No dia 22 de março de 2010, o diretor Jorge Furtado escreveu e publicou em seu blog o seguinte texto: Quem é Primavera das Neves? Três anos depois, ele recebeu uma resposta, de uma mulher chamada Eulalie Ligné, bibliotecária, dizendo ter sido amiga dela, de Primavera Ácrata Saiz das Neves. Depois de algum tempo de correspondência, acabaram marcando um encontro. Foi a partir dali que Furtado conseguiu conceber o filme. O documentário de Furtado surge de uma busca, mas o fio condutor da narrativa é a amizade de ambas, Primavera e Eulalie, e suas memórias. São as recordações da amiga que nos fazem embarcar nesta história, e nos envolver pouco a pouco com a vida de Primavera.

Eulalie abre sua casa para receber Jorge Furtado

Furtado ficou fascinado pelo nome desta tradutora brasileira, e por sua obra. Ele tinha edições de dois livros de Lewis Carroll traduzidos por ela:  Alice no país das maravilhas e  Através do espelho,  pela Editorial Bruguera, Rio de Janeiro “infelizmente sem data”.  Continuou a pesquisar no Google, e acabou descobrindo que a obra da tradutora, na verdade portuguesa, e que falava seis idiomas, incluía a tradução de Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne, 1963, dentre outras preciosidades. Também descobriu que por vezes ela assinava como Vera Neves Pedroso. E tudo isso o animou a realizar o documentário, um belíssimo perfil de uma mulher sensível, culta, bonita e apaixonada pelas palavras, pela literatura, e por seu trabalho. Mas sem Eulalie, esse diálogo não existiria, não seria tão vivo e poético.

O documentário de Furtado, painel da vida intelectual no Rio daquele período, que vai se revelando por meio da história singular de Primavera, não teria a mesma emoção sem a delicadeza e a generosidade da amiga Eulalie, que nunca a esqueceu. E sendo assim, o filme de Furtado não nos oferece apenas um perfil de uma mulher que viveu intensamente o seu tempo, sem se esquivar de atitudes e comportamentos considerados avançados para a época, mas também  o da importância da amizade entre duas mulheres que possuíam uma enorme afinidade intelectual. Essa trajetória é mediada pelo diretor-personagem do documentário, que traz ainda a atriz Mariana Lima interpretando traduções de Primavera, mas também seus poemas, inéditos.

Primavera das Neves chegou ao Brasil com 9 anos de idade, seus pais fugiam da ditadura salazarista. O pai de Primavera das Neves era o poeta português Roberto das Neves. Poeta, professor e maçom, Neves foi diretor, no Brasil, da Editora Germinal. Aos 18 anos, ela voltou a Portugal para estudar e acabou se casando com o tenente Manoel Pedroso, que se rebelou contra a ditadura salazarista e exilou-se  na embaixada brasileira durante um ano e meio. Por conta deste episódio,  Primavera acabou vindo para o Brasil com a filha no colo, em pleno golpe de 1964. O depoimento de Pedroso, colhido por Furtado em Portugal, forte e repleto de detalhes, contribui para uma imagem mais completa da biografada.

Não é empreitada fácil realizar um documentário biográfico de uma personagem que não foi uma celebridade, viveu uma vida discreta, morreu relativamente jovem, aos 48 anos, deixou poucas fotos e poucos amigos, e que dedicou sua vida a uma profissão que é tão pouco valorizada, ainda mais em tempos virtuais. Furtado faz isso de forma extremamente eficiente, porque justamente nos fala da ausência, da falta que faz alguém que era capaz de vínculos tão profundos com a sua época, de realizar traduções que nos permitiram vislumbrar universos criativos de tempos e culturas tão distintas da nossa, e que compartilhou na vida e na profissão o amor pelos livros e pela arte. Será verdade o famoso jogo de palavras em italiano Traduttore, Traditore (tradutor, traidor)? Para muitos, traduzir é trair, pois na árdua tarefa de verter um texto de uma língua para outra, nem sempre é possível ser fiel, quem traduz interpreta o outro, e sempre a partir de seu próprio imaginário, é preciso primeiro se reconhecer nesse outro, para poder interpretá-lo. Primavera era uma tradutora literária, traduziu poesia de autores como Emily Dickinson. Um ofício para poucos.

Mas Eulalie não é a única a se lembrar de Primavera. Quase ao final do longa, entra em cena a artista plástica Anna Bella Geiger.. Ela e Primavera foram colegas de escola. Furtado se considera ele mesmo, modestamente, um péssimo tradutor. Mas traduzir é verter o conhecimento de uma língua para outra, reinventar, e também reviver. Os depoimentos são essenciais para compor uma imagem mais vívida da biografada, mas a forma como essa memória impacta em quem se recorda dela conta mais do que a informação que eles agregam. Não se trata de investigar exaustivamente a história verdadeira de Primavera, a mulher por trás das fotografias, datas, sentimentos de mundo, opiniões. Há mais de uma versão para o mesmo fato, e o olhar de quem se lembra dela é o que importa aqui. Primavera partiu e deixou seu legado, seus livros.  No entanto, nenhum comentário, foto ou recordação é suficiente para nos oferecer uma totalidade. A cada depoimento surgem novas perguntas e algum mistério sempre fica no ar. Jamais saberemos tudo sobre ela, nem tudo é para ser dito. O olhar melancólico de Eulalie fala desta ausência, mas também de sentimentos que nem sempre conseguimos compartilhar. O respeito do cineasta à intimidade da relação de amizade de Eulalie e Primavera é que conferem ao filme uma característica única.