APOIE SUA COMIC-SHOP LOCAL
Além das livrarias (que vai muito bem), lojas de quadrinhos ajudam a fortalecer a cultura dos quadrinhos no País

Por Dandara Palankof
Colunista da Revista O Grito!

Eu não tenho certeza se tinha bem introjetado o conceito de comic shop quando conheci uma pela primeira vez. E ainda demorou um pouco para que eu começasse a freqüentar a única loja do gênero em Brasília (sim, esta que vos fala residia no planalto central até quatro anos atrás).

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Na época, começando a adolescência, as bancas de jornal ainda me supriam de todas as minhas necessidades quadrinísticas – o que prova como elas eram rasas, mas eu era jovem. De qualquer forma, a Editora Abril ainda era onipotente no mercado e até conseguia distribuir alguns títulos alternativos pelas bancas; só pra exemplificar, foi entre meus 12 e 13 anos que conheci Estranhos no Paraíso e entrei em contato direto com o universo de Sandman através da mini-série Morte – O Grande Momento da Vida, ambas publicadas pela editora dos Civita.

E mesmo quando conheci a Kingdom Comics – ainda a única comic shop brasiliense – demorei mais um pouquinho para virar habituè. Quando o fiz, um novo mundo de pequenas editoras, personagens e títulos dos quais nunca ouvira falar, se abriu pra mim. Fora a camaradagem e troca de conhecimentos com outros clientes e funcionários. Ir à Kingdom não apenas para aumentar a coleção, mas também para trocar ideias tanto tornou-se um hábito que o grupo que tão gentilmente me acolheu é chamado até hoje de “Escorados no Balcão da Kingdom”.

Era uma época em que o mercado brasileiro de quadrinhos ainda enfrentava as atribulações da escassez de leitores de material alternativo e dificuldades no processo de distribuição. Tais problemas persistem, mas tiveram melhora significativa; basta observar o número de livrarias que hoje possuem seções voltadas para a nona arte, reflexo direto do número de editoras grandes que criaram selos específicos para a publicação de histórias em quadrinhos – sendo talvez o Quadrinhos na Cia. (Cia. das Letras) o exemplo mais significativo.

Fora do eixo RJ-SP, a iniciativa da Panini dos Novos 52, irá valorizar as comic shops menores

A Panini havia acabado de chegar ao mercado e se resumia a publicar os títulos básicos de Marvel e DC. A Conrad dominava o mercado de mangás, com a JBC correndo por fora. Enquanto isso, editoras como Brainstorm e Devir se encarregavam de tentar preencher algumas das lacunas que os fãs de quadrinhos sentiam. E tudo o que ela e outras editoras publicavam só podiam ser encontradas em comic shops – que fora do eixo RJ-SP, também eram responsáveis por “burlar” a chamada distribuição setorizada, na qual estes estados recebiam as publicações com, em média, dois meses de antecedência.

Também era através delas que podíamos importar toda a sorte de gibis estrangeiros: qual nerd de verdade nunca pegou, ou verificou on-line, o Recado, informativo da importadora, distribuidora e editora Devir (por muito tempo, a rainha do mercado alternativo do Brasil)? Sem contar a produção nacional! Para os quadrinistas brasileiros que conseguiam driblar todos os empecilhos para se publicar por aqui, era somente nas comic shops que se podia achar esse material.

Em resumo, as comic shops, emblemáticas e parte imprescindível do mercado norte-americano de HQs – porque lá gibi não se compra em banca –, não tinham a mesma abrangência no Brasil; mas para um seleto público, elas eram verdadeiras mecas de sua paixão pelas histórias em quadrinhos.

A vendedora da comic-shop. Arte de Ryan Kelly.

Isso tudo me veio à mente na semana passada, quando comprei meu exemplar de A Sombra do Batman #1 na Fênix Comics. A loja, se não é a única no Recife, é com certeza a melhor – me lembro ainda da Magic, mas seu acervo é voltado para mangás e animes. Há pouco tempo localizada na Conselheiro Portela, é “o” lugar pra encontrar o último Mortos-Vivos ou aquele volume de Fábulas que você deixou passar. Além de um monte de bonequinhos – ou action figures, se você acha que “bonequinho” é coisa de criança –, verdadeiros eye candies.

Com sua decisão de lançar todos os 52 títulos da DC pós-reboot, mas ciente de que o mercado brasileiro de quadrinhos ainda está longe de ter as mesmas vendas que países como Estados Unidos e Japão, a editora resolveu apostar justamente nas comic shops. Comix e Devir, já responsáveis por suprir outras lojas do país com os mais diversos títulos, agora são as distribuidoras oficiais e exclusivas de alguns títulos dos tais Novos 52, provavelmente a maior cartada mercadológica que a Panini botou na mesa desde sua chegada no Brasil, em meados de 2000.

HQs da DC vendidas exclusivamente em comic-shops. Aqui, expostas na Zona Franca Comic Shop, em Manaus (Foto: Reprodução)

Isso não muda muita coisa no eixo RJ-SP, que sempre teve uma facilidade muito maior de encontrar publicações nacionais e importadas. Mas para outros estados, acredito que a iniciativa da Panini venha para valorizar as comic shops menores. Uma parte do público consumidor, com certeza, migrará das bancas – que ainda sofrem com a distribuição – e fortalecerá as lojas. Com um possível crescimento, aumenta a variedade de títulos disponíveis, o que amplia o universo de leitura de um freqüentador menos informado e dá ainda mais disposição a compradores com mais conhecimento de ir à loja e pegar seu gibi indie favorito. Mais clientes se encontrando podem trocar mais idéias, fortalecendo não apenas o mercado, mas também o convívio entre leitores, trocando idéias e conhecimentos.

Fênix Comic Shop, no Recife: uma das mais antigas da cidade (Foto: Divulgação/Facebook)

Não estou, de forma alguma, afirmando que as prateleiras das livrarias são dispensáveis; este espaço conquistado também é de suma importância, já que hoje são o lugar certo para se encontrar graphic novels (que ao contrário do que muita gente pensa, não é simplesmente um encadernado, mas um gênero específico dentro da produção quadrinística) e também são uma nova porta de entrada para um público que não tem o hábito de ler quadrinhos.

Creio que a co-existência dessas duas casas, livrarias e comic shops, seja o ideal para o fortalecimento da cultura dos quadrinhos no País. Acredito que as primeiras estão indo bem. E também que estamos no caminho de melhorarmos as segundas. Portanto…

Apóie sua comic shop local!

Foto que abre a coluna: Vidigal, no Flickr.

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* é a iden­ti­dade secreta da Garota Sequencial. Diz que sua rela­ção com qua­dri­nhos é des­tino, já que apren­deu a ler com um gibi do Cebolinha. Nerd orgu­lhosa, mar­vete e edi­tora do gibi Estranhos no Paraíso, publi­cado no Brasil pela HQM Editora.

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