O QUE VEM DEPOIS DO ANTES
Os quadrinhos, como indústria, querem deixar claro que nada é intocável

Por Dandara Palankof
Colunista da Revista O Grito!

A San Diego Comic-Con acabou na semana passada e a Marvel bem que tentou chamar a atenção com a reformulação de seus títulos, que vai acontecer após a conclusão da mega-saga Avengers VS. X-Men, mas provavelmente a notícia que mais causou furor em nerds (ou, para aqueles que não gostam de assim se intitular, leitores de quadrinhos) de todo o mundo foi que o roteirista Neil Gaiman vai voltar aos personagens que o consagraram e vai escrever para a DC o prelúdio de Sandman.

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Gaiman anda dizendo que a história está em sua cabeça (genial) há muito tempo; que já estava lá quando a série original foi encerrada e que agora finalmente será contada. Se você leu ao menos a primeira edição, sabe que o personagem que dá nome à série começa a história cativo, aprisionado por um homem com motivações escusas. Gaiman quer contar agora “a história do que aconteceu com Morfeu e permitiu que ele fosse capturado tão facilmente e por que ele veio de tão longe, absurdamente exausto, e trajado para guerra.”

Sandman, como você provavelmente sabe, é uma das obras que redefiniu as histórias em quadrinhos nos anos 1980, ajudaram o meio a alcançar o reconhecido status de expressão artística legítima e simbolizou o que se costuma chamar de “Invasão Britânica”, quando as editoras norte-americanas de quadrinhos – principalmente a citada DC Comics – perceberam o que alguns roteiristas meio loucos estavam fazendo lá na Terra da Rainha e os levaram pra trabalhar nos EUA.

Além de Neil Gaiman (e vários outros) havia também aquele barbudo metido a ocultista chamado Alan Moore, de cuja mente (assombrosamente genial) saiu a seminal Watchmen, considerada por muitos a melhor história em quadrinhos de todos os tempos. E Watchmen, série fechada em 12 edições, também ganhou recentemente uma série de prelúdios – como você provavelmente já deve saber. As mini-séries Before Watchmen já estão sendo publicadas, contando o passado dos personagens Rorschach, Minutemen, Comediante, Dr. Manhattan, Coruja, Ozymandias e Espectral; tem gente de peso envolvida, como os roteiristas J. Michael Straczynski e Brian Azzarello e o desenhista Joe Kubert.

E sim, tá vendendo muito bem, obrigada. Mesmo com a recusa de certos lojistas em colocar o gibi em suas prateleiras. Mesmo com o esperneio de fãs e críticos. Mesmo com Alan Moore, em pé de guerra com a DC há muito tempo, desaprovar publicamente os gibis (pra dizer o mínimo) e convidar todos aqueles que comprarem as mini-séries a nunca mais lerem um gibi seu (porque ele, em suas próprias palavras, verdadeiramente despreza tais indivíduos). E é quase certo que os números de Sandman Zero, como andam chamando o projeto, também deixarão muitos executivos contentes.

Afinal de contas, é pra isso que tais projetos existem. Mesmo se acreditarmos que são verdadeiras as declarações de Gaiman de que ele queria contar essa história há muito tempo, de que outras oportunidades escaparam – ainda que ele tenha negado uma oferta da DC para retomar a série, dizem, pelo número insuficiente de zeros em seu cheque. E é a busca do lucro (em princípio) fácil toda a razão do rancor de Moore.

Watchmen e Sandman são HQs consideradas quase sagradas pelos fãs mais xiitas (Foto: Mar Francisco/Flickr)

Dan Didio, editor da DC, entre outras justificativas, afirmou que o lançamento de Before Watchmen é também necessário para aquecer o mercado de quadrinhos dos EUA. A mesma razão provavelmente se aplica a Sandman Zero: manter acesa a chama de uma indústria que, até o momento, já movimentou cerca de US$ 223 milhões de dólares pros editores ianques. Uma cifra que não chega nem perto da bilheteria de um blockbuster. Mas não é por isso que existem as adaptações cinematográficas – para que as grandes editoras de quadrinhos, hoje parte de conglomerados que incluem os estúdios de cinema, possam lucrar ainda (muito) mais com sua propriedade intelectual? Porque, então, não deixar os quadrinhos em si fora disso?

Pois bem; meu bróder Leandro Damasceno recentemente escreveu um artigo no qual faz algumas considerações sobre os quadrinhos que, num movimento contrário ao que se costuma ver, nasceu primeiro como indústria e só depois se desenvolveu – continua a se desenvolver – enquanto expressão artística. Ainda assim, durante muito tempo, era uma indústria voltada pra um gueto muito específico, marginalizado e, talvez por isso, bastante apegado aos seus ícones. Mas como disse Leandro, nós vencemos. A cultura dos quadrinhos, o mundo dos super-heróis, é hoje parte do mainstream. Isso tem, é claro, muitas benesses. Mas também tem desvantagens e uma delas é perceber que não, meus caros: nada é intocável.

E cá entre nós, nem deve.

Alan Moore saiu vociferando contra Before Watchmen (Foto: Divulgação)

O Sidney Gusman (editor-chefe do Universo HQ e responsável pelo Planejamento Editorial da Maurício de Souza Produções) já disse muitas vezes que editora não é instituição de caridade. Ganhar dinheiro sempre foi e sempre será seu objetivo primário. É ingenuidade querer que os Novos 52 não acontecessem por conta da inevitável interferência da Warner ou que a Marvel não tirasse algum mega-evento da cartola pra não deixar a Distinta Concorrência continuar a liderar as vendas. E com tanta avidez, como evitar que as editoras resolvam, entre outras coisas, tentar fazer com que as velhas galinhas dos ovos de ouro rendam um pouquinho mais? Mas sabe qual o saldo final disso?

Um cenário cada vez maior e diversificado.

Ora, convenhamos: só quem perde com a publicação de Before Watchmen é o ego do Alan Moore. E não me entenda mal: eu não tenho intenção de ler as mini-séries. Nem mesmo curiosidade (apesar de ser fã do Azarello). Sou fã xiita ao ponto de não gostar nem mesmo de Watchmen publicado em coletânea – “true” mesmo é a edição em 12 números que a Abril fez o favor de trazer em 1999. A propósito, também acho Absolute Sandman uma edição pega-bobo, porque recolorir gibi, pra mim, é um absurdo imperdoável. Mas não tenho o menor problema com o fato de essas histórias e edições existam.

Neil Gaiman aceitou voltar para seu personagem mais famoso, Sandman (Foto: Reprodução)

Porque sei que minha visão é compartilhada por muitos, mas também contestada por tantos outros. Os números provaram que muita gente quer ver o universo de Watchmen se expandir além das conjecturas, que certas edições de luxo fazem os olhos de muita gente brilhar. O recomeço da DC também ta indo muito bem e tem gente discutindo acaloradamente cada edição de Avengers VS X-Men. Esses leitores existem e provavelmente estão se sentindo muito bem atendidos com o atual cenário. Satisfação pra eles, satisfação pros caras das cifras.

E se você não nos enquadramos nesses casos… bem, não compremos. O mercado, a despeito das declarações de Didio, pode não estar rendendo ainda o quanto eles desejam, mas possui uma inegável diversidade. Vamos ler a Dark Horse, a Fantagraphics ou outros dos tantos quadrinistas independentes que vão aparecendo ou há tempos tão aí (já conhece Rachel Rising?). Ou deixar de pantim e pinçar um título bacana que as majors ainda publicam; (quase) sempre há – não sei você, mas eu tô beeeeeeeem a fim de ler essa nova fase do Homem-Animal. E claro, não só isso; troque uma idéia com quem diverge de você. Praguejar contra a sanha dos executivos não vai adiantar muita coisa. Mas estimular o debate e mostrar que tipo de histórias os leitores desejam ler hoje em dia, sim. Mas, tenha certeza, muitas vezes não vai ser aquilo que você ou eu queremos.

Ainda bem.

PS: se você não se interessou por Sandman Zero, lhe desafio a ver a imagem promocional de autoria de J. H. Williams III, desenhista escolhido para a empreitada, e não ficar, no mínimo, curioso.

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