SARAMAGO VERSUS FERNANDO MEIRELLES
Com orçamento largo e atores de renome, filme de Meirelles frustra espectadores e acaba por reacender a grande discussão em torno das adaptações literárias

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
Fernando Meirelles
[Fox, 2008]

A adaptação de uma obra literária para o cinema sempre foi e será tema de polêmica. Em alguns casos, o autor da obra que originou o filme exige até mesmo que seu nome seja retirado dos créditos por não concordar com a maneira que sua obra foi transformada – caso, por exemplo, do filme brasileiro Nossa Vida Não Cabe Num Opala, dirigido por Reinaldo Pinheiro e rechaçado pelo seu “criador”, o dramaturgo Mário Bortolotto. Imagine então o quão ousada seria a idéia de adaptar um livro dos mais importantes da literatura mundial contemporânea, escrito pelas mãos de um autor prêmio Nobel e que sempre resistiu a liberar os direitos de suas obras para o cinema.

Ensaio Sobre a Cegueira, livro de José Saramago, é considerado por muitos como um os melhores livros já escritos em língua portuguesa e coube ao jovem roteirista canadense Don McKellar transpor o inverossímel mundo da cegueira branca para as telas. Saramago é conhecido não apenas pela temática de seus livros (que invocam e questionam as filosofias morais, éticas e existenciais de seus leitores), mas por sua inconfundível forma estilística e o uso linear de uma ironia fina que habita em cada um dos seus personagens. Particularmente no caso de Ensaio Sobre a Cegueira, soma-se ainda a falta de identificação de tempo, espaço, história dos personagens e até mesmo seus nomes. Coisa que o cinema comercial não parece estar preparado para lidar.

Seguindo religiosamente os acontecimentos do livro, a história trata de uma cegueira branca que se dá início em pleno trânsito de uma cidade que poderia ser qualquer metrópole, mas não é identificada. Aos poucos, diversas pessoas começam a apresentar a mesma doença que, por não ter qualquer explicação científica, se alastar rapidamente, gera um pânico imediato que culmina no isolamento dos atingidos pelo “mar branco” em um asilo. O filme acompanha de perto o dia-a-dia daqueles que são identificados apenas por uma caracaterística e nada mais: o primeiro homem cego e sua esposa, a mulher dos óculos escuros (Alice Braga), o ladrão, o Rei da Ala 3 (Gael Garcia Bernal), o velho da venda preta (Danny Glover), o médico (Mark Ruffalo) e sua esposa (Julianne Moore) , esta, a única que ainda possui o sentido da visão intacto. Predestinada por mentes acostumadas a filmes-fórmula, é comum esperar uma atitude heróica da mulher que tudo vê, mas como a própria atriz explicou em entrevista coletiva realizada em São Paulo, “na vida real, não existem heróis natos. A mulher do médico não é o Batman. Ela também vai amadurecendo com o decorrer da história.”

Apesar das ótimas atuações, grande parte dos questionamentos levantados por Saramago no livro acabam passando batidos aos olhos da câmera que enxerga uma imagem saturada que se dissolve na imensidão branca e ainda abusa de reflexos, transparência e imagens fora de foco. A consciência moral que o autor português tanto cita e provoca em sua obra, assim como a forma que ela vai sendo modificada ao caminhar das circustâncias é também dissolvida por momentos de tensão que trasformam Ensaio Sobre a Cegueira em um thriller que não chega à densidade temática do livro que induz o leitor a diversas interpretações da mesma história. O personagem de Danny Glover, que no filme deveria funcionar como a voz interior da história, inclui um tom desnecessariamente didático à obra, talvez pela necessidade de se tornar mais paupável às milhões de pessoas que o filme pretende atingir mundo afora.

Pode-se dizer que E.S.C. é dividido em três atos: o primeiro deles, mostra os personagens se encontrando com a vastidão incolor, pouco a pouco, mas em um ritmo acelerado onde se percebe o trabalho do montador Daniel Rezende. É nesse ponto que mais se pode identificar por similaridade E.S.C. com as outras obras do diretor. Porém, se em Jardineiro Fiel e Cidade de Deus esse ritmo acelerado se encaixa perfeitamente nas histórias, neste caso se aparenta exagerado e nos faz distanciar do sofrimento e da agonia dos personagens, assim como com o que irá acontecer dali para frente.

O segundo ato acontece no asilo, onde os cegos são abandonados ao Deus dará. A imagem distorcida e abstrata que tenta compartilhar a aflição daqueles que de uma hora outra para a outra romperam a linha tênue entre a civilização e o caos, não se mostra tão convincente como em O Escafandro E A Borboleta, por exemplo, um primoroso trabalho de direção de Julian Schnabel, mas nos gera sensações desgostosas como na cena mais impactante da obra, o estupro coletivo das mulheres da ala 1.

É apenas no terceiro ato, quando os cegos fogem do asilo e encontram uma cidade imersa no abandono, onde se enxerga um Fernando Meirelles mais seguro de si e que se arrisca a demonstrar uma sensibilidade antes escondida na violência e no caos de seus outros filmes e dos minutos anteriores de E.S.C.. Mas talvez tenha sido tarde demais.
A grande decepção com o filme não é apenas por conta do seu resultado em si, mas por toda a expectativa que havia em torno da obra. Desde a compra dos direitos de um livro tão significativo à literatura contemporânea, passando pelas mãos de um cineasta dos mais jovens e representativos do cinema brasileiro e mundial, mas que se demonstra inseguro a combalir suas próprias fórmulas e se reinventar estiliscamente como o “criador da obra”, José Saramago fez e continua fazendo de maneira tão formidável.

NOTA: 6,5

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