RITMO E BRILHO
Comédia musical espertinha é a nova frisson dos seriados americanos. No Brasil, será exibido na Fox, a partir de novembro
Por Talles Colatino

A maior aposta deste fall season não está sendo retratada pela pseudo moderna família americana e nem por jovens e instáveis médicos em seu ambiente de trabalho. Na contramão das expectativas, a comédia musical Glee foi a primeira da nova leva de seriados americanos a garantir uma temporada completa, se sustentando numa fórmula que une bom humor, música pop e dancinhas frenéticas. E o resultado disso não é “High School Musical”. Ou pelo menos não tanto.

“Glee” é criação do mestre Ryan Murphy, aquele que a gente deve respeitar muito por ter dado ao mundo as duas primeiras temporadas de Nip Tuck (tá, as outras também. Mas menos, bem menos) e o drama teen “Popular”. E o primeiro grande impacto da sitcom começou bem antes de sua estreia: seu piloto foi exibido em maio desse ano, mesmo que seu início propriamente dito só estivesse marcado para setembro. Uma estratégia de marketing assustadora que a Fox traçou para ir cavando o espaço que “Glee” já conquistou hoje, com, até então, apenas cinco episódios exibidos.

O canal aproveitou o intervalo entre a exibição do piloto e a estreia para começar a divulgar as canções e os vídeos promocionais dos episódios seguintes. Sendo esses os números musicais que a gente veria logo mais. Hits recentes como “Rehab” (Amy Winehouse), “Take a Bow” (Rihanna) e “Bust Your Windows” (Jazmine Sullivan) foram lançados em “versão Glee” e conquistaram o top de downloads do iTunes Store. Quando estreou, “Glee” já não era apenas um produto televisivo semanal de narrativa seriada. Acenava como pequena indústria de entretenimento desdobrável fazia da televisão seu meio de identificação, mas também suporte para flertar com a performance teatral e o mercado fonográfico. Ambição define pouco o que existe por trás da colorida “Glee”.

A série narra a paixão do professor de espanhol Will pelo então saudoso Glee Club, o antigo coral da escola que hoje prefere investir no time de espevitadas cheerleaders, comandado pela treinadora casca-grossa Sue. A frustração é tanta por não ter seguido a carreira musical quando jovem que ele resolve, mesmo com os poucos recursos que consegue retirar do diretor indiano pão duro (o santo preconceito americano batendo cartão), ressuscitar o Glee. E, claro, só se inscreve nele quem não é gostosa o suficiente para ser cheerleader ou viril demais pra bater bola no time de futebol. Resultado: geeks e rejeitados que buscam um lugar ao sol no sempre tão cruel high school são os novos candidatos ao estrelato do colegial.

No entanto, um dos pontos altos do programa está no trabalho dos estereótipos de filmes e seriados de escola que formam o Glee Club. O bonitão burro, a virgem rejeitada, a blond bitch, o gay afetado, a diva negra, o nerd, estão todos ali, apresentados em seu máximo de caracterização. E a extrapolação dos seus trejeitos só tende a se conectar com a trama costurada pelo humor negro também dos seus personagens adultos. Da orientadora que tem fobia a germes ao treinador do time viciado em maconha, tudo caminha junto para traçar em “Glee” um enredo ágil e divertido.

As subtramas também são bem legais, como o casamento falido do professor Will, a insegurança e completa falta de noção de Rachel, se colocando como a estrela do clube e as investidas de Sue para destruir o Glee Club. E, claro, números ímpares como o time de futebol que encontra na egípcia coreografia de “Single Ladies” a chave para vencer o jogo ou a wannabe hot apresentação de “Push It” na primeira vez que o Glee se apresenta para a escola.

Tudo isso, porém, pode não ser o suficiente para sustentar a ideia que o piloto transpareceu: um musical de humor ácido, quase corrosivo. Mesmo que o primeiro episódio tenha seu ritmo acelerado para introduzir uma trama cheia de caminhos paralelos, “Glee” parece que vem diminuindo as sacadas legais que acenou no início. O que se lê, principalmente nos episódios mais recentes, são ideias educativas como “acredite nos seus sonhos” (“Don’t Stop Believin’”, do Journey, é o tema do Glee Club, entendeu?) e “amizade acima de tudo” (do tipo, somos todos diferentes, mas somos um time e friendship never ends).

E os clichês (sempre eles) vêm pipocando a cada episódio. É o bonitão, que antes maltratava os nerds, e agora faz parte deles. O professor, que faz seu amor à música superar os obstáculos para manter o coral. O gay que se supera ao marcar um gol pro time de futebol. Ainda é cedo para dizer que “Glee” está se tornando o conto de um high school qualquer, e espero mesmo que não se torne isso. A ideologia da sua trama inicial é bem maior e com uma boa condução, “Glee” não vai se tornar apenas um show de covers animadinhos. Ainda há tempo de situar a narrativa em eixos mais sólidos. A nós, fãs, fica a dica: don’t stop believin’.

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