Se você é um notívago e assíduo frequentador de festas e shows ligados à cena independente, já deve ter ouvido falar, ou melhor, visto, Dani Hasse. Se for um designer, amante das artes visuais, provavelmente já conhece essa artista que vem chamando atenção com suas ilustrações para produções culturais, como a recente Invasão Sueca, onde desenhou o site e o cartaz do show do Dinosaur Jr., que faz turnê no Brasil.

Carioca de nascença, Dani é parte da cena cultural de São Paulo, para onde se mudou em 2007. Até ser conhecida por seus traços delicados que inspiram certa poesia, subjetividade, ela fez de tudo: trabalhou com moda, desenhou para marcas como Colcci, Hering e Coca-Cola. E formada em Letras, decidiu abandonar de vez as salas de aula. Hoje, tem orgulho de trabalhar com o que gosta, mas diz que ainda não está em condições de recusar trabalho. Pelo menos sabe que nunca assinaria contrato com o PSDB, por exemplo. E seu envolvimento com o trabalho é grande. “Preciso sempre ouvir a banda em questão o tempo todo que estiver envolvida no processo”, disse. Por isso, recentemente, está viciada em Miike Snow, que toca em São Paulo, Rio e Recife.

A entrevista com Dani Hasse inaugura uma nova seção na Revista O Grito!. A proposta é apresentar o trabalho de pessoas que labutam no pop. São jornalistas, produtores, designers, fotógrafos, gente que por gosto faz progredir a cena independente de várias cidades. Tem sugestões de nomes interessantes? Mande pra gente: contato@revistaogrito.com ou no Twitter.

Qual a lembrança mais antiga que você tem de trabalhar com ilustração, design?
Passei grande parte da minha infância desenhando. Todos os cadernos tinham desenho na primeira folha (sempre tendo a ver com a matéria do caderno), em todas as tarefas deixava uns 2 espaços em branco nas laterais pra desenhar algo a ver com o que tinha naquela página. Acho que isso já era se preocupar com layout e briefing. Nossa, era uma doente. Durante toda a vida escolar, eu sempre amei fazer os cartazes dos trabalhos que tinha que apresentar, sabe? Não importava a matéria que fosse. Eu pensava nos elementos, na disposição, nas cores, nas letras, mas claro, na época era tudo à mão MESMO. Cartolina, lápis, canetinhas e lápis de cor. Agora, ganhar dinheiro com um desenho, isso só aconteceu há sete anos, quando comecei a trabalhar na Colcci, fazendo estampas, antes disso nem cogitava que pudesse ganhar a vida com meus rabiscos.

Seu nome virou grife na cena independente. Como costuma escolher seus trabalhos? Gostar do que o cliente faz ou trabalha ainda conta muito?
Rapaz, isso de eu ter virado grife é nova pra mim! Quero meus royalties em barras de ouro! (risos). E ainda não tô podendo escolher trabalho não. Quem me dera, mas as contas tem que ser pagas, né? Se eu recuso algo, ou é por que já estou fazendo algo e o prazo que o cliente quer não vai dar, ou é por que o tipo de coisa que me pedem é algo que foge do que eu sei fazer. Mas por exemplo, eu não faria um trabalho pro PSDB nem que com isso eu pudesse me aposentar e viajar o mundo.

Como é seu dia, rotina? Até as coisas mais banais e simples. Conte um pouco como é um dia comum pra você.
Eu trabalho em casa, então posso me dar ao luxo de dormir até meio dia. Queria poder colocar aqui que caminho todos os dias, mas ainda não dá pra colocar como rotina. Aí sabe como é, tem que ajeitar as coisas da casa, lavar roupa, arrumar as coisas. Só então vou ler meus e-mails, dar uma passeada no reader, abrir o twitter… Todos os dias faço uma listinha das coisas que tenho pra fazer aí vou por ordem de prioridade e na maioria dos dias trabalho até muito tarde da noite. Mas claro que no meio disso paro pra dar atenção pros meus gatos, ver um seriado ou jogar um pouco de vídeo game entre um trabalho e outro pra resetar a cabeça. E antes de dormir sempre leio um pouco, também pra desligar do trabalho e conseguir dormir (ou pelo menos tentar – tenho uma insônia que não me larga…)

Eu não faria um trabalho pro PSDB nem que com isso eu pudesse me aposentar e viajar o mundo

Costuma circular pela noite? Quais festas e lugares alguém conheceria se acompanhasse você pela cidade?
Sempre fui bastante caseira, mas desde que comecei a trabalhar em casa, todo e qualquer motivo pra ver gente, eu topo! As vezes é uma cervejinha com os amigos, outras vezes é alguma festinha ou jantar na casa de alguém, mas lugar se eu quiser escutar música excelente e encontrar amigos ao acaso, eu vou no Neu Club.

O que te tirou das salas de aula? Do que guarda desse período antigo?
O período que lecionei foi bastante curto, não deu nem tempo de enjoar. Depois de me formar em letras, passei apenas dois anos dando aulas para o segundo grau à noite. Como meus alunos já eram adolescentes ou algumas vezes até adultos (mais velhos que eu) que voltaram a estudar, nossas realidades eram próximas e as aulas fluíam bem. Me tornei amiga da maioria dos meus alunos (o que às vezes se tornava complicado na hora que eu precisava impor um pouco de autoridade, principalmente pela minha inexperiência). Apesar de parecer que era uma maravilha e deu eu sempre tentar dar aulas descontraídas, foi um período bem tenso pra mim, por que sou muito tímida e todos os dias eram de frio no estômago pra falar para uma pequena plateia. Sou bem mais feliz agora que sou somente eu e os papéis.

Além dos seus conhecidos posters e ilustrações, em que está trabalhando no momento? Algum projeto em gestação?
Sim. Recentemente fiz um trabalho novo pra mim que foi a criação de vários personagens com várias opções de cabelos, olhos, bocas, roupas pra você montar o seu avatar, pra uma agencia de Santa Catarina. Também comecei a ilustrar uma coluna da Capricho e tem sido muito legal. Bom, e fora um outro job muito MUITO massa, mas que está em processo de aprovação e por isso não posso falar ainda, tenho tentado (sem muito êxito) fazer umas pinturas a óleo e preencher um moleskine pro Sketch Project que basicamente consiste em preencher um moleskine com o tema que você escolher e ele fará um tour pelos EUA. O tema que eu escolhi foi “It Will be fun, I swear” e tenho até janeiro para enviá-lo de volta.

Você disse que a música te inspira. Pode nos dar umas dicas do que rola no seu playlist enquanto trabalha?
Ultimamente ando bastante nostálgica. Um dos motivos é a festa que ajudo a organizar, a Cromo 90 que é um revival dos anos 90. Os grandes shows desse ano, Pavement e Dinosaur Jr tem ajudado pra eu voltar a ser adolescente na hora de escolher o playlist. Ah, e aquela listinha dos 15 albuns da sua vida, que ta rolando no Facebook me estragou de vez, to só nas velharias. Velvet, Cowboy Junkies, Teenage Fanclub, Wilco, Stone Roses, Cure, e por aí vai. Mas invariavelmente, na hora de fazer um poster ou capa de um disco, preciso sempre ouvir a banda em questão o tempo todo que estiver envolvida no processo. Recentemente fiz pôster pro Miike Snow e to viciada nele desde então.

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