A descoberta do amor na infância

Esteros (Argentina/Brasil), coprodução que passou em Gramado na mostra competitiva no ano passado,  e estreia na quinta, 27 de julho, é um longa que aborda a homossexualidade sob uma ótica pouco usual no cinema. O diretor, Papu Curotto, oprtou por  narrar a história de amor entre dois garotos que se conheceram meninos, e cujas famílias são amigas. Matías (Ignácio Roers) e Jerónimo (Estebán Maturini) cresceram juntos em Paso de Los Libres (Argentina), região folclórica, reserva ecológica e que possui um carnaval muito parecido com o do Brasil.

Ambos sentem uma forte atração um pelo outro, mas Matías já assume sua identidade sexual precocemente, enquanto o Jerónimo oscila entre as garotas e o amigo por quem nutre uma afeição especial. As cenas entre os dois que abordam a infância são muito líricas, e evidenciam as contradições entre os dois, mas são suficientemente elaboradas para não cair em relacionamento clichê e estereotipado de boy meets boy. As brincadeiras, embora carregadas de sensualidade, são bastante pueris. A amizade prevalece, e a atração é narrada de forma apropriada para a discussão das inclinações de ambos naquela idade em, sobretudo, naquela pequena cidade.

O pai de Jerónimo acaba decidindo ir embora de Paso de Los Libres, seguindo para o Brasil, e com isso os dois se separam por muitos anos. Essa transição surge na forma de uma memória afetiva em flashback de Matías, o ator Joaquín Parada quando menino,  despertada pela volta do amigo Jerónimo –  interpretado por Blaz Finardi Niz na infância, mais expressivo do que o ator Estebán Maturin na fase adulta do personagem. Quando se reencontram, Jeronimo está namorando uma brasileira, Rochi  (Renata Calmon).Há alguns diálogos em português, mas que funcionam dentro dos limites diegéticos da história, não existe nenhuma reflexão sobre questões transfronteiriças ou transculturais. Trata-se de uma eventualidade, como acontece em muitas coproduções, e até mesmo na vida real. O encontro casual entre os dois amigos acaba fazendo renascer as memórias da adolescência e a paixão.

O conflito aqui é sempre interno, embora a questão da orientação homossexual não ser aceita socialmente esteja sempre presente. Não existem cenas em que a questão social e cultural da homoafetividade e da sua inserção na sociedade esteja em relevo, ela é sempre implícita. Existe a suposição de que os pais de Jeronimo jamais aceitariam a relação, receio que ele expressa, enquanto os pais de Matías, e em especial, sua mãe, embora nunca confrontados com a opção sexual do filho, pareçam mais inclinados a lidar com essa possibilidade.

O filme resolve o conflito entre os dois jovens, mas deixa em aberto a questão do preconceito que provavelmente terão de enfrentar para viver o seu amor. O famoso beijo entre os dois chegou a ser aplaudido durante a projeção em Gramado. A paisagem da pequena cidade do interior e seus estuários, que dão titulo à película, garantem o tom bucólico perfeito para o romance.

A questão que nos afeta, entretanto, é mais de elaboração de personagens. Rochi, a garota, que papel joga na relação? É enganada. E isso não parece ser problema, o que é bastante duvidoso. O fato da existência do preconceito justifica o ato de omissão, e de certa forma, da infidelidade. Não explica, entretanto, a falta de discussão entre os dois, que poderia estar presente, afinal são um casal. Apesar disso, Rochi aceita de forma bastante natural a relação de Jerónimo e Matías, e o fim de seu compromisso com Jeronimo. A expectativa de romance entre os dois e a previsibilidade do “enfim juntos” acaba por consumir outras possibilidades abertas pelo filme, que na atualidade não pode ser mais visto como diferente apenas pelo fato de abordar uma love story gay. O momento atual pede um pouco mais de audácia. O lirismo e a sensibilidade das cenas de infância entre os dois amigos, preenchidas com muitos silêncios,  são o maior acerto do filme. O projeto surgiu a partir de um curta intitulado Matías y Jerónimo, e é o longa de estreia de Papu Curoto.