GOTAS DE ANARQUIA SOBRE PEDRAS ESCALDANTES
Diretor de Angel, que estréia esta semana, François Ozon filma o grotesco de modo doce
Por Rafael Dias

Na cinematografia de François Ozon, distinguem-se duas forças opostas que deslizam uma sobre a outra, como placas tectônicas. Na camada mais interna, lascas de subversão, amor e sexo borbulhantes; acima, uma crosta fina de poesia vívida e uma candura na maneira de filmar o grotesco. A grosso modo, Ozon é assim: pequenos abalos sísmicos que, numa seqüência contínua, provocam rachaduras na viga-mestra das convenções sociais deterioradas. Sob verniz de anarquia sutil e com um subtexto rico em significados, seus filmes não chocam, deixando um retrogosto agridoce. Sabor de chocolate amargo, tristemente belo.

Polêmico diretor e roteirista parisiense, egresso dos anos 1990, François Ozon descortina uma nova fase em sua carreira com o seu mais recente filme Angel, de 2007, que estréia esta semana apenas em São Paulo e no Rio. O cineasta, enquadrado no gênero queer (se há um denominador comum em sua obra, são as relações homossexuais), embora não aceite facilmente o rótulo nem se declare abertamente gay, lança sua primeira grande produção à la Hollywood, em um enredo “clássico” e straight, pelo menos aparentemente. Trata-se também de seu primeiro filme falado inteiramente em língua inglesa (Swimming Pool – à Beira da Piscina já continha diálogos em inglês), com direito a cast e accent fortemente britânicos. Até as locações de filmagens foram quase todas feitas no Reino Unido, com exceção de algumas na Bélgica. Mas, calma lá. Ozon não virou a casaca, nem cuspiu em Sarkozy.

O fato de cruzar o Canal da Mancha é só uma metáfora (real) de como este diretor, com estilo autoral perspicaz, vem pavimentando, agora de vez, seu nome além das xenófobas trincheiras francesas. Mais maduro e, claro, mais velho, mantendo-se jovem (acabou de cravar 40 anos, referência etária que, para o mundo do cinema, assim como na literatura, não quer dizer nada, apenas puerilidade), Ozon segue seu próprio caminho, sem pressa, numa trajetória parecida com a do seu colega de divisa, o espanhol Pedro Almodóvar. Mais refinado e precavido, mas nem por isso menos transbordante, assina um cinema audaz e avesso a fórmulas de estilo e forma, melhor a cada ano que passa, como um bom vinho de terroir suave e tanino marcante. No limiar do exagero barroco e da delicadeza.

Atualmente, Ozon acaba de dar início às filmagens de Ricky (título provisório) em Paris. O novo filme, conforme divulgou a revista Variety, será um thriller de terror, com elementos de comédia, sobre uma criança com super-poderes. Por suas características incomuns, há quem classifique, leiam-se os críticos europeus e norte-americanos, seu cinema na inócua estante do new, new cinema. Denominação que nada tem a revelar. Em vez de explicar, atrapalha a compreensão, reduzida a uma convenção arbitrária. Provavelmente, eles quisessem delimitá-lo na vertente de um novo modo de fazer cinema, nem tão diferente assim, capitaneada pela geração pós-nouvelle vague que surgia nas décadas de 1980 e 1990, da qual François Ozon faz parte.

Virginie Ledoyen, Catherine Deneuve e Ludivine Sagnier (Foto: Jean-Claude Moireau)
Com Catherine Deneuve, Ozon fez o mais absurdo dos musicais em 8 Mulheres

Dando continuidade ao cinema espontâneo e de sondagem psicológica de François Truffaut, Godard e Louis Malle, esse grupo – no qual também se perfilam André Téchiné (do ótimo Rosas Selvagens) e Alain Berliner (Minha Vida em Cor-de-Rosa) – acrescentou teor sexual e narrativa estilizada à estética de filme burguês. Em meio a essa pequena “revolução”, Ozon fez mais: salpicou sarcasmo e ironia leve nas suas crônicas fílmicas. Conquistou a partir da projeção delas inúmeros fãs durante a liberação sexual dos anos 1990 pelo mundo; porém, não a unanimidade da crítica, nem ontem, nem hoje.

I Started The Joke
Emoldurado por cores quentes e cenas absurdamente satíricas, o estilo de Ozon trafega entre o realismo e o estilizado over. Farsesco, gosta de brincar com o bizarro, o underground e a hipocrisia das relações humanas. Tudo é lapidado com uma incrível naturalidade, incluindo aí os envolvimentos entre pessoas de mesmo sexo – o que é, particularmente, distinto da forma sutil e sublimada retratada por Gus van Sant, por exemplo. Ozon tem também um apreço especial em desnudar a feérica face humana; colocar as pessoas em situações desconfortáveis de adultério, incesto, pedofilia, violência juvenil, perversão, sadomasoquismo e toda sorte de tabus que queira, por convicção, pôr abaixo. Foi assim, sobretudo, em seus primeiros curtas e longas-metragens, como Une Robe d’été (A Summer Dress, 1996) e Sitcom (1998), seu primeiro filme.

A brincadeira e a ironia em tons explícitos lhe custariam caro. Pelo jeito imperioso e por produzir em excesso, Ozon foi tachado de “criança mimada”. Nem com diplomas de cursos prestigiosos de cinema em mãos, fez-lhes calar as bocas. Já licenciado em cinema pela Universidade de Paris I, o diretor passou ainda pela famosa escola cinematográfica francesa La Femis, na qual foi tutorado pelo cineasta Eric Rohmer (Conto de Inverno), um dos ícones da nouvelle vague, e pelo diretor, ator e crítico da antológica revista Cahiers du Cinéma, Jean Douchet. Até o rosto bonito (foi modelo quando criança) não lhe ajudou muito no caminho das pedras. Demorou (vinte produções depois) para que Ozon, finalmente, recebesse prestígio e reconhecimento de uma cota importante de público e crítica.

Após Os Amantes Criminais (1999), realiza o cáustico e excelente Gotas D’água Sobre Pedras Escaldantes (2000), último projeto não-terminado do alemão Rainer Werner Fassbinder (Querelle), ídolo n° 1 de Ozon. Trágico e bizarro, esse filme é um dos mais pessoais de sua filmografia. O êxito mundial veio com Sob a Areia (2001), soturna obra e primeira parceria dele com a atriz Charlotte Rampling, seguida do anti-musical controverso 8 Mulheres (2002), com Catherine Deneuve, e do afiado Swimming Pool – À Beira da Piscina (2003), que lhe renderiam várias indicações e prêmios em festivais, inclusive em Cannes. Essas últimas produções, com exceção de Oito Mulheres, marcam uma mudança drástica no humor de Ozon: mais sério, sem se abster da verve irônica, investe mais no mistério, na linha do suspense hitchcockiano. E se dá muito bem.


Apesar da temática recorrente, Ozon é bem mais que um cineasta queer

Os dois últimos filmes de Ozon, se tivessem sido feitos na década de 60, poderiam muito bem ser filhos legítimos da nouvelle vague francesa. O Amor em Cinco Tempos (5×2, 2004) e O Tempo que Resta (2005) encantam pela ternura e maturidade ao tratar temas delicados, o divórcio e a morte repentina, respectivamente. Há ainda Un Lever de Rideau (2006), com Louis Garrel (de Os Sonhadores) e sem título em português, inédito nas salas brasileiras (estranhamente, por descuido dos distribuidores). Trechos do longa, contudo, podem ser vistos no site oficial do diretor. Pelos teasers, o filme aparenta ser uma de suas obras mais teatrais e intimistas. Já em seu novo filme, Angel, Ozon nunca esteve tão à vontade para ousar. Ame-o ou deixe-o, Ozon merece ser visto.

Canção “Papa Papa”, do filme 8 Mulheres

Música “Bang Bang” usada no curta-metragem A Summer Dress, de 1996. Parte da cinefilia cult gay, o filme trata de um triângulo amoroso, mas a terceira personagem, uma mulher, não aparece no vídeo.

RAIO X FRANÇOIS OZON:

Site Oficial: www.francois-ozon.com
Imdb: www.imdb.com/name/nm0654830

[+] – CRÍTICA DO NOVO FILME DE OZON, ANGEL

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