Revista O Grito!

Femme Fatale — Por Luiza Lusvarghi. Séries, Filmes, Produção Latino-Americana, Relações de Gênero

Categoria: Entrevistas

Roma: o imaginário mexicano no cinema sensível de Cuarón

O filme Roma, do diretor mexicano Alfonso Cuarón, belíssima obra autoral, surgiu em 2018 deflagrando polêmicas.  Lançado pela Netflix em dezembro de 2018, levou estatueta de melhor filme no Festival de Veneza. Foi indicado em 10 categorias do Oscar 2019, uma conquista, levando em conta o boicote da indústria às produções cinematográficas do grupo de streaming. Acabou sendo premiado no Globo de Ouro como melhor direção, e no Oscar deste ano apenas com Melhor Direção e Fotografia – assinada pelo próprio Cuáron –  nas categorias principais, e como Melhor Filme Estrangeiro, algo que demonstra claramente a indisposição da indústria hollywoodiana com a filmografia estrangeira e com a produção de streaming, considerada ainda uma ameaça. Desde a indicação de Cidade de Deus (2002) que a academia vem sinalizando uma abertura com relação às premiações de produções estrangeiras e à diversidade étnica, mas sempre a passos de caranguejo. Afinal, Roma foi um dos 10 lançamentos originais Netflix para a América Latina, produção que vem se expandindo rapidamente. O grupo Netflix vem fazendo lançamentos em algumas salas de cinema e circuitos de arte desde a primeira produção original, Beasts of No Nation (2015), mas em geral com estreia simultânea no catálogo. Foi o que aconteceu com outra produção mexicana, A Cuarta Compania (2018).

Apesar da beleza invulgar da obra há divergências sobre o lugar de fala da protagonista, Cleo (Yalitza Aparício), empregada doméstica de ascendência indígena e bastante submissa aos patrões. A história se passa a partir do ponto de vista de Cleo, mas o olhar da câmera se faz presente.Em preto e branco, e longos planos-sequência,  a obra remete à estética do neorrealismo italiano, e não apenas pela fotografia em preto e branco, encontrada em outras realizações do circuito de arte de caráter nostálgica, mas pelo som ambiente, pelas locações, pela forma de produção e pela narrativa.  Essa tendencia estética parece ser característica de obras do chamado circuito independente de cinema, que inclui diretores como o filipino Brillante Mendoza, de cunho social e político, ao qual se filiam parte dos originais Netflix.

Cleo (Yalitza Aparicio) com Pepe (Marco Graf), ao fundo, e o Sr. Antonio (Fernando Gradiaga) e a Sra. Sofia (Marina De Tavira). Imagem de Carlos Somonte.

O filme retrata a vida da jovem babá de uma família no bairro de elite Colonia Roma na capital mexicana, e sua relação apaixonada com as quatro crianças da casa, Toño (Diego Cortina Autrey), Paco (Carlos Peralta), Pepe (Marco Graf) e Sofi (Daniela Demesa). Há cenas poéticas que se destacam como um autêntico tributo ao cinema, a única diversão de Cleo em sua rotina entediante de empregada doméstica.  E momentos de pura magia e de afeto nas cenas com as crianças.

Pepe, Sofi, Cleo, Sofia,  Toño e Paco, a família reunida, em cena emocionante durante um passeio na praia.  Imagem de Carlos Somonte.

No começo, acompanhamos a primeira experiência amorosa de Cleo com Fermín (Jorge Antonio Guerrero) um rapaz que ela descobre mais tarde estar envolvido em operações paramilitares do grupo Los Falcones. Na cena em que se conhecem, no entanto, os indícios de que o jovem, encantado com artes marciais possa ser uma figura violenta são sutis, delineados somente pela exibição de suas habilidades. Os homens são fugazes e frios. A figura paterna, representada pelo sr. Antonio (Fernando Grediaga), por vezes é somente um plano detalhe de mãos ao volante. Trata-se de uma família de mulheres, e nela a figura da babá é mais importante para as crianças do que a da mãe, Sofia (Marina de Tavira) que aparece como uma vítima da sociedade machista, abandonada pelo marido sedutor, porém distante.

Marina de Tavira, a Señora Sofía de Roma, escrito e dirigido por Alfonso Cuarón. A atriz foi indicada ao Oscar na categoria de atriz coadjuvante. Imagem de Carlos Somonte.

O diretor Cuarón teria se inspirado na própria infância para traçar esse retrato sensível dos conflitos domésticos e da exclusão social em seu país durante a década de 1970, quando o  Partido Revolucionário Institucional (PRI) promove uma guerra sem tréguas contra a esquerda e os movimentos populares. Na cena em que Cleo entra numa loja de móveis com a avó, a sra Teresa (Verônica Garcia), estudantes são mortos a tiros durante o Massacre de Corpus Christi, também conhecido por El Halconazo, símbolo da desigualdade da pseudodemocracia mexicana. Um filme de impacto, uma homenagem à família, mas também ao México, e praticamente uma volta a obras que marcaram a carreira do diretor, como E sua mãe também (Y su Mamá también, 2001), que alçou os atores e também produtores Diego Luna e Gael Garcia Bernal ao estrelato.

Cuarón se empenhou em trabalhar com a maior autenticidade possível, refazendo a casa em que viveu com móveis da família. O elenco tem forte composição de muitos atores não profissionais, caso de Yalitza Aparicio, que sofreu retaliações de colegas por conta disso em sua indicação ao Oscar.

Cleo com Pepe, Paco (Carlos Peralta Jacobson), e Sofi (Daniela Demesa). Imagem de Alfonso Cuarón. 

Os atores,que recebiam o roteiro apenas no momento das filmagens,  tiveram liberdade para compor as personagens a partir de suas próprias memórias familiares. A belissima fotografia, sempre a cargo do colega de faculdade nas obras do diretor, Emmanuel Lubezki, o Chivo, desta vez ficou com o próprio Cuáron, que começou a vida profissional como diretor de fotografia. O amigo não pode participar deste projeto, mas foi mencionado com carinho pelo diretor.

 

A pioneira Cecília Barroso: Breve Cronologia do Coletivo Elviras

Em julho de 2016, a jornalista e crítica de cinema Cecília Barroso, criadora do portal Cenas de Cinema, bateu os olhos na lista de credenciamento de imprensa do festival Olhar de Cinema, em Curitiba. Na ocasião ela prestava serviços de assessoria para o evento. As mulheres eram minoria na lista. Aquilo a incomodou. Porque não chamar mais mulheres?  A resposta foi “não tem”. Como assim, se ela mesma conhecia diversas mulheres que exerciam o ofício de críticas de cinema? As redações modernas estão repletas de mulheres.

A partir daí, Cecília se deu conta de que o mesmo ocorria no Festival Brasileiro de Cinema de Brasília, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no Festival do Rio, enfim, na maioria dos festivais de referência do País. “Em 2016 ainda eu fui pro Cine Ceará, e muito impactada com essa percepção”. A ideia de que não existem críticas em número suficiente, eu conheço. Foi numa ida ao Rio que Cecília encontrou Samantha Brasil, colaboradora do Almanaque Virtual e fundadora do Cineclube Delas, saiu para tomar um café e compartilhar ideias. Nasceu informalmente daquele encontro a ideia de um grupo de whatsapp. Essas discussões acabaram contribuindo para a realização um encontro em Brasília, em setembro de 2016, durante o Festival Brasileiro de Cinema. Em Brasília, ela e Samantha se encontraram com Camila Vieira, Neusa Barbosa, Yale Gontijo, Carol Almeida, Kenia Freitas, Ivonete Pinto. “Tinha até produtoras e uma diretora, a Dea Ferraz, que participaram da reunião”, lembra.

Nesta reunião em Brasília ficou estabelecido que havia a necessidade de organizar um grupo de críticas com uma plataforma comum, uma associação ou um coletivo. A ideia de uma associação foi descartada por representar uma estrutura mais pesada, e mais discussões. Então ficou estabelecida a formação de um coletivo de críticas de cinema, com um olhar feminista sobre a produção de cinema e de audiovisual. O objetivo é estudar tanto a cinefilia quanto a invisibilidade da mulher no exercício da crítica. Para se afirmar e conquistar uma identidade midiática, o coletivo deve pensar em atividades que contribuam para a formação de pessoas, apoiar as novas críticas, fomentar programas de aperfeiçoamento e de pesquisa.

O nome surgiu a partir da tese de doutorado de Daniela Crepaldi Carvalho sobre Elvira Gama e seus artigos sobre a imagem em movimento entre 1894 e 1895. Não havia nesse período colunas sobre cinema como conhecemos hoje, e sim sobre teatro, artes plásticas, literatura, mesmo porque o cinema como expressão artística ainda engatinhava. A coluna de Elvira se chamava Kinetoscopio, nome do aparelho criado por Thomas Alva Edison, que permitia apenas a uma pessoa de cada vez ver as imagens em movimento, e era um dos atrativos dos salões da Rua do Ouvidor. A coluna era publicada no Jornal do Brasil, periódico de imprensa que surge naquele período para defender as ideias monarquistas dentro da Velha República.

A ideia de formar um coletivo sem estrutura formal prevaleceu, adotando o nome de Elviras. “No começo o grupo possuía 60 mulheres, todas de posições extremamente diferentes sobre o assunto. O início foi tenso”, lembra. Surgiu a ideia de fazer formulários para pesquisar o perfil das integrantes. Outras sugeriram ainda a criação de uma logomarca, com um desenho estilizado, mas o grupo acabou ficando sem ela, pois não houve consenso quanto à arte que seria utilizada na elaboração.

Desde o princípio, as diferenças políticas marcaram o debate. Muitas integrantes já saíram por conta das divergências ideológicas. Há posições bastante diferentes com relação ao feminismo dentro do coletivo. Suas fundadoras se empenham, contudo, em centrar a discussão na crítica de cinema e na atuação das mulheres neste segmento. O coletivo tem uma página no Facebook, e dois grupos de whatsapp, um para questões mais gerais, outro para discutir filmes. Na atualidade,  as Elviras somam mais de 100 integrantes de todas as partes do País.

Desde a sua fundação, as Elviras vêm conquistando um espaço cada vez maior nas discussões sobre a mulher no cinema quer analisando sobre a sua representação nas telas, quer  discutindo a mulher como autora no cinema, e o seu papel enquanto críticas de cinema, por meio de participação ativa nos debates em festivais. A primeira mesa de debates do Coletivo Elviras aconteceu na 20ª Mostra de Tiradentes, em janeiro de 2017, com a participação de Camila Vieira, Ivonete Pinto e Flávia Guerra. As Elviras já participaram de mesas de debates em diversos eventos como o festival internacional de documentários É tudo Verdade (São Paulo), o Festival Sesc Melhores Filmes,  o Cinema da Vela (Cinesesc), a Socine (Associação Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual),  em João Pessoa, na Paraíba.

As Elviras reunidas  durante o 50º FCB em Brasília/Foto Rômulo Juracy

Por enquanto, acredita Cecília, o movimento não sente falta de ter uma associação. Faltam definições para tanto. A prioridade é estimular a formação, realizar seminários, cursos, oficinas. O momento é de estruturar as formas de difusão do conhecimento dentro do grupo, personaliza-lo, pois no momento existem várias possibilidades de atuação que necessitam de um aprofundamento maior. Na reunião deste ano em Brasília, foi decidido que seriam criadas comissões para discutir questões específicas, como por exemplo, se deveriam haver normas pré-estabelecidas para admissão dentro do grupo. Com a abrangência de aplicativos e portais via web, a definição da atividade crítica sobre cinema passa por questões cada vez mais complexas.

As Elviras hoje somam 104 mulheres críticas (dados de setembro de 2017), sendo que a maioria (25%) está localizada em São Paulo, em posição quase de empate com o Rio de Janeiro (24%), seguida por Minas Gerais (13%) e Distrito Federal (12%). As demais se distribuem em Amazonas, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Roraima e Santa Catarina.

O próximo debate vai acontecer durante a programação da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo que se inicia agora, dia 18 de outubro. O tema é a presença da cinematografia feminina dentro da mostra, que este ano homenageia a cineasta Agnés Varda com o Prêmio Humanidades. A mesa vai reunir as Elviras Joyce Pais, Luciana Veras, Luiza Lusvarghi e Luísa Pécora, com a mediação de Flávia Guerra, para discutir o espaço das mulheres na crítica. O encontro vai ser na livraria Blooks, ao lado dos cinemas no terceiro piso do Shopping Frei Caneca, dia 23, a partir das 19 horas.

 

 

Conheça Ellen Tejle, a criadora da campanha A-Rate

 

Ellen Tejle, a criadora da campanha A-Rate do selo Bechdel-Walace, que surgiu como campanha em 2013 na Suécia, conversou com FF sobre cinema, ficção e relações de gênero e étnicas como representação. A campanha tem apoio do Instituto Sueco de Cinema, a maior fonte de financiamento do mercado cinematográfico daquele país.

Ellen Tejle e Débora Ivanov, da Ancine.

FF – Porque o teste Bechdel é focado somente em filmes e não inclui séries de TV? Afinal, são produtos da mesma indústria. Aqui no Brasil a ficção televisiva é muito popular e atualmente bastante voltada para as questões de gênero, mais do que os filmes, e nos demais países da América Latina, a situação é semelhante. A produção televisiva sueca também é muito forte, não é?

ET – A forma original de aplicar o teste Bechdel, de 1985, é em filmes. Mas na Suécia nós também aplicamos às series de TV, resenhas de livros, seminários e outros segmentos.  É livre para ser utilizado por qualquer pessoa da forma que achar melhor.

FF – Você acredita que o teste Bechdel ajudou efetivamente a aumentar a participação da mulher nos filmes suecos?

ET– Com certeza. Ele contribuiu para desenvolver a consciência da importância da representação feminina nos filmes.

FF – Qual é o Market Share do Cinema Sueco comparativamente com a produção estrangeira? Os filmes suecos são populares? Um de nossos mais influentes críticos, Paulo Emílio Salles Gomes, disse uma vez que “o pior filme brasileiro seria sempre mais significativo do que qualquer produção estrangeira”.

ET – A Suécia possui 15% de participação no mercado de cinema. Os Estados Unidos respondem por 40%, e 38% são do restante da Europa.

FF – O teste Chavez Perez foi inspirado pelo Bechdel?

ET – Sim.

FF – Parte dos Coletivos Feministas Brasileiros está defendendo um movimento feminista interseccional que inclua as questões étnicas. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), desde 2014 a população preta representa 53,6% do total. Assim, me parece que ambos os testes, Bechdel-Walace Chavez Perez poderiam ajudar a Brasil a promover políticas igualitárias para as produções de cinema e audiovisual, não acha?

ET – Penso que os dois testes contribuem para dar mais visibilidade à discriminação a pessoas pretas e às mulheres, e que podem igualmente ampliar a consciência da indústria cinematográfica brasileira, e também da própria audiência.

FF – O que aconteceu após os cinemas suecos adotarem os testes Bechdel-Walace e Chavez Perez como classificação para os filmes em cartaz?

ET – Nós lançamos o teste Bechdel para as salas de exibição em 2013. Nós usamos o Chavez Perez, por enquanto, como um argumento a mais, mas também para levantar dados que validem o teste e demonstrar para a indústria como funciona o estereótipo.

FF – A que altura você decidiu que iria se dedicar a uma campanha classificatória? Qual a experiência específica que fez com que você sentisse essa necessidade?

ET – Eu fui a diretora do cinema de arte Rio por oito anos. E pra mim tudo começou quando eu percebi como eu era pouco esclarecida, eu mesma, quando essas questões surgiam em forma de estereótipos e dados nos filmes. Eu tive a “sensação” de que eu tinha um vasto conhecimento referente a essas questões, e ainda de que eu programava filmes na minha sala levando em conta essas questões. Foi assim. Quando eu comecei a contar o número de diretoras mulheres, protagonistas mulheres, e assim por diante, em exibição na sala do Cinema Rio, eu fiquei chocada ao perceber como eram poucas, e que isso não correspondia ao que eu sentia a respeito. E isso se tornou a minha grande lição. NUNCA CONFIE EM SEUS SENTIMENTOS. NUNCA!  E se eu, uma mulher na Suécia, estava tão distante de ter plena consciência, acredito que deva haver muitas outras na mesma situação. Portanto, este é o motive pelo qual eu criei uma campanha que tem por objetivo despertar a consciência da representação feminina no cinema.

FF – O que mais pode ser feito no futuro para conquistar e qualidade de gênero na indústria cinematográfica?

ET – Em minha opinião, o filme industrial comercial não está levando a questão da representatividade feminina a sério. Não ainda.  Naturalmente, não é mais comparável ao período em que apenas 7% das mulheres eram diretoras (4% somente em Hollywood, 2016) e os papeis de fala giravam em torno de 30% (o mesmo número de 1940 se manteve estável).  Desta forma, não, nós não estamos insistindo na mesma tecla com a devida rapidez. E quando você busca dados sobre as minorias ou, por exemplo, mulheres pretas, eles são totalmente invisíveis. Assim, nós precisamos de mais pessoas exercendo cargos de poder nos institutos de mídia, de filmes e no próprio cinema para aperfeiçoar o conhecimento acerca da representação nos filmes, fazendo levantamentos e estabelecendo planos de ação para alcançar 50/50.  A Suécia é um bom exemplo de como institutos, a mídia e as organizações de base trabalhando juntas podem melhorar a equidade nos filmes. O que prova que isso é possível.

FF – Como foi a recepção na Suécia ao A-rating e aos recursos públicos disponibilizados para atingir a meta 50/50 para projetos liderados por homens e mulheres?

ET – As vozes que se elevaram vieram logo no início de nossos críticos – os quais eram de modo geral nossos melhores amigos supostamente feministas (PR-friends) a fazer com que a mídia continue a perpetuar suas ideias. Eles não são muitos, mas são visíveis. E frequentemente eles usam os mesmos argumentos de sempre, como “eu já tenho consciência disso” ou o clássico “eu escolhi a qualidade no meu filme, e por acaso era majoritariamente feito por homens e fala sobre eles”. Nossa estratégia e a do Instituto Sueco de Cinema tem sido a de checar cada argumento com um plano de ação e fatos. Os levantamentos e pesquisas ajudam a mostrar como a indústria cinematográfica é discriminatória, assim como a elaboração de novas bases de dados destacando somente as mulheres nos filmes, e assim assegurando que mais e mais parceiros admitam que seu “próprio instinto” não era correto. Eles precisam mudar, nós precisamos mudar. A maioria das críticas não é silenciosa. Nestes últimos quatro anos de lutas nós vimos que o progresso é evidente. Basta olhar o mercado de cinema sueco atual em que 60 % dos prêmios vão para as mulheres (e não somente na direção, mas na direção de fotografia, edição, roteiro, e assim por diante). Os três melhores filmes na avaliação dos críticos na Suécia dos últimos 10 anos são dirigidos por mulher, tem mulheres protagonistas, e foram escritos por mulheres. Portanto, o argumento de que mulheres não fazem filmes tão bem quanto os homens não funciona mais. Porque naturalmente não é verdade.

FF – Qual o maior obstáculo que as mulheres encaram na indústria do audiovisual, em sua opinião?

ET – Maus hábitos e ignorância. Não acredito que as pessoas queiram fazer filmes sexistas, ou criar estereótipos ruins para as mulheres. Eu penso que as pessoas estão fazendo o que sempre fazem, e contando histórias similares às que conhecem, sem se questionar. As pessoas da indústria cinematográfica precisam perceber que elas têm poder e responsabilidade, e que elas são as mesmas que precisam ter clareza de sua decisão no processo de fazer um filme. E ousar quebrar estereótipos. Com certeza vai ser um filme melhor e uma história melhor.

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