Autor usou sua experiência no exterior para fazer a obra (Reprodução)

CÁRCERE DO ESTRANGEIRO
Inovando na linguagem das HQs, quadrinhista brasileiro cria obra sobre o universo das prisões no mundo

Por Paulo Floro
Editor da Revista O Grito!

Obras de arte de diversas mídias já mostraram que a prisão vai além do cárcere, das grades de presídios. Foi isso que o quadrinhista brasileiro Koostela sentiu para motivá-lo a desenhar Gefangene, nova HQ da editora Zarabatana que chega este mês às livrarias. Morando na Alemanha, ele decidiu transpor para o papel a sensação claustrofóbica de viver em um lugar estrangeiro, onde sempre era considerado um ser marginal. A obra retrata 31 situações de aprisionamento, em diversos momentos e épocas da história humana.

Koostela usou sua experiência pessoal de estrangeiro para criar a HQ, mas o próprio nunca esteve em uma prisão. Vivendo como um “Ausländer”, um estrangeiro, ele se sentiu aprisionado, menos ser humano do que os que estavam ao seu redor. “Assim como um presidiário, não estou incluído nos benefícios que a sociedade oferece”.

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Sem nenhum balão, legenda ou qualquer tipo de texto, Gefangene surpreende por transportar o leitor para a atmosfera do claustro com bem pensadas ideias estéticas e narrativas. Primeiro, ele fez 31 pequenas histórias contadas em nove quadros de tamanhos idênticos. Essa rigidez na narrativa sequencial causa incômodo no leitor, perturba ao mesmo tempo que ajuda a compreender melhor a ideia de estar aprisionado.

Koostela decidiu não usar palavras para que pudesse ser compreendido em qualquer país, qualquer povo. Mas esta decisão também reflete outra experiência de sua vida no exterior, já que não dominar muito bem a língua torna a pessoa um ser à parte do mundo em que está inserido. Se não fosse essa ligação com detalhes tão pessoais, esta HQ não teria o mesmo interesse. Em todas as boas obras já escritas sobre as prisões, as melhores sempre mostram algum nível de experiência pessoal. Foi assim com Maus, de Art Spielgeman e Na Prisão, de Kazuichi Hanawa, só pra ficar apenas nas histórias em quadrinhos.

Gefangene tem momentos inspirados, como a história que fala sobre Abu Grabi, quando soldados americanos torturaram e humilharam presos iraquianos, ou as prisões de manifestantes contra as reuniões do G8, o grupo dos sete países mais ricos do mundo e a Rússia. Mas são os momentos mais subjetivos, como o que retrata uma paranoia causada pelo crack ou as relações gay dentro das celas que mostram a sensibilidade de Koostela.

Gefangene é uma obra que causa curiosidade à primeira leitura e logo se revela como uma rica experiência narrativa, mostrando como as HQs podem explorar seus limites e criar algo relevante não só em seu meio. Jovem autor de 31 anos, Koostela é nome para acompanhar de perto.

GEFANGENE – SEM SAÍDA
Koostela (arte)
[Zarabatana Books, 72 págs, R$ 31]

NOTA: 9,0

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