhos orientais, Sue e Tao.)

Quando Walt aceita participar de um churrasco na casa dos vizinhos, por exemplo, saindo de sua nobre e pura fortaleza americana para se aventurar na  selva obscura e perigosa da família oriental, o que se processa é algo bem mais profundo e crucial do que um mero “churras excêntrico”: ele embarca numa jornada cultural em miniatura. Este mergulho que dá o americano ortodoxo e condicionado no caldo de uma cultura radicalmente diferente da dele – em valores, procedimentos e costumes – serve para tirá-lo do absolutismo que seria pensar que a sua própria cultura, a americana, é a única que existe, a única correta, a indubitavelmente superior. É uma experiência antropológica que tem um peso imenso na vida deste homem que decerto jamais leu um livro de Lévi-Strauss. A percepção de que seres humanos simpáticos, afetuosos e por quem se pode sentir amizade e infinita piedade têm seus olhinhos puxados e provêm da estranha neblina estrangeira já faz com que Walt perca um pouco de sua unilateralidade de visão.

A metamorfose moral vai se processando de modo realista, acompanhada de perto pela lente e pela carnalidade ultra convincentes de Eastwood. O personagem, conforme progredimos, vai ganhando nuances, profundidades e complexidades que não tinha antes, e há inclusive um certo estudo que procura entender a gênese de sua personalidade partindo de condicionamentos sociais. Pois Walt certamente cresceu sob o bombardeio ideológico da Guerra Fria, ouvindo até cansar, e registrando em seu inconsciente como um mantra, o quanto eram estupradores de criancinhas e feras sanguinárias todos aqueles amarelos nojentos e comunistas que era preciso extirpar do Oriente que tinha tropismo soviético!

Foi ensinado pela mídia e pelo exército a odiar indiscriminadamente todos aqueles seres inferiores, amarelados e de olhinhos puxados que era preciso exterminar no Vietnã e na Coréia. Só depois que aprende, por exemplo, que “os chinas” que são seus vizinhos fazem parte do povo Hmon, que foi aliado dos EUA na campanha do Vietnã e que, após a guerra, começou  a ser massacrado pelo governo comunista por ter “virado a casaca” e auxiliado os poderes invasores. Os Hmon tiveram, pois, de fugir para o solo da nação que antes apoiavam. A visão simplista e petrificada inicial de Walt se transforma em algo mais profundo e pensado. Walt é a representação deste homem, talvez em extinção, que foi condicionado culturalmente a ser xenófobo e bélico, mas que aprende, na lenta e dolorida estrada da vida, a meditar sobre a relatividade das culturas e a existência de indivíduos de valor em todas elas.

REDEMPTION DAY

Mais uma vez o tom, tão forte no cinema mais autoral de Clint Eastwood, é o de uma certa busca pela redenção. Pois Walt parece carregar sobre os ombros um fardo invisível terrivelmente pesado: possui as mãos sujas de sangue, ainda que as lave com sabão carbólico. Jamais é capaz de esquecer a horrenda sensação de matar um homem – e ele matou mais de uma dúzia. Quando ousam sugerir a tolice de que ele é um bom homem, ele chama um levante de toda a sua culpa interior reprimida e garante: “No, I’m not a good man”. E quando o padre sugere que ele talvez saiba mais sobre a morte do que sobre como viver, ele até concorda: “Maybe so, father… Maybe so…”.

A ressalva importante que precisa ser feita é: por ser um filme americano, que centra seu foco totalmente num personagem símbolo da americanidade truculenta, bélica e preconceituosa, Gran Torino acaba soando um tanto unilateral – tão unilateral quanto a mentalidade de seu protagonista. Um dos crimes mais graves que comete o filme é que o desenho dos personagens da “gangue”, os grandes “vilões da história”, acaba sendo um retrato extremamente pobre, superficial e ralo. Notem bem: eles não têm interioridade, não têm profundidades morais, não têm densidade psicológica – não têm nada. São os “caras do mau” típicos dos filmes de Hollywood, ou seja, que não precisam ter sua maldade explicada, estudada e aprofundada, com a percepção de causas, tendências anteriores, traumatismos explicativos e tudo mais. Um espectador do Oriente – e como eu tenho curiosidade para conhecer o que está sendo dito sobre Gran Torino na China, por exemplo! – percebe bem o quanto o filme distorce a questão, puxando a sardinha para o “Lado Americano”. Os “maus de verdade”, Clint não gasta película ou atenção tentando compreendê-los. Condena-os de modo direto e reto, sem choro nem vela, como faz um bom veterano de guerra durão e encrenqueiro cansado de ver seu nobre país estragado pelas botinas estrangeiras.

De modo que a cena final do filme (ALERTA VERMELHO: contêm SPOILERS!), decerto surpreendente e instigante, abre espaço para muita polêmica. Ao contrário do que seria de se esperar num filme mais clichê, nosso herói não entra na casa dos inimigos com a metralhadora giratória, dando tiro pra tudo quanto é lado, sendo o Rambo Patriótico que dá pití quando tocam um dedo em seu Gran Torino ou Lamborghini. Ele arma um teatro onde, ao invés de carrasco, torna-se vítima. Ao invés de sacrificar, ele deixa-se sacrificar, para provar aos olhos das testemunhas e, por tabela, da sociedade inteira, o quanto são cruéis, bárbaros e sem coração esses gringos diabólicos! Como são feras, bestas selvagens, esses chinas, capazes de encher de bala um velhinho indefeso que puxou um isqueiro para acender seu cigarro! Torna-se assim quase um Cristo que carregasse a bandeira de Mickey Mouse e Ronald McDonald, se auto-imolando em prol da Purificação da Vizinhança da Peste Estrangeira.

>Resta saber: Gran Torino é um filme capaz de gerar nos espectadores, especialmente americanos, ondas de xenofobia e ódio racial? É um filme que recoloca a questão de um modo mais profundo e sofisticado do que se costuma fazer em Hollywood, onde rixas étnicas aparecem mais como pretexto para a troca de tiros e bombas do que como possibilidade de reflexão e meditação? Em última análise, esse filme tem poder para agir de modo benéfico sobre a cultura americana?! Eu tenho lá minhas dúvidas – e coloco essas questões mais por não saber respondê-las do que por pretender solucioná-las. Ao menos esta virtude o filme indubitavelmente têm: pôr em questão e em xeque as relações étnicas e sociais neste zoado zoológico humano que é a América globalizada.

NOTA: 8.5

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