Foto: Amanda Niekamp

Uma vez você me perguntou se eu te amava. Eu nunca soube responder. Afinal, já havia passado por diversas sensações que eu julgava serem amor, mas que o tempo me provava que não chegava perto disso. Amor. Amor? Acho que eram apenas ilusões, como se o amor não fosse algo real, mas apenas a sua própria possibilidade. Me confortei nessa teoria.

Aí você veio, mais uma ilusão para mim. Mais um começo de história em que o término, invariavelmente, era o desamparo, a mágoa. Essa previsão da lenta e torturante destruição do que ingenuamente fora chamado de amor era o que mais me corroía. Começos nada mais eram do que inícios do fim; brigas eram ensaios provando a iminência do espetáculo da total aniquilação de alguém que sonhava em ter um outro alguém para sempre. Como nos contos de fadas, cujo raciocínio final era lógico: “ora, se fossem histórias possíveis, não seriam contos ‘de fadas’”. Há algo de muito podre nesse negócio de ser ser humano. Como duas pessoas simplesmente não conseguem ser “felizes para sempre”?

A gente começou assim. Eu feliz, mas ciente de todas as peripécias que envolviam o começo de uma relação. Você, radiante, feliz, irriquieta. Fui seu primeiro. Seus olhos brilhavam e sua simplicidade para gostar de mim me impressionava. Parecia tudo tão fácil, tão certo. Até eu, cético e desiludido, passei a enxergar diferente. Meu coração batia em um compasso mais calmo. Não havia a ânsia das resoluções instantâneas, a pressa em nos transformar em cúmplices eternos. Havia apenas um carinho, um gostar. E esse “apenas”, se tornou tudo para mim.

Fomos felizes. Consegui me imaginar novamente sentado na praça, velhinho, velhinho, ao lado da pessoa que eu sempre amei. E ela, segurando minha mão, ainda me daria aquele sorriso pelo qual eu continuaria apaixonado.

Fomos felizes.

Mas você foi embora. Justo agora.

Uma vez você me perguntou se eu te amava. Eu nunca soube responder.

Acho que só agora eu descobri o porquê. A verdade é que eu nunca soube o que é o amor. Nunca soube amar. Mas, quando eu descobri o amor ao seu lado, que nada mais é do que a pura vontade de querer existir, por alguém, para alguém, sua alma me deixou.

Agora, eu enterro ao seu lado essa pequena lembrança como um tesouro. Para que só você saiba, para sempre, como descobrir o amor em mim.

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