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Eisner, que sempre foi autobiográfico nas obras, teve vida pessoal e doméstica pouco conhecida (Foto: Divulgação/)

UMA VIDA DE ROMANCE
Biografia de é indispensável para conhecer um dos maiores nomes da cultura contemporânea, mas também para entender a gênese dos quadrinhos como indústria

Por Dandara Palankof

Não sei bem em que momento de meu amadurecimento de leitora de histórias em quadrinhos ouvi pela primeira vez o nome de Will Eisner. Sei que provavelmente demorou um bocado – só da metade pro fim da adolescência passei a me aprofundar verdadeiramente no mundo da nona arte – e deve ter demorado mais um tempinho para que eu botasse as mãos em algo de sua autoria.

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Também não me recordo qual a primeira obra que li de Eisner – mas tenho certeza que os exemplares em minha coleção ainda são insuficientes diante da magnitude de sua obra. Meu apreço por seus álbuns se dá não só por conta de sua narrativa visual pioneira, mas também pelos temas retratados; como as reflexões sobre o casamento enquanto instrumento de status em O Nome do Jogo, ou o rancor e o desamor no próprio seio familiar em Assunto de Família.

Nada mais adequado que discorrer sobre minha falta de memória para introduzir a obra resenhada nessa coluna: a mais recente biografia do mestre Will Eisner – gênero que preza, afinal, pela preservação da memória.

Trata-se de . O livro é escrito por , que tem em seu currículo biografias de personagens como Allen Ginsberg, Eric Clapton e Francis Ford Coppola. Foi publicado no Brasil pela Biblioteca Azul, um selo da Globo Livros, em meados de agosto do ano passado.

Ao longo das mais de 400 páginas, Schumacher nos apresenta toda a vida de Eisner, desde a vinda de seus pais para os EUA, para os subúrbios de Nova York, até o desdobramento de alguns de seus trabalhos, mesmo após seu falecimento. Entre esses acontecimentos, não há uma sinopse que possa ser feita aqui que já não seja de conhecimento da maioria das pessoas: um dos grandes mestres dos quadrinhos, responsável pelo refinamento da linguagem desse meio, criador do gênero hoje chamado de novela gráfica e cujo nome batizou o maior prêmio da indústria norte-americana.

Muitos leitores da obra de Eisner já haviam tido um vislumbre de vários fatos vida do quadrinista – afinal, grande parte de seus trabalhos é de forte teor autobiográfico. Talvez fosse o caso de perguntar se um mergulho profundo em sua vida traria mais detalhes tão interessantes quanto aqueles já sabidos pelo público. A resposta é que, a partir do momento em que Eisner se lança no mundo dos quadrinhos, sua vida foi recheada de momentos fantásticos – mesmo aqueles que poderiam parecer mais prosaicos.

Eisner esteve envolvido diretamente com o mercado de quadrinhos per se em dois momentos distintos de sua carreira – que levaram, basicamente, à criação do herói Spirit e o início do que viriam a ser as graphic novels. E muitos dos acontecimentos que culminaram nestes dois fatos (bem como suas consequências) são verdadeiros marcos definidores da constituição da indústria das HQs. Histórias fascinantes, recheadas de personagens familiares e outros completamente desconhecidos, mas igualmente cativantes – mesmo quando são escroques; a formação da indústria dos quadrinhos nos EUA tem um punhado deles.

A partir do momento em que Eisner se lança no mundo dos quadrinhos, sua vida foi recheada de momentos fantásticos – mesmo aqueles que poderiam parecer mais prosaicos.

O livro também narra, é claro, a vida familiar de Eisner. Nesse aspecto, se concentra principalmente em sua infância e adolescência – na verdade, iniciando esta parte do relato ainda antes, com a migração dos pais de Eisner para os Estados Unidos. É realmente muito comum que tal período seja dissecado em biografias de grandes artistas, de modo que possamos entender a influência que a criação e as experiências desse período de formação teve sobre suas obras. O interessante, na biografia de Eisner, é ver também o quanto a dura realidade da infância, associada a características aparentemente contrastantes herdadas de seus pais, transformaram Eisner no profissional que se tornou – artística e empresarialmente falando.

(Nesse ponto, abro um parêntese apenas para fazer uma breve comparação, obviamente resguardando as devidas proporções, entre Eisner e o nosso Maurício de Sousa. Durante a leitura, descobri que durante muito tempo Eisner e Maurício se utilizaram do mesmo modelo de negócios – e nunca vi nenhuma crítica ao primeiro com relação a isso, ao contrário do segundo. Ainda que os momentos históricos fossem diferentes, há uma semelhança nas razões que me é perfeitamente compreensível.)

Spirit foi marco nos quadrinhos (Foto: Divulgação)

Spirit foi marco nos quadrinhos (Foto: Divulgação)

Há, ainda, a explicação do hiato em sua carreira na indústria, quando Eisner se dedicou à produção de HQs educativas e institucionais – essas últimas, principalmente para o exército norte-americano. Uma atividade que Schumacher mostra não ter sido desenvolvida apenas como simples trabalho para pagar a hipoteca, mas na crença que Eisner sempre teve de que os quadrinhos poderiam ter mais sucesso em propósitos educativos do que praticamente qualquer outra ferramenta. Schumacher mostra que foi essa crença, aliada a de que a linguagem das HQs poderia ser constantemente refinada, foram as principais características a nortear o processo criativo de Eisner.

Outros pontos, como a vida adulta em família, constituída com a esposa Ann, também são perpassados. O caráter claramente doméstico de Eisner poderia fazer com que estas passagens servissem apenas como contraponto à sua (quase sempre) agitada vida profissional. Mas servem também para destacar a importância do companheirismo de Ann na vida do artista. Além disso, há toques de drama na casa dos Eisner, que viriam a marcá-lo profundamente e cuja importância não poderia ser ignorada.

Ainda assim, nada é contado no livro de forma sensacionalista. A fluida escrita de Schumacher, de notável sensibilidade narrativa, constrói um retrato antes reverente do que elogioso – e não havia como ser diferente. Mas também não se furta a tratar de episódios mais controversos, muito menos de relatar as animosidades que também moviam Eisner e os problemas que se seguiram a elas. O fato de esses episódios parecerem eclipsados diante de tantas outras histórias em que o gênio, o tino e o caráter de Eisner se sobrepõem, é justamente porque foram essas as características e valores que, percebemos, foram presente durante toda a sua vida.

Um Contrato Com Deus: um clássico da cultura pop e também dos quadrinhos (Divulgação)

Um Contrato Com Deus: um clássico da cultura pop e também dos quadrinhos (Divulgação)

Quanto à edição brasileira do livro, o tratamento gráfico é impecável; porém, algumas falhas na revisão ortográfica se fizeram notar. Mas nada que comprometa o resultado final.

Me esquivei de detalhar aqui qualquer uma das histórias contadas no livro por uma razão: sinto que, se eu o fizesse, estaria roubando de um futuro leitor a possibilidade de ele se surpreender tanto quanto eu. Cada página me fazia descobrir que a vida de Eisner foi tão fabulosa quanto muitas de suas obras. Isso é o que torna o livro uma leitura maravilhosa; tanto para quem conhece apenas por alto quem é Will Eisner, mas por alguma razão se interessou pela obra; e indispensável para os leitores de quadrinhos em geral. Eisner, literalmente, fez história. Uma verdadeira aventura.

eisnerWILL EISNER – UM SONHADOR NO MUNDO DOS QUADRINHOS
De Michael Schumacher
[Biblioteca Azul/Globo Livros, 424 págs, R$ 59,90 / 2013]
Tradução: Érico Assis

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