Quadrinhos não são literatura – e isso é ótimo

Por Dandara Palankof
Colunista da Revista O Grito!

Em outra vida, fui estudante do curso de Letras na Universidade de Brasília. Um período que aprendi mais coisas sobre a vida do que sobre a academia. Mas é lógico que alguns aprendizados vão além de com quantos vinhos vagabundos se faz uma festa no DA.

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Engraçado é o fato de que eu nunca imaginei que um dessas poucas lições que levei da UnB para a vida inteira viesse logo no primeiro semestre, em minha cadeira de Introdução à Teoria Literária. Rogério Lima era um professor bem singular. Uma pena que o resto da academia – com exceção de um cara chamado Gilson Sobral, resguardados determinados posicionamentos – não fosse assim. Rogério saía do cânone, gostava de apresentar a obra de artistas contemporâneos, de discutir os valores que nos faziam determinar o que poderia ser considerado arte e o que não era. O que era, afinal, literatura.

Eu, no auge de meus 18 anos, descobrindo que a o universo das histórias em quadrinhos ia muito além do que sabia minha cabecinha impúbere, dotada da arrogância da idade e do deslumbramento com o novo, larguei-lhe logo a máxima de quem quer imputar valor ao meio: quadrinhos são literatura. Lembro bem como se fosse hoje da minha indignação quando ele calmamente virou pra mim e disse que “Não. Não são, não.”

Um dos mais famosos autores de HQs, Will Eisner criou o termo “graphic novel”, hoje uma muleta (Foto: Divulgação)

Logicamente, comprei a briga. Desfiei os velhos argumentos do preconceito contra uma arte marginalizada por décadas – quiçá séculos! -, refém da indústria da massificação, de raízes muito mais profundas do que se pode imaginar, cuja contribuição cultural eram sistematicamente diminuídas enquanto sub-literatura para semi-letrados, mas que muitos autores usam com maestria a capacidade de estimular nos leitores o uso de diversas capacidades cognitivas simultaneamente, que era a expressão artística que mais se desenvolvia na atualidade e mais um monte desse blablabla que tanto prezo – prezamos.

Rogério escutou tudo pacientemente, olhou pra mim e afirmou: “Eu concordo com tudo isso. Eu adoro histórias em quadrinhos. Mas não é literatura. Ponto. São duas expressões artísticas diferentes. Com vocabulários diferentes. Que possuem alguns elementos em comum, mas que não são a mesma coisa.”

Fiquei um tempo ruminando aquilo. Eu teimava em procurar no discurso do professor algo que mostrasse seu apreço pela literatura enquanto forma elevada, colocando as HQs enquanto arte popular menor. Foi quando me toquei de que éramos nós, mesmos, leitores, fãs e apaixonados por quadrinhos, que estávamos caindo nessa esparrela. Em nosso afã de vermos o objeto de nosso apreço como sendo digno desse tal “valor”, acabamos deixando que a confusão nos levasse a aspirar pertencer a uma categoria da qual nunca fizemos parte.

Scott McCloud lançou livros seminais para entender os quadrinhos (Divulgação)

A questão é a seguinte: em princípio, ignora-se que as histórias em quadrinhos sejam mais do que apenas a junção de imagens e palavras – de que elas possuem um vocabulário próprio dotado de uma série de outros elementos. Assim, parecem ser compostas somente de imagens – cuja leitura é “fácil” e não prescinde de educação formal – e de palavras – que só podem ser decodificadas após o indivíduo passar por um processo específico de aprendizagem. Por isso, o papel das imagens seria o de “substituir” as palavras, tornando a leitura mais assimilável. Logo, temos um tipo de sub-literatura, já que, segundo o Houaiss, o termo “literatura” descreve o uso estético da linguagem escrita. Daí, quadrinhos seriam algo para crianças e semi-analfabetos – conceito que o próprio Houaiss trata de reforçar mais à frente, quando amplia o sentido do termo, adicionando ao seu significado a rubrica “literatura de massa” para designar “literatura de conteúdo facilmente assimilável (p.ex. contos e novelas sentimentais, histórias em quadrinhos, fotonovelas etc.), produzida para o grande público”.

Pois bem. Desde aquele dia, há cerca de dez anos, Rogério me fez entender que a literatura deve, sim, ser vista como a arte do manejo das palavras. Que ultrapassar essa fronteira é uma generalização que pode acabar servindo apenas para a manutenção de uma elitização hoje arcaica, de um meio que já foi tido como o supremo indicador cultural e, virando séculos, viu-se cercado de outras formas de expressão. Há de se deixar a literatura no canto dela e não submeter outras formas modernas a um crivo sem sentido.

Por mais que alguns queiram, Watchmen NÃO é uma graphic novel (Divulgação)

Ainda assim, mesmo com o conhecimento de que o vocabulário gráfico dos quadrinhos transcende a utilização de letras e palavras (muitas vezes prescinde delas), muitos admiradores e estudiosos continuam a querer, no meio acadêmico, o reconhecimento das histórias em quadrinhos enquanto literatura. Prova disso é a Jornada de Estudos Sobre Romances Gráficos, realizada pelo mesmo Instituto de Letras da UnB que abandonei há alguns anos (onde estará Rogério?). O evento teve, em 2012, sua terceira edição. E por mais que me agrade ver as histórias em quadrinhos finalmente sendo discutidas de forma gabaritada, fico me perguntando se os literatos não se perguntam até onde podem expandir o conceito de literatura sem que ele perca o significado.

(Parte disso, pra mim, advém do fato de que muita gente parece ter entendido errado quando o mestre Will Eisner chamou o que fazia de graphic novel. Qualquer gibi encadernado, agora, vira graphic novel, porque, afinal, é um termo muito mais respeitável do que “gibi”. Ninguém se deu conta de que a graphic novel é um gênero quadrinístico, dentro de tantos outros, todos com igual valor – este, dentro de um objeto, deve ser medido por outros critérios que não a forma pura, afinal. Resumindo, apenas PAREM de dizer que Watchmen é uma graphic novel. Porque não é. Nunca foi, nunca será.)

Ao mesmo tempo, tenho consciência de que ao defender que os meios tenham fronteiras bem delimitadas, o discurso pode ecoar engessamento. Mas tenho cá pra mim que elas devem existir até mesmo para serem quebradas, para que as diversas influências possam se misturar, se mostrar e fazer com que todos os meios evoluam dentro de si e, então, para fora. Um exemplo é que o audiovisual parece hoje uma grande miscelânea. Mas há de se saber o que funciona enquanto linguagem cinematográfica, televisiva ou para internet. O simples decalque de um para outro, volta e meia resulta em falhas grotescas – vide a maioria dos lançamentos da Globo Filmes.

Altamente inventiva, Gemma Bovery, de Posy Simmons, mostra que as HQs têm uma linguagem própria (Divulgação)

(Alguém provavelmente vai me acusar de querer que a arte, qualquer que seja ela, continue a ser algo superior, longe das raias do popularesco. E é verdade. Mas não vejo isso como uma postura de elite – isso seria querer que o acesso à arte continuasse restrito a determinados estratos sociais, quando minha utopia é que, como diria Wilde, o público se tornasse artístico, em vez de a arte tornar-se popular.)

Ou seja, não é porque foi filmado que deve ser um filme. E não é porque está num livro que deve ser literatura. Gemma Bovery, publicado pela Conrad em 2006, é um ótimo exemplo. As referências literárias vão bem além do título, mas as experimentações de linguagem da autora (a talentosíssima Posy Simmonds) não fazem com que sua graphic novel – sim, neste caso, ela realmente o é – se tornem literatura. É uma HQ. Inventiva e surpreendente em seu experimentalismo. Sem deixar de ser um gibi.

Tais posicionamentos cristalizaram-se ainda mais em mim quando, em meados de 2004, conheci a obra máxima de Scott McCloud, aquele que deve ser o mais pop dos analistas da forma quadrinística. Seu Desvendando os Quadrinhos, pra mim, acabou sendo mais importante que o seminal Quadrinhos e Arte Sequencial, de Eisner. As análises de McCloud sedimentam os quadrinhos como expressão artística em si e que, dados os elementos envolvidos, acaba sendo um primo bem mais próximo das linguagem audiovisual do que da literária, guardadas as devidas proporções. E que reconhecê-la como tal é importante para o desenvolvimento do gênero, mesmo que tais concepções possam acabar sendo colocadas por terra no futuro – o que, como ele mesmo diz, provavelmente irá acontecer.

Laerte: explorando as muitas possibilidades das HQs (Reprodução)

De qualquer forma, no presente momento, recomendo a qualquer um que não se deixe enganar pela contracapa da edição brasileira (que praticamente vende o livro como um manual), muito menos pelo traço cartunesco do autor – sim, é um livro sobre quadrinhos em quadrinhos, o que não poderia ser mais adequado. É uma análise profunda do que é, afinal, uma história em quadrinhos; sua conceitualização, seus elementos e de como eles como podem ser utilizados e percebidos. Além disso, é um belíssimo tratado sobre a importância da semiótica em nossa percepção da realidade, sobre a relação do homem com a imagem de si e do meio que o cerca.

E sigo hoje como uma defensora dos quadrinhos enquanto arte que deve amadurecer em si mesma, cujo reconhecimento deve vir como o de qualquer outro meio: mensagem e utilização de possibilidades estéticas. E as possibilidades para tanto, dentro das HQs, são quase infinitas – vide Alan Moore e Laerte. Um viva aos quadrinhos enquanto quadrinhos. Até que a próxima pedra me quebre a vidraça.

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* Dandara Palankof é a iden­ti­dade secreta da Garota Sequencial. Diz que sua rela­ção com qua­dri­nhos é des­tino, já que apren­deu a ler com um gibi do Cebolinha. Nerd orgu­lhosa, mar­vete e edi­tora do gibi Estranhos no Paraíso, publi­cado no Brasil pela HQM Editora.”

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