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ENTRE LAMPIÕES, CAPIBARIBE RIVER E NEW REGIONALISM
Por Rafael Dias

No livro Paula, Isabel Allende faz uma bela e poética elegia à filha que morre após passar um longo período em coma no hospital. De maneira furtiva, a romancista chilena radicada nos EUA acaba, por meio de “um diário sentimental e inofensivo”, elaborando um tratado em defesa do romance e do ato da escrita como um ato sagrado, terapêutico. “O meticuloso exercício da escrita pode ser a nossa salvação”, diz, em certo trecho da obra autobiográfica. É com esse mesmo discurso transcendental, de sublimação através da literatura, que a escritora Frances de Pontes Peebles se apega ao falar de sua vocação. Assim como a autora de A Casa Dos Espíritos, Frances também gosta de mergulhar nas suas memórias afetivas familiares para extrair a matéria-prima de suas histórias.

Nascida no Recife, Frances Peebles deixou a cidade natal ainda criança (aos 5 anos), atualmente mora em Chicago (EUA) e se prepara para seu maior desafio: lançar seu primeiro romance, The Seamstress (A Costureira, em tradução livre para o português), cuja estréia está prevista para agosto, simultaneamente nos EUA e no Brasil. A edição, que está prestes a sair, será prensada em inglês. Mas a editora Nova Fronteira já comprou os direitos de tradução. O lançamento da obra em português, porém, não tem previsão.

O livro, em si, tem um apelo, no mínimo, curioso: um romance épico-histórico, de 646 páginas, ambientado no Pernambuco dos anos 30-40, sob o domínio do coronelismo e assaltado pelos movimentos de banditismo social, liderados por Virgulino Ferreira, vulgo Lampião. Referências a cenários do Recife e Taguaritinga do Norte, a 164 Km da Capital, são citadas no livro com naturalidade (Capunga Bridge, Capibaribe River etc) para inglês ler. Trata-se, talvez, do primeiro romance regionalista “brasileiro” (ou neo-regionalista) publicado originalmente em inglês.

The Seamstress foi escrito no Brasil, num período de “férias” da escritora, na casa de parte no bairro de Casa Forte, no Recife, e num sítio em Taguaritinga, propriedade que sua família mantém até hoje. A obra, no entanto, foi toda escrita em inglês, por decisão da autora, que diz não se sentir segura para escrever em português. Filha de mãe pernambucana e pai norte-americano (era voluntário dos Corpos da Paz quando veio para o Brasil em 1963), Frances chegou a morar nesse sítio em Taguaritinga, onde os pais plantavam café, bananas e morango, antes de se mudar para Miami, nos EUA, em 1982. Foram apenas cinco anos no Brasil, de uma infância marcada pelos costumes e hábitos do Interior. Porém suficientes para deixar um caráter imanente na sua obra.

Hoje, com 29 anos de idade, Frances Peebles tem uma bibliografia pequena, mas já bastante notória, referendada por importantes premiações da literatura independente nos EUA. Publicou quatro contos, que integraram coletâneas de publicações literárias de peso. O conto “The Disappearence of Lucia Porto” compôs, em 2005, a edição da revista Zoetrope: All-Story, classuda revista literária, de arte e cinema do cineasta Francis Ford Coppola, que serve de vitrine para os novos contistas promissores dos Estados Unidos. Entre os colaboradores que já passaram pela publicação, assinando projetos gráficos, estão o músico Tom Waits e o diretor Gus Van Sant. O texto de Frances figurou ao lado de outros escritores contemporâneos das letras norte-americanas, entre eles Joyce Carol Oates e Wayne Wang.

O fato de uma escritora pernambucana, radicada nos EUA, figurar entre as “promessas” da literatura norte-americana já se configura um grande feito. Às vésperas do lançamento de The Seamstress, alguns críticos chegam a compará-la à linha ficcional de outras escritoras latino-americanas veteranas, como Isabel Allende e Ann Patchett. À parte dos comentários, a escritora refuta, porém, as semelhanças com o realismo mágico da América Latina. Sua ligação, diz, é com a realidade, o Cangaço (seu objeto de estudo na faculdade) e Pernambuco. Aliás, na maioria dos contos, ela deixa escapar sua fixação pela terra natal, usando referências da cultura pernambucana e cenários do Nordeste brasileiro como personagens. Em The Seamstress, ela parece ir além disso, coletando suas memórias primárias ao extremo num misto de ficção e autobiografia.

A escritora concedeu uma entrevista exclusiva à Revista O Grito!, três meses antes do lançamento do seu livro. Confira aqui.

[+] ENTREVISTA FRANCES PEEBLES

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