Galo da Madrugada

Ê Pessoal, ê moçada…
Carnaval começa babilonizando no Galo da Madrugada
Por Fernando de Albuquerque

Que o Galo da Madrugada é o maior bloco do mundo todo mundo já está careca de saber. Todo ano também o número de pessoas aumenta, fomentando o recorde, alimentando o mito e fazendo com que mais e mais gente, pelo país afora (vale ressaltar) leia coberturas, assista a programas de tevê ou mesmo se fantasie e vá aturar, com sorriso ressabiado na cara, os 40 graus de um calor incomensurável que faz no meio da rua. Gente, o asfalto esquenta de verdade e haja água mineral pra evitar a desidratação e retirar plumas e paetês que insistem em se colarem ao corpo com ajuda do suor.

E como já era de se esperar: foram quase três milhões de pessoas espremidas entre as ruas do bairro de São José, correndo atrás dos 35 trios elétricos (todos devidamente patrocinados!), se engalfinhando com todo tipo de gente e claro (!) cantando todas as velhas marchinhas que tanto caracterizam o carnaval. E aí vai “Madeiras que cupim não rói”, “ô Jardineeeeeira porque estais tão triste”, “Dalvaniiiira…é elaaaaa, tire sua roupa na janela”!

Mesmo com o tema versando sobre máscaras, quem atraiu os holofotes de verdade foi o índio do carro abre-alas. O rapaz, muito bem selecionado por sinal (está aí os parabéns à organização), trajou apenas (repito apenas) um cocar e uma espécie de tapa sexo masculino. Sem sunga por baixo o modeléte balançou sua fantasia da praça Sérgio Loreto, onde sai o bloco, até a apoteose na Av. Guararapes. Uma trajetória de verdadeiro gozo para ele que tornou-se a celebritie do momento e para os foliões que acompanhavam a encenação.

Mas além da pornografia de todos os anos (mulheres seminuas, testosterona a mil, e brigas de espada) a sátira maior ficou por conta dos cartões cooporativos do governo federal e o surto da febre amarela. Como no caso do corretor Osvaldo Costa e da socióloga Nilda Magalhões. O respeitoso casal se fantasiou de Lula e da primeira dama Marisa e tiveram suas fotos estampadas em todos as capas de jornais. Nas mãos de “Marisa”, um cartão coorporativo gigante, o “PT Card”, exibia o sem limite de gastos do governo federal.

E as fantasias foram de uma imaginação sem limite, com encenação das “dançarinas do Creu”, “bofes de elite” e mais uma série de parangolés completamente desmioladas, cuja imaginação só pode ser fruto especulativo de anos utilizando o nariz no banheirón.

Mas se pensarmos o carnaval tal como ele é vemos que o faustosismo cênico nada mais é do que fruto direto das relações sociais contemporâneas. O chão das ruas recifenses funcionam como palco para a grande massa anônima possa se destacar alimentando suas vestes com a cultura fast-food televisiva e internética. Afinal, em 30 minutos de desfile, pude contar cinco Britneys e duas Paris Hiltons.

Os contornos plásticos fogem da mesmice de carnavais paulista, carioca e baiano montados como espetáculo para uma pequena elite aboletada em camarotes com bandeiras de cervejas, emissoras de televisão e fábricas de cosméticos. O Galo vai de encontro a toda essa lógica e se configura como uma grande agência mediadora da felicidade para a maioria anônima. Nele cultura popular e comunicação de massa articulam-se, influenciam-se e interagem de modo a construir maneiras próprias de formulação e significação da própria identidade humana. Não é à toa o lema: “No Carnaval todos se soltam”. Os foliões entram numa espécie de negociação com a própria realidade pós-moderna, quando o relógio dá um tempo para todos serem si mesmos, mas cobertos por miçangas e roupas coloridas.

Deveriam fazer um hino para ser cantado com sotaque britânico:
God Save the Galo!
God Save the madness!
E que muita gente use o nariz no banheirón!

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