Big Jato, de Cláudio Assis, é baseado na vida de Xico Sá. (Divulgação).

Big Jato, de , é baseado na vida de Xico Sá. (Divulgação).

Big Jato, de Cláudio Assis, foi ovacionado. Já Aly Muritiba chega existencialista com Minha Amada Morta

De Brasília

Os longas que concorrem ao prêmio principal no festival vêm destacando-se por serem filmes densos e de estrutura dramática complexa. A diversidade de estilos e projetos se evidencia na comparação entre o pernambucano Big Jato, de Claudio Assis, e o curitibano Para Minha Amada Morta, de Aly Muritiba.

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Assis anunciou a exibição do seu longa, livremente inspirado no romance homônimo e bastante autobiográfico de Xico Sá, sob vaias no último sábado, no Cine Brasília, e teve de ser substituído pelo ator principal, Matheus Natchergaele, que arrebatou o microfone para apresentar o jovem elenco que encantou a todos nas telas e na coletiva. Natchergaele divide o posto de protagonista com o jovem ator, em duplo papel, que interpreta no filme o tio Nelson, e o Velho Francisco, pai de Xico (Francisco de Assis Moraes, na infância; Rafael Nicácio, na adolescência).

O jovem elenco fez furor na coletiva. Jards Macalé, o amigo imaginário de Xico no filme, o icônico cantor Ribamar da Beira Fresca, irônico, lembrou na coletiva que sua vaia no Maracanazinho. Ao se apresentar cantando “Gotham City”, ele foi vaiado de forma incomparavelmente maior. O filme foi muito bem recebido pelo público que lotou o cinema e pela crítica. O apelo adolescente da película é irresistível.

Criador e criatura: Assis não conseguiu falar de tão vaiado, mas filme fez sucesso. (Foto: Junio Aragão/Divulgação).

Criador e criatura: Assis não conseguiu falar de tão vaiado, mas filme fez sucesso. (Foto: Junio Aragão/Divulgação).

A adaptação lírica do romance Big Jato, nome do caminhão do velho Francisco, um limpador de fossas, feita pelos roteiristas Hilton Lacerda e Ana Carolina Francisco jogou a fictícia cidade de Rio do Peixe numa espécie de presente atemporal, mesclando as décadas de 1970, 80 e chegando aos dias atuais. Esta característica, advinda segundo os roteiristas a partir de problemas da produção, pois a historia original possui temporalidade definida, deu ao filme uma condição de ser painel de diversas gerações e mostrar que certos problemas, como o patriarcalismo e o machismo na educação, continuam presentes.

Um dos principais problemas a ser contornados foi justamente o pagamento de direitos autorais musicais, uma vez que as músicas dos Beatles embalam as divagações memorialistas do autor, Xico Sá. Ao criar um grupo de rock fictício, os Betos, o filme amplia as possiblidades de criticar costumes familiares arraigados e a função social da música, e do rock no imaginário da sociedade brasileira. As tardes de Rio da Pedra são embaladas pelo bordão Let it lie, o lema criado pelo tio Nelson, o looser da cidade, que embala os sonhos locais ao som de música pop em sua rádio. A trilha assinada pelo DJ Dolores acentua a tendência à colagem, e a pós-modernidade do filme. O lirismo agudo, mas também corrosivo, marca de outros filmes do realizador, está presente neste filme, mas ampliados por uma dimensão poética beneficiada pelo primeiro olhar do jovem Xico sobre os ritos de iniciação à vida adulta, o que inclui uma visita ao puteiro da cidade levado pelo pai.

Pesado: Filme é menos mórbido do que pode parecer. (Divulgação).

Pesado: Filme é menos mórbido do que pode parecer. (Divulgação).

Liberdade e luto

O longa do baiano radicado em Curitiba Aly Muritiba, que concorre ainda com o curta Tarântula na edição deste ano do festival, surpreendeu a quem esperava por um filme mórbido ou memorialístico, como o nome Para Minha Amada Morta pode levar a crer num primeiro momento. A sinopse parece simples. Fernando (Fernando Gomes Pinto), viúvo, é fotógrafo forense, e além da extrema dedicação ao trabalho, cuida do seu filho único, Daniel, um menino tímido e sensível. Depois da morte de Ana (Michele Pucci), sua esposa, todas as noites Fernando passa o tempo arrumando pertences de sua amada, sapatos, fotos. Acaba encontrando uma fita em VHS, e começa a ficar obcecado pelas imagens.

A mulher, que nunca surge inteira na tela, é rememorada pelas roupas, pelo vídeo em que se apresenta como bailarina ainda menina. Ela gostava de gravar seus encontros sexuais. A dúvida vai se instalando no marido, que, inesperadamente, decide ir atrás de um de seus clientes – Ana era advogada e defendeu Carlos (Loury Santos) da prisão por contrabando, assegurando sua soltura por bom comportamento antes de cumprir a pena. Carlos que se converteu a uma igreja pentecostal, vive com a mulher, Mayana Neiva, e seus três filhos em um subúrbio.

O encontro entre os dois personagens masculinos, Carlos e Fernando, sugere uma tragédia. A mulher, ausente, vai se delineando melhor a partir dos diálogos riquíssimos entre os dois. A filha adolescente de Carlos, interpretada com sensualidade por Giuly Biancato, ajuda a ampliar a tensão entre os dois, e leva a crer que estamos diante de uma tragédia. O longa proporciona um solo para o ator Fernando Alves Pinto como poucas vezes se vê no cinema nacional, carente de filmes que abordem a intimidade sob esse prisma. Sua estrutura flerta com dramas da magnitude de um Bergman, ao falar de solidão e perda, ou de autores amorais como Alberto Moravia, embora desdenhe a misoginia deste último, tão evidente em O Desprezo, de Godard, e faça uso de recursos de thrillers psicológicos de crime e suspense como mero artifício.

O filme perde um pouco no deslocamento abrupto do protagonista Fernando de sua casa para o subúrbio onde vivem Carlos e família, como se a sua vida pregressa tivesse deixado de existir, o que é incômodo em um filme que tende mais ao realismo. Mas é um trabalho de fôlego. Mais do que o recente O Lobo Atrás da Porta (2014) de Fernando Coimbra, sobre a fera da Penha, que se infiltra anônima na casa da família de seu amado, buscando vingança, o longa de Muritiba está mais próximo de road movies existencialistas, como Paris, Texas (1984), de Wim Wenders.

Além dos filmes já citados, concorrem ainda ao Candango de melhor longa A Família Dionti, de Alan Minas (RJ), Fome, de Cristiano Burlan (SP) e o documentário Santoro, O Homem e sua Música, de John Howard Szerman (DF).

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