Sônia Braga, homenageada com o Troféu Oscarito, no Palácio dos Festivais/ Foto: Edison Vara/Pressphoto.

, homenageada com o Troféu Oscarito, no Palácio dos Festivais/ Foto: Edison Vara/Pressphoto.

Manifestações contra o governo Temer, questões de gênero, e a falta de políticas públicas transparentes para o audiovisual são a tônica do tradicional evento da Serra Gaúcha, o mais antigo em atividade no país, e desde 92 um festival íbero-americano

De Gramado (RS)

A competição hispano-americana de Gramado, que se iniciou na segunda (29), abriu com a exibição do cubano Espejuelos Oscuros, estreia da diretora Jessica Rodriguez. “Com toda a tradição cinematográfica que Cuba tem, este é apenas o quatro longa-metragem feito por uma mulher na ilha”, revelou. A película investe no empoderamento feminino, por meio de sua protagonista Esperanza (Laura de La Uz), uma Sherazade extemporânea, e seu coprotagonista Mario (Luis Alberto García). Os personagens interpretados por Uz e García, atores muito populares em Cuba, nas histórias narradas pela cega Esperanza em distintos períodos históricos da vida naquele país, contribuem para compor uma crônica de costumes, ainda que esta não seja a proposta do filme. O enredo mescla suspense, vingança e assassinatos com um final inesperado.

O filósofo Fredric Jameson, que acaba de lançar um livro sobre o escritor Raymond Chandler, considera as narrativas criminais como um segundo momento do modernismo, que se constitui como um repúdio ao plot, à fragmentação. Embora a fórmula do whodunnit das histórias de detetive e de suspense recupere, aparentemente, a importância do enredo, na verdade a narrativa que se organiza em torno do crime usa esse fato mais como um pretexto estilístico para explorar livremente diferentes estéticas, novas formas e experiências visuais. No caso de Espejuelos Oscuros – em tradução literal “óculos escuros” – os óculos são a metáfora para a realidade que não queremos ver e da qual nos apercebemos de relance, inconscientemente. O filme de Rodríguez traz uma visão atualizada do passado e de fatos históricos, que irrompem na tela de forma atemporal e descontextualizada, alinhavados pela narradora-protagonista. Passado e presente dividem a mesma cena como um caleidoscópio cultural, um bric à brac imaginário, instituído a partir de uma mansão em ruínas, situada numa zona rural distante de Havana. A produção de Rodriguez é independente, tendência que cresce na produção audiovisual cubana, sempre atrelada ao governo e ao Icaic – Instituo Cubano Del Arte e industria Cinematográficos – alentada pelas novas possibilidades tecnológicas que barateiam custos, mas também por um processo de abertura política. As produtoras independentes CloroProd e LargasLuces estão sediadas na Espanha, onde também vive Rodriguez.

A mostra hispano-americana prossegue com as películas Carga Sellada (Bolívia/México/Venezuela/França), CampañaAntiargentina (Argentina), Esteros (Argentina/Brasil), Guaraní (Paraguai/Argentina), Las Toninas Van al Este (Uruguai/Argentina) e Sin Norte (Chile). A exibição da película cubana foi precedida por um curta de impacto, Ingrid, abordando também a temática da exclusão e do gênero, do diretor mineiro Maick Hannder. O documentário é um belíssimo poema visual em branco e preto, com sobreposições de imagens do corpo e falas da personagem título, que é atriz e militante LGBT. Ingrid subiu ao palco com toda a equipe e fez um discurso emocionante: “Meu nome é Ingrid, tenho 28 anos, moro em Betin, na região metropolitana de Belo Horizonte. Sou atriz e transexual, em um país onde a expectativa de vida da população trans é de 35 anos, em tese, me sobram sete para viver”, lamentou. Seu discurso foi estimulado por um comentário discriminatório feito em uma das festas promovidas em torno do festival, e deu visibilidade maior ainda para a situação.

O outro curta exibido, O Ex-Mágico, dos pernambucanos Mauricio Nunes e Olimpio Costa, é baseado em conto do mestre da literatura fantástico brasileira, Murilo Rubião – “O Ex-Mágico da Taberna Minhota”. O curta é uma animação, coincidentemente também em p&b, que possibilitou trabalhar com nuances gráficas de cor que e de luz que tornam o trabalho mais interessante e dramático. O cotidiano de um funcionário que diz ser o serviço público uma forma “de morrer aos poucos” é exibido como um corpo que não consegue se libertar do horror cotidiano sem transgredir a sua própria natureza. O curta é parte um projeto de série com 13 títulos, ainda em processo de negociação para ser exibido em televisão.

44º Festival de Cinema de Gramado - 29/08/2016 - A atriz Rachel Griffiths esteve em Gramado para apresentar o Longa-Metragem "Mammal". /  Foto: Edison Vara/Pressphoto - www.edisonvara.com.br - +555199820707

44º Festival de Cinema de Gramado – 29/08/2016 – A atriz Rachel Griffiths esteve em Gramado para apresentar o Longa-Metragem “Mammal”. / Foto: Edison Vara/Pressphoto – www.edisonvara.com.br – +555199820707

Protestos e Política Cultural

O festival começou em 1973, e sua trajetória revela o impacto da política sobre os diversos momentos da cinematografia brasileira recente. Foi durante o período Collor que o festival viu-se obrigado a mudar seu perfil, pois em 1992, ano do impeachment, a produção brasileira resumiu-se a 9 títulos. O festival foi então transformado em ibero-americano, mas firmou-se nos últimos anos como um espaço para produções latino-americanos. Hoje, a mostra de hispano-americanos corre em paralelo com a nacional. E embora o portal do festival continue a colocar os filmes latino-americanos como “estrangeiros”, é visível não apenas a consolidação da mostra hispano-americana dentro do festival, mas também o caráter cada vez mais híbrido e intercultural dessas produções. O longa latino Esteros, de Papu Curotto, é uma coprodução Argentina e Brasil. O longa brasileiro que abriu a mostra nacional, no último domingo, foi O Silêncio do Céu (SP), que traz como um de seus protagonistas o ator argentino Leonardo Sbaraglia (Relatos Selvagens, Plata Quemada), mas também o argentino Chino Darin, filho de Ricardo Darín. Os demais concorrentes brasileiros são Barata Ribeiro, 716 (RJ), El Mate (SP), Elis (SP), O Roubo da Taça (SP), e Tamo Junto (RJ).

Gramado abriu a programação deste ano com a exibição de Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, e uma homenagem à Sonia Braga, que recebeu o troféu Oscarito. A cerimônia contou com a presença do ministro interino da Cultura, Marcelo Calero e do secretário do Audiovisual, Alfredo Bertini. Calero foi foi recebido com gritos de “Fora Temer”, “Ministro pelego”, “Golpista” e “Vai fazer nude”, referência a fotos sensuais postadas por ele mesmo. Sônia recebeu o troféu pelas mãos de Bruno Barreto, que a consagrou em Dona Flor e seus Dois Maridos (1976), a maior bilheteria do cinema nacional por muitas décadas (perderia o posto para Tropa de Elite – O Inimigo Agora é Outro (2010). O tom de manifestação prosseguiu após a exibição do filme Aquarius, que vem causando polêmica desde que seu diretor, Kleber Mendonça Filho, e o elenco protagonizaram um protesto no tapete vermelho de Cannes esse ano em apoio a presidenta Dilma Rousseff e a favor da democracia. Aquarius foi proibido para maiores de 18 anos, decisão controvertida para um filme que praticamente não explora cenas de nudez, e tem como protagonista a atriz Sonia Braga no papel de uma jornalista que se recusa a negociar com uma construtora a venda de seu velho apartamento. Braga certamente já desempenhou papeis mais eróticos no cinema nacional do que o da intelectual Clara.

Sundance, Oficinas, TV e Rodadas de Negócios

O festival que sempre soube se adaptar aos diferentes momentos políticos parece passar por um momento de transição. A programação deste ano investe em rodadas de negócios, oficinas de roteiro, e tem coletivas voltadas para a produção televisiva. As rodadas incluem encontros da SAV com as produtoras. Na próxima sexta-feira, Fernando Bonassi e Marçal Aquino, que ministrou uma Master Class sobre roteiro no último domingo, vão falar sobre Supermax, a nova série da Globo, que estreia dia 20 de setembro. A série vai ter uma franquia hispânica, dirigida por Daniel Burman, e que conta com a presença de Cecília Roth, a Sexília de Almodovar, que também deve comparecer a Gramado e é uma das homenageadas do festival.

Outra novidade é a presença do Sundance. Vencedora do Globo de Ouro pelo seriado A Sete Palmos e indicada ao Oscar pelo drama Hilary & Jackie, a atriz Rachel Griffiths esteve presente na sessão do longa-metragem Mammal, ainda inédito no Brasil, graças a uma parceria do evento com o prestigiado Festival de Sundance. O evento, criado pelo ator Robert Redford, exibe séries e filmes, e tem uma importante premiação voltada para o World Cinema, que rendeu prêmio de melhor atriz à Camila Márdila e Regina Casé por Que horas ela volta?. A passagem de Griffiths por Gramado foi breve. Além do debate do filme, ao lado do curador de Gramado Rubens Ewald Filho, a atriz deu entrevistas e se foi. O Sundance Channel, integrante da rede a cabo Sky no Brasil, já confirmou a estreia do longa para o dia 19 de setembro. Sundance ainda exibe outro filme na programação de Gramado, The Fits, na sexta-feira, às 14h. A programação completa do 44º Festival de Cinema de Gramado está no site.

Mais Sônia Braga - Foto: Edison Vara/Pressphoto - www.edisonvara.com.br - +555199820707

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