Revista O Grito!

Femme Fatale — Por Luiza Lusvarghi. Séries, Filmes, Produção Latino-Americana, Relações de Gênero

Categoria: Entrevistas

A pioneira Cecília Barroso: Breve Cronologia do Coletivo Elviras

Em julho de 2016, a jornalista e crítica de cinema Cecília Barroso, criadora do portal Cenas de Cinema, bateu os olhos na lista de credenciamento de imprensa do festival Olhar de Cinema, em Curitiba. Na ocasião ela prestava serviços de assessoria para o evento. As mulheres eram minoria na lista. Aquilo a incomodou. Porque não chamar mais mulheres?  A resposta foi “não tem”. Como assim, se ela mesma conhecia diversas mulheres que exerciam o ofício de críticas de cinema? As redações modernas estão repletas de mulheres.

A partir daí, Cecília se deu conta de que o mesmo ocorria no Festival Brasileiro de Cinema de Brasília, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no Festival do Rio, enfim, na maioria dos festivais de referência do País. “Em 2016 ainda eu fui pro Cine Ceará, e muito impactada com essa percepção”. A ideia de que não existem críticas em número suficiente, eu conheço. Foi numa ida ao Rio que Cecília encontrou Samantha Brasil, colaboradora do Almanaque Virtual e fundadora do Cineclube Delas, saiu para tomar um café e compartilhar ideias. Nasceu informalmente daquele encontro a ideia de um grupo de whatsapp. Essas discussões acabaram contribuindo para a realização um encontro em Brasília, em setembro de 2016, durante o Festival Brasileiro de Cinema. Em Brasília, ela e Samantha se encontraram com Camila Vieira, Neusa Barbosa, Yale Gontijo, Carol Almeida, Kenia Freitas, Ivonete Pinto. “Tinha até produtoras e uma diretora, a Dea Ferraz, que participaram da reunião”, lembra.

Nesta reunião em Brasília ficou estabelecido que havia a necessidade de organizar um grupo de críticas com uma plataforma comum, uma associação ou um coletivo. A ideia de uma associação foi descartada por representar uma estrutura mais pesada, e mais discussões. Então ficou estabelecida a formação de um coletivo de críticas de cinema, com um olhar feminista sobre a produção de cinema e de audiovisual. O objetivo é estudar tanto a cinefilia quanto a invisibilidade da mulher no exercício da crítica. Para se afirmar e conquistar uma identidade midiática, o coletivo deve pensar em atividades que contribuam para a formação de pessoas, apoiar as novas críticas, fomentar programas de aperfeiçoamento e de pesquisa.

O nome surgiu a partir da tese de doutorado de Daniela Crepaldi Carvalho sobre Elvira Gama e seus artigos sobre a imagem em movimento entre 1894 e 1895. Não havia nesse período colunas sobre cinema como conhecemos hoje, e sim sobre teatro, artes plásticas, literatura, mesmo porque o cinema como expressão artística ainda engatinhava. A coluna de Elvira se chamava Kinetoscopio, nome do aparelho criado por Thomas Alva Edison, que permitia apenas a uma pessoa de cada vez ver as imagens em movimento, e era um dos atrativos dos salões da Rua do Ouvidor. A coluna era publicada no Jornal do Brasil, periódico de imprensa que surge naquele período para defender as ideias monarquistas dentro da Velha República.

A ideia de formar um coletivo sem estrutura formal prevaleceu, adotando o nome de Elviras. “No começo o grupo possuía 60 mulheres, todas de posições extremamente diferentes sobre o assunto. O início foi tenso”, lembra. Surgiu a ideia de fazer formulários para pesquisar o perfil das integrantes. Outras sugeriram ainda a criação de uma logomarca, com um desenho estilizado, mas o grupo acabou ficando sem ela, pois não houve consenso quanto à arte que seria utilizada na elaboração.

Desde o princípio, as diferenças políticas marcaram o debate. Muitas integrantes já saíram por conta das divergências ideológicas. Há posições bastante diferentes com relação ao feminismo dentro do coletivo. Suas fundadoras se empenham, contudo, em centrar a discussão na crítica de cinema e na atuação das mulheres neste segmento. O coletivo tem uma página no Facebook, e dois grupos de whatsapp, um para questões mais gerais, outro para discutir filmes. Na atualidade,  as Elviras somam mais de 100 integrantes de todas as partes do País.

Desde a sua fundação, as Elviras vêm conquistando um espaço cada vez maior nas discussões sobre a mulher no cinema quer analisando sobre a sua representação nas telas, quer  discutindo a mulher como autora no cinema, e o seu papel enquanto críticas de cinema, por meio de participação ativa nos debates em festivais. A primeira mesa de debates do Coletivo Elviras aconteceu na 20ª Mostra de Tiradentes, em janeiro de 2017, com a participação de Camila Vieira, Ivonete Pinto e Flávia Guerra. As Elviras já participaram de mesas de debates em diversos eventos como o festival internacional de documentários É tudo Verdade (São Paulo), o Festival Sesc Melhores Filmes,  o Cinema da Vela (Cinesesc), a Socine (Associação Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual),  em João Pessoa, na Paraíba.

As Elviras reunidas  durante o 50º FCB em Brasília/Foto Rômulo Juracy

Por enquanto, acredita Cecília, o movimento não sente falta de ter uma associação. Faltam definições para tanto. A prioridade é estimular a formação, realizar seminários, cursos, oficinas. O momento é de estruturar as formas de difusão do conhecimento dentro do grupo, personaliza-lo, pois no momento existem várias possibilidades de atuação que necessitam de um aprofundamento maior. Na reunião deste ano em Brasília, foi decidido que seriam criadas comissões para discutir questões específicas, como por exemplo, se deveriam haver normas pré-estabelecidas para admissão dentro do grupo. Com a abrangência de aplicativos e portais via web, a definição da atividade crítica sobre cinema passa por questões cada vez mais complexas.

As Elviras hoje somam 104 mulheres críticas (dados de setembro de 2017), sendo que a maioria (25%) está localizada em São Paulo, em posição quase de empate com o Rio de Janeiro (24%), seguida por Minas Gerais (13%) e Distrito Federal (12%). As demais se distribuem em Amazonas, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Roraima e Santa Catarina.

O próximo debate vai acontecer durante a programação da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo que se inicia agora, dia 18 de outubro. O tema é a presença da cinematografia feminina dentro da mostra, que este ano homenageia a cineasta Agnés Varda com o Prêmio Humanidades. A mesa vai reunir as Elviras Joyce Pais, Luciana Veras, Luiza Lusvarghi e Luísa Pécora, com a mediação de Flávia Guerra, para discutir o espaço das mulheres na crítica. O encontro vai ser na livraria Blooks, ao lado dos cinemas no terceiro piso do Shopping Frei Caneca, dia 23, a partir das 19 horas.

 

 

Conheça Ellen Tejle, a criadora da campanha A-Rate

 

Ellen Tejle, a criadora da campanha A-Rate do selo Bechdel-Walace, que surgiu como campanha em 2013 na Suécia, conversou com FF sobre cinema, ficção e relações de gênero e étnicas como representação. A campanha tem apoio do Instituto Sueco de Cinema, a maior fonte de financiamento do mercado cinematográfico daquele país.

Ellen Tejle e Débora Ivanov, da Ancine.

FF – Porque o teste Bechdel é focado somente em filmes e não inclui séries de TV? Afinal, são produtos da mesma indústria. Aqui no Brasil a ficção televisiva é muito popular e atualmente bastante voltada para as questões de gênero, mais do que os filmes, e nos demais países da América Latina, a situação é semelhante. A produção televisiva sueca também é muito forte, não é?

ET – A forma original de aplicar o teste Bechdel, de 1985, é em filmes. Mas na Suécia nós também aplicamos às series de TV, resenhas de livros, seminários e outros segmentos.  É livre para ser utilizado por qualquer pessoa da forma que achar melhor.

FF – Você acredita que o teste Bechdel ajudou efetivamente a aumentar a participação da mulher nos filmes suecos?

ET– Com certeza. Ele contribuiu para desenvolver a consciência da importância da representação feminina nos filmes.

FF – Qual é o Market Share do Cinema Sueco comparativamente com a produção estrangeira? Os filmes suecos são populares? Um de nossos mais influentes críticos, Paulo Emílio Salles Gomes, disse uma vez que “o pior filme brasileiro seria sempre mais significativo do que qualquer produção estrangeira”.

ET – A Suécia possui 15% de participação no mercado de cinema. Os Estados Unidos respondem por 40%, e 38% são do restante da Europa.

FF – O teste Chavez Perez foi inspirado pelo Bechdel?

ET – Sim.

FF – Parte dos Coletivos Feministas Brasileiros está defendendo um movimento feminista interseccional que inclua as questões étnicas. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), desde 2014 a população preta representa 53,6% do total. Assim, me parece que ambos os testes, Bechdel-Walace Chavez Perez poderiam ajudar a Brasil a promover políticas igualitárias para as produções de cinema e audiovisual, não acha?

ET – Penso que os dois testes contribuem para dar mais visibilidade à discriminação a pessoas pretas e às mulheres, e que podem igualmente ampliar a consciência da indústria cinematográfica brasileira, e também da própria audiência.

FF – O que aconteceu após os cinemas suecos adotarem os testes Bechdel-Walace e Chavez Perez como classificação para os filmes em cartaz?

ET – Nós lançamos o teste Bechdel para as salas de exibição em 2013. Nós usamos o Chavez Perez, por enquanto, como um argumento a mais, mas também para levantar dados que validem o teste e demonstrar para a indústria como funciona o estereótipo.

FF – A que altura você decidiu que iria se dedicar a uma campanha classificatória? Qual a experiência específica que fez com que você sentisse essa necessidade?

ET – Eu fui a diretora do cinema de arte Rio por oito anos. E pra mim tudo começou quando eu percebi como eu era pouco esclarecida, eu mesma, quando essas questões surgiam em forma de estereótipos e dados nos filmes. Eu tive a “sensação” de que eu tinha um vasto conhecimento referente a essas questões, e ainda de que eu programava filmes na minha sala levando em conta essas questões. Foi assim. Quando eu comecei a contar o número de diretoras mulheres, protagonistas mulheres, e assim por diante, em exibição na sala do Cinema Rio, eu fiquei chocada ao perceber como eram poucas, e que isso não correspondia ao que eu sentia a respeito. E isso se tornou a minha grande lição. NUNCA CONFIE EM SEUS SENTIMENTOS. NUNCA!  E se eu, uma mulher na Suécia, estava tão distante de ter plena consciência, acredito que deva haver muitas outras na mesma situação. Portanto, este é o motive pelo qual eu criei uma campanha que tem por objetivo despertar a consciência da representação feminina no cinema.

FF – O que mais pode ser feito no futuro para conquistar e qualidade de gênero na indústria cinematográfica?

ET – Em minha opinião, o filme industrial comercial não está levando a questão da representatividade feminina a sério. Não ainda.  Naturalmente, não é mais comparável ao período em que apenas 7% das mulheres eram diretoras (4% somente em Hollywood, 2016) e os papeis de fala giravam em torno de 30% (o mesmo número de 1940 se manteve estável).  Desta forma, não, nós não estamos insistindo na mesma tecla com a devida rapidez. E quando você busca dados sobre as minorias ou, por exemplo, mulheres pretas, eles são totalmente invisíveis. Assim, nós precisamos de mais pessoas exercendo cargos de poder nos institutos de mídia, de filmes e no próprio cinema para aperfeiçoar o conhecimento acerca da representação nos filmes, fazendo levantamentos e estabelecendo planos de ação para alcançar 50/50.  A Suécia é um bom exemplo de como institutos, a mídia e as organizações de base trabalhando juntas podem melhorar a equidade nos filmes. O que prova que isso é possível.

FF – Como foi a recepção na Suécia ao A-rating e aos recursos públicos disponibilizados para atingir a meta 50/50 para projetos liderados por homens e mulheres?

ET – As vozes que se elevaram vieram logo no início de nossos críticos – os quais eram de modo geral nossos melhores amigos supostamente feministas (PR-friends) a fazer com que a mídia continue a perpetuar suas ideias. Eles não são muitos, mas são visíveis. E frequentemente eles usam os mesmos argumentos de sempre, como “eu já tenho consciência disso” ou o clássico “eu escolhi a qualidade no meu filme, e por acaso era majoritariamente feito por homens e fala sobre eles”. Nossa estratégia e a do Instituto Sueco de Cinema tem sido a de checar cada argumento com um plano de ação e fatos. Os levantamentos e pesquisas ajudam a mostrar como a indústria cinematográfica é discriminatória, assim como a elaboração de novas bases de dados destacando somente as mulheres nos filmes, e assim assegurando que mais e mais parceiros admitam que seu “próprio instinto” não era correto. Eles precisam mudar, nós precisamos mudar. A maioria das críticas não é silenciosa. Nestes últimos quatro anos de lutas nós vimos que o progresso é evidente. Basta olhar o mercado de cinema sueco atual em que 60 % dos prêmios vão para as mulheres (e não somente na direção, mas na direção de fotografia, edição, roteiro, e assim por diante). Os três melhores filmes na avaliação dos críticos na Suécia dos últimos 10 anos são dirigidos por mulher, tem mulheres protagonistas, e foram escritos por mulheres. Portanto, o argumento de que mulheres não fazem filmes tão bem quanto os homens não funciona mais. Porque naturalmente não é verdade.

FF – Qual o maior obstáculo que as mulheres encaram na indústria do audiovisual, em sua opinião?

ET – Maus hábitos e ignorância. Não acredito que as pessoas queiram fazer filmes sexistas, ou criar estereótipos ruins para as mulheres. Eu penso que as pessoas estão fazendo o que sempre fazem, e contando histórias similares às que conhecem, sem se questionar. As pessoas da indústria cinematográfica precisam perceber que elas têm poder e responsabilidade, e que elas são as mesmas que precisam ter clareza de sua decisão no processo de fazer um filme. E ousar quebrar estereótipos. Com certeza vai ser um filme melhor e uma história melhor.

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