Flip 2008 (6 de julho) Foto: Luciana Serra/ Divulgação
Ruas lotadas de Paraty, último dia da Flip 2008 (Foto: Luciana Serra/ Divulgação)

NO MEIO DO CAMINHO
Recheada de nomes internacionais, Flip aposta em debates e encontros que falam da mixagem entre literatura e outras linguagens
Da Redação

A pequena cidade de Paraty, localizada a meio caminho entre o Rio de Janeiro e São Paulo, transformou-se desde o último 2 de Julho no palco para a reflexão sobre os limites entre ficção e realidade. A sexta edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) teve início com a palestra A Poesia Envenenada de Dom Casmurro, uma análise da obra mais conhecida de Machado de Assis pelo seu maior estudioso, o crítico Roberto Scharwz. Uma espécie de homenagem dos organizadores ao centenário de nascimento do escritor. Em seguida, entraram em cena um time de 40 convidados vindos da Europa, África, América Latina, Estados Unidos e vários estados brasileiros para debates sobre literatura, mas também suas interseções com outras áreas permeadas pela escrita como cinema, teatro, quadrinhos e psicanálise.

A maratona inclui cinco debates por dia nas chamadas Tenda do Autor, com nomes selecionados de acordo com temas afins. Neste ano, a Flip mescla autores pouco ou recém-conhecidos no Brasil, mas com trânsito em outras cenas, a exemplo da cineasta argentina Lucrecia Martel e o inglês Neil Gaiman, criador dos quadrinhos Sandman. O tcheco Tom Stoppard é dramaturgo e também escreve para o cinema. Rosencrantz e Guildenstein estão mortos virou filme cultuado em 1990, mas foi como roteirista de Shakespeare Apaixonado que Stoppard ficou mais conhecido. Também do cinema vem Richard Price, parceiro de Martin Scorsese em A Cor Do Dinheiro e autor do roteiro de Irmãos De Sangue, de Spike Lee. A mais recente obra, Lush Life, drama urbano aclamado pela crítica norte-americana. Assim como a maioria dos livros do alemão Ingo Schulze, que lança na Flip a coletânea de Contos Celular – Treze Histórias À Maneira Antiga.

O holandês Cees Nooteboom, autor do recém-lançado Paraíso Perdido, é nome menos ausente nas prateleiras das livrarias com quatro livros traduzidos para o português. A diversidade de gêneros artísticos marca a programação, e o cinema é recorrente. Muitos autores tiveram os livros adaptados para a tela, quando não se tornaram eles mesmos roteiristas. João Gilberto Noll, que lança Acenos e Afagos durante o evento, divide mesa com Lucrecia Martel e já escreveu muitos roteiros de cinema.

Além do cinema, a Flip abre espaço para música e futebol. Carlos Lyra e Lorenzo Mammi conduzem debate sobre a bossa nova, enquanto José Miguel Wisnik tem a companhia de Roberto DaMatta em mesa sobre futebol e literatura. A leitura de trechos é parte do ritual das mesas de debates da Flip. Cada convidado seleciona um texto para ler em voz alta antes dos debates com a platéia.

Gente Importante

Neil Gaiman

O inglês ganhou prestígio com a novela em quadrinhos Sandman, vencedora de 13 prêmios Eisner desde sua criação, em 1989. Sandman é responsável por aproximar o autor do mundo literário. Mas Gaiman também escreve romances. Stardust, conto de fadas com feitiços e bruxas que virou filme no ano passado, foi publicado no Brasil pela Conrad e está com edição esgotada, assim como Deuses Americanos (1998), romance sobre sujeito que perde a mulher e se envolve com trapaças. Gaiman esteve no Brasil em 1995 e 2001 para participar de bienais do livro.

Cees Nooteboom

Começa no Brasil o mais recente livro desse holandês freqüentemente cogitado para o Prêmio Nobel. Paraíso Perdido (2004) conta a história de Alma, brasileira descendente de alemães que protagoniza aventura na Austrália. Muitas situações se confundem no texto de Nooteboom. O autor é eterno viajante e extrai das próprias jornadas material para os romances. Alma começa em favela brasileira, passa pela Oceania e acaba na Áustria. As fronteiras entre ficção e realidade são tênues, e Nooteboom se permite mudanças na voz narrativa, de maneira a não deixar claro quem é o narrador. O holandês é autor de cinco romances traduzidos no Brasil.

Martín Kohan

Professor de teoria literária na Universidade de Buenos Aires, o argentino tem na bagagem sete romances, dois livros de contos e três de ensaios. A ditadura argentina é tema recorrente e está nos livros mais recentes traduzidos para o português, Duas Vezes Junho (2002) e Ciências Morais (2007), este último vencedor do prêmio Heralde. Entre os dois, Kohan publicou ainda Segundos Afuera (2005) e Museo de la Revolución (2006), inéditos no Brasil. Em Duas vezes junho, a ditadura passa diante dos olhos de um jovem soldado sem grandes convicções políticas, mas também sem perplexidade alguma diante de horrores como a dúvida sobre a idade correta para torturar um bebê.

Ingo Schulze

Nascido em Dresden, na ex-República Democrática Alemã, Schulze, que é jornalista formado em filologia, recorre ao próprio universo para contar histórias curtas. Os contos funcionam como pequenas seções do cotidiano esmiuçadas em narrativas que mesclam ficção e referências reais. Celular tem personagens escritores e crianças com os mesmos nomes das filhas do autor. No Brasil, Schulze publicou ainda Histórias simples da Alemanha Oriental e 33 instantes de felicidade. O romance Vidas Novas, lançado em 2005, permanece inédito no Brasil.

Fernando Vallejo

O narcotráfico e os problemas sociais urbanos em certas regiões da América Latina estão nos livros do colombiano Fernando Vallejo, autor polêmico que não hesita em desnudar e criticar a hipocrisia da sociedade colombiana. No ano passado, Vallejo, também cineasta, engrossou a polêmica ao renunciar à sua cidadania. Ele assina O despenhadeiro, livro mais recente publicado no Brasil.

VEJA AINDA
Site oficial: www.flip.org.br
Blog da Flip: blogdaflip.wordpress.com
Vídeos: youtube.com/flipfestaliteraria

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