Em narrativa sincera, Bechdel explora o passado em célebre e controversa HQ

Fun Home - Uma Tragicomédia em Quadrinhos Pág. 23

FUN HOME – UMA TRAGICOMÉDIA EM FAMÍLIA
Alison Bechdel (texto e arte)
[Conrad, 240 págs, R$ 42,90]

No início de Fun Home, que a Conrad lança este mês, a autora Alison Bechdel lembra o mito de Ícaro e Dédalo ao rememorar sua relação com seu pai. Essa e outras referências a literatura universal pontuam a obra, eleita o livro do ano de 2006 pela revista Time, o que aumentou o debate sobre os quadrinhos serem ou não literatura.

A trama é autobiográfica e não mostra muitos pudores. Alison revisita sua infância e adolescência, em especial a descoberta de sua homossexualidade e a relação com seu pai, Bruce, um professor de literatura que esconde a homossexualidade e passa os dias cuidando do casarão em estilo vitoriano no lugar de dar atenção à família. Esse debate franco causou polêmica em uma biblioteca dos EUA que criticou seu conteúdo adulto.

Fun Home não se destina à controvérsia. De forte teor subjetivo, a obra figura entre os clássicos autobiográficos dos quadrinhos, como Maus, onde os autores exploram de maneira tocante a linguagem das HQ’s para fazer uma reflexão sobre suas vidas. A construção dos personagens flui de modo tão verossímel na narrativa que é impossível não vivenciar o cotidiano de Alison. A poesia em seus desenhos e textos são discretos.

O título deriva da ocupação de Bruce em cuidar da casa funerária da família – funeral home, em inglês, que abreviada para “fun home” (casa da diversão”) pelas crianças, batiza o livro.

Fun Home - Uma Tragicomédia em Quadrinhos A Conrad tinha anunciado o lançamento para 2008, mas decidiu antecipar. Sua edição teve um cuidadoso trabalho de tradução e arte, que diga-se, superou em alguns pontos o original americano, como a capa, por exemplo. A autora, Alison Bechdel ficou famosa no mundo inteiro após este álbum e já prepara uma continuação. Nascida em 1960 na Pensilvânia, EUA, desenha desde 1983 a tira Dykes To Watch Out For, publicadas em vários jornais alternativos do mundo todo. A força de um lançamento como Fun Home é atrair leitores não tradicionais de quadrinhos e mostrar que um trabalho genial como esse merece ser conhecido por quem aprecia um bom livro. [Paulo Floro]

NOTA: 10

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