Beraba apresenta outra ideia de América Latina em Porto

REPENSAR AS IDENTIDADES
Na Fliporto, Laurentino Gomes e Ana Luíza Beraba discutem novo entendimento para povos latinos e ibero-americanos
Por Paulo Floro, enviado especial a Porto de Galinhas

Se entender a América Latina era uma das principais preocupações da Fliporto este ano, uma das mesas do evento literário aumentaram ainda mais as discussões sobre as identidade dos povos latinos e ibero-americanos. O escritor Laurentino Gomes, autor de 1808, o acadêmico português José Carlos Venâncio e Ana Luíza Beraba, historiadora e autora do livro América Aracnídia trouxeram novidades para um debate que já caminha para o desgaste.

Laurentino questionou a atual ligação entre Portugal e Brasil. Para os dois países, existe ainda muito debate sobre a herança cultural portuguesa. Ela é boa ou ruim? “Sempre me perguntam se o Brasil não seria um lugar melhor caso tivesse sido colonizado pelos espanhóis, franceses ou ingleses. Se não herdamos deles a corrupção e outras mazelas conhecidas”, afirmou. “Na verdade, Portugal não tem o que comemorar sobre a colonização do Brasil”, completou. Em seu livro 1808, sucesso de crítica e público e um dos livros brasileiros mais vendidos de todos os tempos, o autor paranaense deixa explícito que o Brasil nasceu de fato naquele ano, quando a corte de D. João VI atravessou o Oceano Atlântico fugindo de Portugal. “Nossa herança portuguesa para a construção de uma identidade começa desse tempo. Até então, não tínhamos uma unidade. Éramos mineiros, pernambucanos, paulistas, todos sob um imenso guarda-chuva que era Portugal”, disse.

No panorama atual, a ligação entre Portugal e Brasil está se distanciando, segundo Gomes. “Os portugueses estão mais inseridos no contexto europeu e toda sua influência. Estão mais voltados aos vizinhos, culturalmente falando. Já os brasileiros vivem numa égide mais ligada à uma América contemporânea, bastante influenciada pelos EUA. É um fenômeno curioso”, afirmou.

Outro tempo
Mesmo o conceito de “América Latina” começa a ser repensado no século que termina, segundo Ana Luíza Beraba. “O termo surgiu durante a Guerra Fria e já nasceu como uma ideia de subdesenvolvimento, em contraponto à América rica e industrializada”, disse. Beraba explicou sobre a relação mal-resolvida entre o Brasil e os demais povos sulamericanos.

Formada em História pela UFRJ e produtora cultural – é uma das coordenadoras do Festival do Rio para filmes latinos – Beraba é autora de América Aracnídia, livro que tenta compreender como o Brasil buscou seu lugar dentro do continente americano à época da publicação do suplemento “Pensamento da América”, que integrou o jornal “A Manhã”, em plena era Vargas (circulou de 1941 a 1948). O suplemento tentava refazer a imagem da América, colocando o Brasil mais conectado com as referências latinas, já que naquele período o país ainda estava muito acostumado com as referências européias. “Fazer esse estudo é algo importante para entender fenômenos recentes, como o portunhol, por exemplo. Uma língua híbrida, congregadora de ideias e que faz muito sentido”, destaca.

Ela finaliza com o pensamento que define as novas inquietações das sociedades atuais. “O século 20 foi a época da busca das identidades. No 21 estamos mais interessados na diversidade”.

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