A série espanhola La Casa de Papel (2017-2019) está conquistando o público brasileiro com uma trama que mescla policial, suspense e melodrama, elementos tão característicos das série criminais latinas. Façanha rara. A história de um grande golpe efetuado por um grupo de amadores que se mesclam a especialistas em suas áreas –  estrategistas da web, assaltantes de bancos e matadores de aluguel-, organizados por um criminoso extremamente talentoso, conhecido apenas como O Professor (Álvaro Morte) poderia ser o pretexto perfeito para discutir a sociedade moderna e a democracia neoliberal. A discussão, entretanto, está subjacente ao roteiro, que está mais preocupado em divertir e entreter do que aprofundar qualquer dessas questões. Aqui o que importa é seguir “el plan“. Boa parte da empatia que a série desperta vem do fato dos personagens serem pessoas comuns, e que, ao contrário das séries hollywoodianas que reúnem gênios do crime num golpe fantástico, nunca deram certo na vida. Os oito membros da equipe adotam nomes de cidades do mundo com as quais eles se identificam para manter anonimato: Tókyo (Úrsula Corberó),  Nairóbi (Alba Flores),  Berlin (Pedro Alonso), Moscou (Paco Tous), Denver  (Jaime Lorente), Rio (Miguel Hérran), Helsinque (Darko Peric) e Oslo (Roberto García).

Em sua segunda temporada, o suspense se coloca em segundo plano para deixar entrar em cena o drama romântico, colocando ainda mais em evidência os conflitos da inspetora Raquel Murillo (Itziar Ituño) com a lei e a ordem, mas sem jamais abandonar totalmente o clima de mistério. E deixa o gancho perfeito para uma possível terceira temporada, ainda não confirmada. A produção estreou primeiro na televisão espanhola, no Canal Antena 3, e somente então foi parar no catálogo da plataforma de streaming.

A série fortalece sem dúvida o mito do marginal romântico, tão marcante também na cinematografia latino-americana, borrando as linha entre o bem e o mal, porém com muito mais poder de sedução e de apelo popular do que as narcosséries, por exemplo. Não é difícil entender essa reação, afinal, as corporações policiais, ao longo da nossa história, representaram o braço armado de ditaduras políticas. Há corrupção na polícia, no governo. Então, a identificação com os bandidos, que  são francamente os protagonistas, os oprimidos, os bonzinhos, não é de se admirar. Os criminosos usam máscaras de Salvador Dali, um anarco-monarquista e um tímido patológico que se ocultava por trás de um comportamento excêntrico. Elas são outra marca da série, metáfora interessante que remete ao Anonymous de V de Vingança (2005) e às insurreições individualistas.

O motivo de tanto sucesso, no entanto,  não deve ser visto somente por esse lado tão óbvio. O historiador inglês Eric Hobsbawn, em sua obra Bandidos, frisa a popularidade do assaltantes de bancos em diferentes períodos. Dillinger era idolatrado pela imprensa e pelo povo dos Estados Unidos como um autêntico Robin Hood. No período da Depressão, na década de 1930, muitos cidadãos estadunidenses culpavam os bancos pela  crise. Durante os assaltos, Dillinger adorava frisar que estava ali para levar dinheiro da instituição, e não dos clientes. Essa é, em poucas palavras, a grande argumentação do mentor do assalto de 2 bilhões de euros à Casa da Moeda espanhola, o Professor, para justificar seu ato criminoso.Há muito pouco de verdade nessa vocação social dos bandidos, ainda mais quando se confronta essa afirmação numa sociedade moderna. As organizações estatais pós-modernas, cada vez mais autoritárias e policialescas, entretanto, vêm atualizando esse discurso com a sua incitação ao medo e ao ódio sob o pretexto de promover a segurança e combater a corrupção.

A ambiguidade moral de todos os personagens, bandidos e policiais, é a deixa para que o público comece a torcer pelos assaltantes. O fascismo do Coronel Prieto (Juan Fernández), que a todo momento tenta impor a extrema violência  como único método para manter a ordem , e seu empenho em desestruturar a carreira da inspetora Murillo pelo simples fato de ser mulher, rapidamente fazem dele um vilão. Sem falar no ex-marido da inspetora, o investigador Alberto (Joseba), que a espancava , e que não poupa esforços para desestabilizar sua trajetória profissional e pessoal, disputando a guarda da filha de forma inescrupulosa. Tudo isso faz com que o personagem de Murillo seja o personagem feminino mais complexo e, aparentemente, o mais frágil. Ela ocupa uma posição de poder, e ao mesmo tempo, tem de lidar com o machismo no dia a dia, em casa, no trabalho, e com suas próprias fragilidades emocionais. O que está totalmente em desacordo com as regras de uma corporação que impõe um modelo praticamente assexuado de policial bem-sucedida, ao menos nas séries estadunidenses que consagraram o gênero na televisão e no cinema.

As mulheres e seus dilemas representam um capítulo à parte. As reféns se destacam para compor, ao lado das integrantes do grupo, um painel extremamente diversificado da participação feminina na sociedade contemporânea. Temos a garota rica e mimada que é vitima de bullying em Alison (María Pedraza), a funcionária pública Monica Gaztambide (Esther Acebo) que acaba se envolvendo com o chefe casado que prefere continuar com a mulher tradicional e submissa. Ao longo da série, algumas reféns acabam se identificando com os bandidos.

São duas as mulheres do bando. Nairóbi, codinome da personagem mais maternal e sensível do bando, que busca redimir-se de uma adolescência pobre e inconsequente,  e é uma perita em falsificações. E temos a impulsiva e rebelde Tókyo, inspirada por Mathilda, o personagem de Nathalie Portman em O Profissional (1994), de Luc Besson. Tóquio e seu amado, o gênio da deep web  Rio, formam o par romântico no qual qualquer adolescente poderia se espelhar. Aliás, hackers e a perversidade do sistema financeiro são outra associação fatal que sempre dá certo. O fascínio exercido pela hacker sueca Lizbeth Sallander, criação de Stief Larsson para a trilogia Millenium, também reverbera o dito popular que diz que “ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão”.  Na era do roubo cibernético, se você está roubando quem vive de espionagem financeira global, está contribuindo para a redistribuição de renda, está na verdade fazendo justiça e inclusão social.

É Tóquio quem vai narrar a história, e é por meio dela, a ovelha negra, que vamos sendo familiarizados com o bando de assaltantes que se comportam como aplicados estudantes durante o treinamento para o “maior assalto do século”, e acabam se envolvendo como uma autêntica família. A canção Bella Ciao, canção popular italiana , composta no fim do século XIX, é o grande marco da série, e garante aura contestadora para o grupo que dá um golpe fabricando dinheiro, em vez de roubar. Suas origens são controversas. Era um canto de trabalho das mondine, trabalhadoras rurais temporárias das plantações de arroz italianas, uma canção de protesto contra a Primeira Guerra Mundial, mas sua versão final a  tornaria um símbolo da resistência italiana antifascista, durante a Segunda Guerra Mundial. Na série, ela é um elemento importante que relaciona o Professor com o psicopata do grupo, Berlin, o único com quem ele demonstra intimidade familiar, a despeito de sua norma  contra o envolvimento afetivo dos integrantes. Regra que ele é um dos  primeiros a violar.

Uma ressalva: a série é endereçada a intelectuais, à classe média que teme perder o poder, às mulheres emancipadas que lutam para afirmar-se num universo patriarcal, mas evita cuidadosamente abordar qualquer assunto polêmico que possa resvalar em conflitos étnicos e raciais, por exemplo. O mapeamento cognitivo dos personagens se resume aos membros mais tradicionais da potência espanhola que estruturou a maior colônia geocultural da América.