AVENGERS VS X-MEN: QUE VENHA A NOVA ERA
Esta mega-saga, apesar de todas as obviedades, merece atenção

Por Dandara Palankof
Colunista da Revista O Grito!

Ser leitora do maistream dos quadrinhos tem vantagens e desvantagens e, geralmente, lhe coloca em uma montanha-russa de opiniões e sentimentos ao longo do tempo, mas acho que, uma vez que você já foi nerd de se gabar de saber quantos uniformes seu super-herói favorito já teve, você está fisgado pra vida inteira.

Leia Mais: 
Dê um gibi de super-herói para uma menina
Apoie sua comic-shop local
A beleza agri­doce de The Wrong Place
Nada é into­cá­vel: o caso Before Watchmen
Toda mulher se faz de Lôca: O retorno de Love & Rockets
Quadrinhos e música pop

Então, mesmo que eventualmente você amaldiçoe toda a indústria e seus criadores vendidos, abandonando gênero, eventualmente vai acontecer uma recaída, ou mesmo um revival. Um amor que dura pra vida inteira, mas não é bem um casamento. É mais um caso.

E uma ótima razão pra recaídas são as mega-sagas. Claro, muita gente torce o nariz, mas eu ainda sou dessas bobas que gostam de saber a nova mudança do status quo do universo da editora tal que, todos sabemos, vai ser meio esquecida no verão que vem. São os blockbuster da indústria dos quadrinhos. E poxa, quem é que não curte um de vez em quando? Vez ou outra eles até respeitam sua inteligência!

Cena de Vingadores Vs X-Men 7, minissérie que saiu nos EUA (Divulgação)

Brian Michael Bendis, por exemplo, é um cara que consegue escrever histórias bastante vendáveis, mas cujo apelo vem de suas estruturas muito bem fundamentadas. Bendis tem ritmo, bons diálogos e conhece bem os personagens com os quais trabalha – não à toa, o cara virou praticamente o dono da Marvel nos últimos anos, orquestrando alguns dos principais acontecimentos da editora; e mesmo que a provável melhor saga desde sua “tomada” da casa das Idéias não seja de sua autoria – a Guerra Civil escrita por Mark Millar – talvez ela não tivesse acontecido não fosse a semi-revolução que Bendis criou na editora.

Tudo isso pra dizer que, recentemente, tivemos a conclusão da última mega-saga da Marvel e que (obviamente) dará início a uma nova era na editora do hoje todo poderoso Homem-de-Ferro. A última edição de Avengers vs X-Men – a de número 12 – foi publicada recentemente e acho que, apesar de todas as obviedades, a saga merece o mínimo de atenção que seja.

Mesmo mais distante das histórias da Marvel nos últimos tempos, o apelo de Avengers vs X-Men era inegável. Vinha não apenas do clássico mote dos crossovers – o blábláblá nerd onanista de ver herói contra herói, mas também porque a saga encerra uma série de acontecimentos iniciados no primeiro grande evento de Bendis no universo Marvel regular – pra quem não lembra, o roteirista ganhou fama depois de escrever a versão do Homem-Aranha do Universo Ultimate (que eu não sei como anda atualmente, mas começou muito bem).

O pior é que logicamente muitas coisas aconteceram desde 2004, quando Bendis desmantelou os Vingadores em A Queda. E, obviamente, dado meu distanciamento, muita coisa só vi acontecer de longe, lendo uma notícia aqui, um spoiler ali. Mas o básico já era de meu conhecimento – e se você também perdeu um monte de coisas, como eu, apenas jogue alguns desses nomes no Google e a Wikipedia vai explicar (complicando) a situação pra você: a Feiticeira Escarlate enlouqueceu em A Queda; exilada e acuada, acabou abusando de seus poderes de manipulação da realidade para tornar os mutantes a raça hegemônica na Terra, sob liderança de Magneto, em Dinastia M. Wolverine, que por conta de sua cabecinha muito zoada lembrava de como as coisas realmente eram, reuniu uma equipe para consertar as coisas – e conseguiu; mas ao custo de Wanda proferir a (hoje antológica) frase “no more mutants” e reduzir a população de milhares de mutantes a algumas poucas centenas; os resultados disso foram vistos em Dizimação; e é mais ou menos aqui que eu saio um pouco da estrada.

Os X-Men acabaram um pouco isolados do resto do Universo Marvel após esses eventos, com uma participação quase secundária nos outros grandes eventos, quase que totalmente focados nos Vingadores, como a Invasão Secreta (muito bem orquestrada, aliás). Bom… é mais ou menos por aí que eu fico meio perdida. Muitas coisas aconteceram com os mutantes e eu realmente não passei nem perto de acompanhar tudo. Mas o principal, que nos leva à referida saga, cheguei a acompanhar: em Complexo de Messias, depois da população “mutuna” quase extinta, nasce a primeira criança mutante em muito tempo. Depois de (é claro) muita briga pra determinar o destino da menina – inclusive com Bishop tentando assassinar a criança, acreditando que ela é o gatilho para a concretização de sua linha temporal distópica – ela acaba sendo levada para o futuro por Cable.

(E é justamente isso que quero dizer com as vantagens dos blockbuster quadrinísticos: mesmo com todo esse tempo afastada dos gibis mutantes, ainda posso aproveitar a leitura da última saga, com o mínimo de informação; basta que a história seja bem construída.)

Enfim, muita água rolou por baixo dessas pontes, mas o que importa é que em algum lugar foi dito que Hope, crescida e de volta ao presente, seria a nova hospedeira da força Fênix – essa mesma, que tanto estrago já causou. Vingadores se apavoram; os X-Men liderados por Ciclope, com o louco do Namor fazendo parte da equipe e a sempre dúbia Emma Frost ainda ao lado de Scott, vivendo numa ilha (adequadamente) chamada Utopia, acham que esse retorno pode ser a salvação da espécie mutante. E o Wolverine, a essa altura, está dirigindo sua própria escola, chamada (olha só que coisa) Jean Grey – e não, reitero que eu realmente não sei como isso tudo aconteceu. Enfim, Logan acha que o Ciclope está cada vez mais louco e se posiciona com os Vingadores. Soa o gongo para o conflito do século.

Pois bem: AvX, como a série geralmente é abreviada, começou muito, mas MUITO mal. Era tudo muito raso, com os embates entre os heróis parecendo forçados, gratuitos mesmo. Não me pareceu que os pontos de tensão construídos fossem suficientes para botar o Capitão América e o Ciclope para se digladiarem, por exemplo; pareciam apenas duas pessoas super-poderosas cheias de testosterona e nenhum raciocínio ou razoabilidade em suas cabecinhas, não os líderes de duas das equipes mais importantes do mundo 616; uma postura que até caberia ao atual Ciclope, mas não a Steve Rogers, até onde vejo; logicamente, para levar a isso, os diálogos não poderiam ser bons – e olha que além do Bendis, tinha outros bons roteiristas envolvidos, como o Matt Fraction e o Ed Brubaker.

Mas o que mais me surpreendeu no começo da série foi a qualidade da arte: John Romita Jr. é um dos meus desenhistas preferidos. E eu nunca, repito, NUNCA tinha visto o Romitinha desenhando tão mal. Era absurdo o nível de desleixo que se percebia nas páginas das primeiras edições de AvX. Ver um artista apresentar um trabalho aquém de seu nível não é incomum na grande indústria de HQs, dada a pressão de prazos e tudo o mais. Mas não deixa de ser chocante, principalmente quando o artista em questão prima justamente pelo contrário. Em suma, a série me parecia mais um daqueles crossovers dos anos 1990, com muita pancadaria e nenhuma relevância, do que uma saga que iria alterar a estrutura do Universo Marvel.

E eu ainda acho sensacional quando me engano redondamente.

A série começa a melhorar a partir do quarto número e, no final da quinta edição, já é capaz de lhe fazer levantar uma sobrancelha com as surpresas que vão acontecendo. E é a partir daí que os autores finalmente fazem valer seus nomes e começam a criar momentos dignos de serem lembrados. Se alguém esperava que o clímax da história fosse a derradeira chegada da Fênix (eu, aqui, culpada), pura ingenuidade. Quando ela finalmente acontece (após uma canhestra tentativa de alguns Vingadores de impedi-la) é que tudo começa de verdade e as coisas começam a ficar interessantes. Alianças feitas e desfeitas, traições, embates com reais propósito. Tudo, finalmente, muito bem contextualizado e crescendo em tensão a cada nova edição e que, sim, parecia dar indícios de que, depois de sua conclusão, nada mais seria o mesmo. Agora, sim, tínhamos uma mega-saga de verdade.

E além de alguns fatos marcantes, o que realmente me marcou em AvX foi o tratamento dado a alguns personagens – sempre a marca registrada de uma boa história. E nisso, gostaria de dizer que AvX é a história de um grande vilão: Ciclope. Sim, por mais estranho que isso possa soar, por mais que eu ainda tenha demorado a me decidir a escolher este termo em detrimento de “anti-herói”, Ciclope acaba por se tornar mesmo o grande vilão da história. Um herdeiro digno de, vejam só, Magneto – o que torna as coisas bem interessantes dentro do universo X, que tem Xavier e Eric Magnus como seu yin-yang.

O crescimento de uma personalidade um pouco mais negra de Scott vem desde sua ressurreição (depois de ter sido morto por Apocalipse), foi sussurrada por Grant Morrison em sua fase à frente dos X-Men e foi se cristalizando cada vez mais, principalmente, após a Dizimação, a mudança para San Francisco e a ameaça de Norman Osborn, que enganou meio mundo no pós-Invasão Secreta. Ciclope aos poucos foi deixando os ideais de comunhão com a espécie humana em prol da ideia fixa de que precisa defender sua espécie da extinção, o que o levou a trilhar um caminho, no mínimo, fascista.

O que talvez seja o acontecimento mais chocante na série, o é não por ele em si, mas por ter sido perpetrado pelas mãos de Scott Summers; algo que nem mesmo o leitor mais audaz poderia imaginar algum dia, mesmo sendo essa uma indústria em que tudo pode acontecer – até mesmo o Super-Homem virar um ser elétrico e se dividir em dois (creindeuspai).

Ele acaba, dessa forma, roubando completamente a cena de Hope durante grande parte da série. É claro que na conclusão, relativamente previsível, a filha adotiva de Cable tem seu lugar sob os refletores – junto, é claro, da Feiticeira Escarlate, encerrando todo o ciclo começado lá em 2004 e preparando o terreno para a tal nova fase, chamada Marvel Now. Mas ainda assim, cabe a Ciclope deixar o ato final ligeiramente aterrador, com o frio na espinha de não mais reconhecer alguém com quem você cresceu.

_
* Dandara Palankof é a iden­ti­dade secreta da Garota Sequencial. Diz que sua rela­ção com qua­dri­nhos é des­tino, já que apren­deu a ler com um gibi do Cebolinha. Nerd orgu­lhosa, mar­vete e edi­tora do gibi Estranhos no Paraíso, publi­cado no Brasil pela HQM Editora.”

Sem mais artigos