A VIDA É MUITO MELHOR NO CINEMA
Cineasta francês revolucionou o pensar cinematográfico. Este ano completaria 75 anos
Por Cláudia Vital, especial para O Grito!

A vida do cineasta François Truffaut impressiona a quem duvida dos mistérios do acaso. Para entender mais sobre seus filmes é necessário saber um pouco sobre sua trajetória. Rejeitado pela mãe e sem nunca ter conhecido o pai biológico, Truffaut teve uma infância difícil. Aos dez anos, com a morte da avó, foi morar com a mãe e o padrasto. Período mais difícil da vida, sem qualquer carinho ou mesmo atenção. Era um péssimo aluno, matava aulas para ver filmes, até que abandonou a escola e começou a viver de pequenos furtos.

Cinéfilo desde criança, Truffaut fundou um cineclube aos 15 anos, mas logo teve que fechá-lo devido à concorrência com o cineclube do grande escritor e crítico de cinema André Bazin. Por acaso, sabendo da falência do cineclube, Bazin foi conhecer Truffaut. O crítico ficou tão comovido com a vida do garoto que resolveu ajudá-lo. Indicava filmes, livros e transmitia seus conhecimentos ao menino, que se tornaria o autodidata mais genial de sua era.

Certa vez, por não ter arrumado emprego e fechado o cineclube, seu padastro o internou em um reformatório e passou sua custódia para a polícia. Truffaut conseguiu a transferência para um reformatório religioso, onde teria liberdade condicional, mas em poucos meses foi expulso pela rebeldia e mau comportamento. Ao completar 18 anos, finalmente se libertou dos pais e foi ser secretário pessoal do seu protetor. André Bazin o inseriu no melhor grupo de estudos de cinema da época, que contava com integrantes como os futuros cineastas Orson Welles, Roberto Rosselini e Jean-Luc Godard.

Truffaut começou a escrever artigos e textos sobre cinema em diversas publicações, chegando a ser contratado como jornalista pela revista Elle. No entanto, de forma inesperada, o jovem resolveu abandonar tudo e se alistar nas Forças Armadas. Não demorou quase nada para bater o arrependimento, o rapaz tentou fugir e foi preso por não cumprir com sua responsabilidade. Enquanto estava preso surgia uma publicação sobre a sétima arte, a famosa revista Cahiers du Cinema fundada por Bazin.

Depois de dois anos de prisão, com ajuda de Bazin, consegue se livrar da encrenca onde se metera, voltando a escrever e trabalhar como freelancer. Foi na sua primeira publicação na Cahiers que Truffaut fez um estrondo. Seu artigo “Uma certa tendência do cinema francês” descia a lenha na tradicional forma francesa de fazer cinema. Mas esse foi apenas o primeiro artigo dos 169 que estavam por vir. Truffaut se consolidou como crítico de cinema e foi ele quem estabeleceu importância máxima à figura do diretor, criando o que chamou de “Politique des auteurs” ou Teoria autoral.

As idéias que permeavam a Teoria autoral de Truffaut foram fundamentais para o surgimento da Nouvelle Vague. O diretor Alfred Hitchcock era para Truffaut o representante da sua teoria. Nessa época ele fez três curtas metragens e foi assistente de produção do cineasta Roberto Rosselini. Com 25 anos já tinha sua própria companhia de cinema, a Les films du Carrosse.

Julie Christie e François Truffaut em Fahrenheit 451 (1966). Foto: MPTVDepois disso começou a se estabilizar. Casou-se com a filha de um rico distribuidor de filmes, o que lhe garantiu independência financeira e artística e teve duas filhas. Fez o autobiográfico Os Incompreendidos, filme onde relata sua infância e que ganhou o prêmio de melhor diretor no festival de Cannes. André Bazin não chegou a ver o primeiro longa do protegido, morreu vítima de uma leucemia. Truffaut morreria 26 anos depois devido a um tumor no cérebro.

François Truffaut fez ao todo 26 filmes, dentre eles Atirem no pianista (1960), Jules et Jim – Uma mulher para dois (1962), onde teve um romance com a protagonista, fez o futurista Fahrenheit 451 (1964), A Noiva Estava de Preto (1968), Beijos Roubados (1968), onde se casou com a atriz principal e teve uma filha, A Noite Americana (1972), O Homem Que Amava As Mulheres (1977) dentre vários outros. O conteúdo de seus filmes sempre carrega algo de sua vida, seja da infância rebelde, dos seus amores, traições, desenganos. Temas universais que parecem fugir aos efeitos corrosivos dos anos. Truffaut ganhou muitos prêmios. É considerado um dos maiores cineastas de todos os tempos. Um menino cinéfilo que virou crítico, aclamado diretor e que detinha propriedade quando dizia “A vida é melhor no cinema”.

SEGUNDO CURTA-METRAGEM DE TRUFFAUT COMPLETA 50 ANOS.

[*] – Cláudia Vital é jornalista, cineclubista e estudiosa de Cinema

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