Deixando a opulência dos trabalhos anteriores de lado, Florence Welch chega mais vulnerável com letras autobiográficas

Crítica: Florence + The Machine revisita traumas do passado no belo High As Hope
NOTA8

A britânica Florence Welch (nome à frente do Florence + The Machine) sempre emanou a imagem de ser uma personagem de algum livro de fantasia. Uma elfa ou ninfa que habita nos universos criados por Tolkien em O Senhor dos Anéis ou por Lewis em As Crônicas de Nárnia. Os traços físicos, a tonalidade do cabelo e até mesmo as roupas usadas por ela em suas apresentações reforçam essa ideia. Mas além das características estéticas e físicas, o trabalho de Florence também contribui para alimentar essa áurea fantástica que a circunda.

A discografia da cantora é marcada por trabalhos que casam os elementos da música pop alternativa com instrumentos eruditos, embalados por uma atmosfera que impulsiona o ouvinte aos mais diversos devaneios. Uma sensação prazerosa que o desliga da realidade.

Porém, há fatos no cotidiano que são tão marcantes e dolorosos que torna difícil alguém se desligar desse plano físico. E é exatamente isso que Florence e sua banda retratam no mais recente trabalho, High as Hope (2018), lançando no final do mês passado.

Nesse registro, a britânica se despe das alegorias que remetem ao fantástico e resolve encarar a dura realidade. Em “June”, faixa de abertura do disco, a cantora relata como o atentado terrorista em Orlando, que matou cerca de 50 pessoas em uma boate, afetou-a. Além disso, a canção já prepara o ouvinte para os arranjos mais econômicos, que pouco lembram da opulência e sofisticação presentes em How Big, How Blue, How Beautiful (2015), trabalho anterior da banda.

Cordas singelas, uma percussão dosada o suficiente para dar energia às canções, um piano marcante, um teclado e o pouco uso dos metais são o suficiente para dar base a um dos elementos principais nas canções, os vocais de Welch. Enquanto nos trabalhos anteriores a parte instrumental comandava o crescimento das canções, em High as Hope é a voz da cantora que conduz as nuances que marcam o álbum. Faixas como “The End Of Love” (com participação de Tobias Tesso Jr.) e a potente “Hunger” são um dos exemplos mais assertivos disso.

Porém, além dos vocais de Florence, há outro elemento que se destaca, o piano. Esse é um dos instrumentos principais para criar a atmosfera por vezes soturna e solitária do álbum. Em “Grace”, uma das faixas mais melancólicas do registro, o piano abre a canção transmitindo, ainda que timidamente, uma sensação nostálgica e levemente triste sobre um pedido de desculpas guardado por muito tempo pela cantora. Já em “No Choir”, o piano contribui para imergir gradativamente o ouvinte numa sensação etérea.

Para o público, High as Hope pode transparecer ser um álbum fraco nos primeiros momentos, mas é quando os versos da britânica são entoados é que possível compreender o porquê dela ter optado por arranjos mais suaves. É com um fim de um amor que uma série de sentimentos dolorosos vividos pela cantora são desencadeados.

Solidão, os problemas com o alcoolismo e o trauma causado pelo o suicídio da avó materna alimentam os alicerces poéticos das canções. Contudo, ainda que Florence os relembre, ela não deixa de irradiar um sentimento de esperança. A mensagem principal deste disco é que mesmo sendo doloroso encarar as problemáticas da realidade, é preciso não se perder a fé de que dias melhores virão.

FLORENCE + THE MACHINE
High As Hope
[Universal Music, 2018]
Produzido por Emile Haynie e Florence Welch

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