DECLÍNIO DO SONHO AMERICANO
Sam Mendes em mais uma tentativa de destruir o mito do felizes para sempre
Por Raphaella Spencer

FOI APENAS UM SONHO
Sam Mendes
[Revolutionary Road, EUA, 2008]

Imagine Jack e Rose fora do Titanic, se conhecendo algumas décadas depois, sem nenhum trágico incidente, ela a mesma mulher enigmática, bela e forte, ele o mesmo falastrão, exibido com um discurso livre e aventureiro. Agora, nós pulamos o amor à primeira vista, o flerte, o jogo de sedução, a paixão arrebatadora e vamos direto para o ‘até que a morte nos separe’. É sobre todo esse “resto das suas vidas” que versa Foi Apenas um Sonho.

O novo filme de Sam Mendes, mesmo diretor de Beleza Americana, é uma adaptação da obra de Richard Yates. Escrito em 1961, o romance vai além do simples questionamento sobre a estrutura familiar vigente, do homem que mantém e da mulher que cuida, e questiona sim, as mudanças individuais pelas quais passam tanto homem quanto mulher para dar cabo de suas funções familiares. E, se, realmente é uma conjuntura de fatores sociais externos que nos leva a tal acomodação, ou se é o próprio indivíduo que desiste de remar contra a maré e se adequa, denunciando um certo conformismo.

Todas estas questões estão no livro e felizmente, também foram mantidas na adaptação de Justin Haythe para o cinema. Vividos por Leonardo Di Caprio e Kate Winslet, o casal Frank e April Wheeler reproduzem o típico American way of life, de casal que desiste dos planos individuais, para juntos viabilizarem a vida confortável que precisam oferecer a seus filhos, mas sabem, que são muito especiais e poderiam alçar voôs maiores, não fosse a “tal” necessidade.

É tentando provar que realmente foram as escolhas erradas que os levaram à acomodação e à rotina, que April propõe a Frank uma vida completamente diferente, uma viagem a Paris, onde ele poderá desenvolver seus talentos como escritor e ela, em contrapartida, trabalhará fora, provendo o sustento necessário, para a família recomeçar a vida na Europa. Esse plano, que enche o casal novamente de vigor, intensidade e lhes dá um novo fôlego, também será a premissa necessária, para que cada um deles comece a lidar com o fato de que levar essas mudanças adiante não será tão fácil. Seja pelo escapismo de Frank, ou pela dependência emocional de April em relação ao marido.

Apesar de estar quase o tempo todo centrado na interação verborrágica do casal, o filme ainda tem espaço para fazer um retrato social a partir da participação de seus demais personagens. Fica por conta das visitas de John Givings, filho da Sra. Givings, corretora de móveis que apresenta  ele ao casal, alguns dos momentos mais extremos do filme. John, interpretado por Michael Shannon, é um suposto doente mental, que aos olhos dos espectadores, ganha ares de sábio, pois usa sua sensibilidade e seu poder de questionar a ordem vigente para fazer os Wheeler enfrentarem suas próprias limitações.

O filme começa um pouco entediado, nos apresentando a rotina de uma família clichê da década de 50, mas quanto mais mergulha na individualidade de cada um de seus personagens, mais se torna interessante. Seu ápice são os diálogos eternos entre o casal que tenta transformar sempre suas frustrações em palavras, diálogos que vão em crescentes infinitos e sempre acabam em murros na parede, cadeiras destruídas, um extremo físico que mais parece a materialização de toda a frustração de não conseguir resolver aquela situação toda sem ultrapassar o limite das quatro paredes que cercam a vida íntima daquele casal e são o limite entre eles e o que se espera deles. O final do filme, subestima um pouco o poder de subentender as coisas do espectador, deixando explícitas algumas situações que já estão claras no diálogo final do casal.

NOTA: 8,0

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