Nó do Diabo: terror para falar de escravidão. (Divulgação).

Após a polêmica envolvendo o filme de Daniela Thomas, o longa-metragem Vazante, sobre a escravidão, que chegou a ser comparado ideologicamente à telenovela Sinhá-Moça por uma audiência inquieta e extremamente contestadora, o Festival de Brasília exibiu um filme que contemplou as demandas étnico-raciais, envolvendo a escravidão no Brasil, e agradou à plateia militante, mas também à crítica.

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O paraibano O Nó do Diabo, descrito como um filme de terror, é na verdade um longa-metragem que transita entre o fantástico e o sobrenatural para comentar a trajetória de homens e mulheres pretas no País, partindo de 2018 e voltando atrás no tempo, mais precisamente a 1818. Concebido para ser uma série de TV, em cinco episódios, o filme foi dirigido por Ramon Porto Mota, Gabriel Martins, Ian Abé e Jhésus Tribuzi, e parte do Brasil do impeachment para discutir resquícios da escravidão no comportamento de homens brancos e pretos.

Sob essa perspectiva, o quilombo é libertário, e é visto como um estágio de consciência muito mais avançado do que as periferias da sociedade moderna, as novas senzalas.

O curta-metragem de ficção Tentei, da curitibana Laís Melo, sobre abuso e violência, discute outro aspecto da servidão, o da mulher na periferia que ainda vive subjugada a relações conjugais opressivas. Glória, personagem criada pela cineasta Laís Melo e vivida pela atriz Patricia Saravy, tenta confrontar uma relação abusiva de violência doméstica, mas em meio ao processo, acaba sucumbindo a sua dor, e se calando.

A situação mostrada no filme tem bastante a ver com a realidade dos dados existentes sobre o tema, pois boa parte das mulheres desiste de sua denúncia em meio ao processo, o que dificulta a atuação da polícia. Melo extraiu o roteiro de sua experiência profissional como jornalista e apresentou ângulos muito precisos, demonstrando domínio sobre a narrativa.

Repressão e Militarismo

A programação da Mostra Competitiva exibiu ontem, dia 21, exibe a animação de São Paulo, Torre, de Nádia Mangolini (2017, 18 min), e duas obras de Pernambuco: a ficção sobre
erotismo Baunilha, de Leo Tabosa (2017, 13 min), e o documentário Por Trás da Linha de Escudos de Marcelo Pedroso (2017, 124 min). O filme de Pedroso acabou gerando outra
discussão com a crítica. O documentário toma como ponto de partida para discutir a militarização no Brasil a repressão policial ao movimento Ocupe Estelita, de Recife, conduzido
pelo Batalhão de Choque da Polícia Militar da cidade. No entanto, ao longo da narrativa Pedroso acaba se envolvendo com a formação daqueles policiais, buscando apresentar o
ponto de vista de quem está do outro lado do escudo.

Em diversas cenas, Pedroso participa dos treinos no batalhão e entrevista seus componentes. Para muitos, essa visão acaba por comprometer o que parecia ser uma denúncia sobre a violência do Estado contra o cidadão, que é acusado de baderneiro e de afrontar a ordem pública ao questionar o desenvolvimento urbano e a especulação imobiliária nas grandes cidades, num movimento contínuo de exclusão social.

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