A FELICIDADE COMO OPRESSÃO
Fahrenheit 451, uma das obras mais importantes de ficção-científica, ganha versão em quadrinhos, e mostra um mundo onde livros são tidos como nocivos

Por Paulo Floro
Da Revista O Grito!

Uma das maiores obras de ficção-científica de todos os tempos, Fahrenheit 451, foi uma das poucas a conseguir um feito que poucos se deram bem: ganhou boas adaptações para outras mídias. No caso desta, um filme elogiado do diretor francês François Truffaut, em 1966 e agora a HQ feita por Tim Hamilton. Escrita por Ray Bradbury, o livro que chega agora às livrarias pela editora Globo Graphics, selo da editora Globo consegue transpor em imagens a extraordinária visão distópica de Bradbury. O resultado foi aprovado pelo autor do texto original e consegue potencializar o clássico publicado originalmente em 1953.

A obra, na verdade é uma ficção política, que se aproxima de outros clássicos como 1984, de George Orwell Admirável Mundo Novo, de Adouls Huxley. Todos apresentam uma distopia, uma visão pessimista de um mundo onde as liberdades individuais são colocadas na marginalidade em prol de um maior controle social que garantirá – utopicamente – mais segurança para todos os cidadãos. A história é centrada em Montag, um bombeiro que realiza com o maior prazer a tarefa de incendiar livros. Neste mundo, por trazerem inquietações, imaginação e questionamentos, os livros são considerados ameaças à felicidade.

No mundo futurista imaginado por Bradbury, o pensamento crítico foi suprimido e as pessoas agora tem o lazer como objetivo central de existência. Como as casas são à prova de fogo, os bombeiros agora provocam os incêndios. Eles são especializados em localizar livros publicados antes da proibição, autuar quem os esconde e destruí-los no local. O que esses agentes não tinham pensado, e isso é mostrado de forma surpreendente no livro, é que fogo algum é capaz de apagar a memória, num retorno claro à tradição oral que formou a civilização humana.

Cena da adaptação feita por Truffaut em 1966 (Foto: Reprodução)

A referência ao fogo começa já no título, referente à temperatura da combustão do papel comum (ou 233 graus para nossos padrões). A criatividade da visão do autor desta HQ é que a sociedade pensada por ele não preza a manutenção da guerra como equipamento primordial para manter o poder, como acontece em diversas propostas futuristas. Aqui, a ditadura é pacifista. E na beleza desse paradoxo esconde-se um objetivo ainda mais cruel, que é a dominação das mentes, originando um mundo alienado e apático. Sem questionamentos, as pessoas dedicam-se a viver em uma espécie de mundo paralelo. Jogam “Família”, um programa interativo onde exploram sem riscos a interação social. Uma previsão assustadoramente real, levando em conta que o livro foi escrito nos anos 1940

Em comparação com a adaptação de Truffaut, a HQ aposta mais em uma narrativa mais ousada. Traz doses elevadas de tensão a partir do momento em que o protagonista Montag começa a lutar contra a opressão do Estado e contra suas próprias convicções. Envolvido numa conspiração, culmina com um final cheio de ação. Traz ainda uma relação amorosa entre ele e uma garota que o desperta para o mundo fora da obrigatória zona de conforto. No filme do diretor francês, há menos da estética de ficção-científica e mais do estilo classudo do cinema francês dos anos 1960. Os personagens vivem num mundo parecido com o nosso, e o interesse é mais no discurso no que na forma como esse universo é apresentado.

Na HQ, há um real interesse em imaginar esse mundo e o fogo é elemento importante. A arte de Hamilton mostra as labaredas de forma quase poética, com quadros que chamam atenção pela concepção visual. Com arte limpa, que propõe uma mistura entre a narrativa acelerada dos comics americanos com a beleza da HQ europeia, o desenho colaborou para dar ainda mais veracidade à visão distópica de Bradbury. A edição da Globo é boa, e consegue aliar boa qualidade à altura da importância da obra com preço acessível. Ajudou não ser não apostar num luxo desnecessário, o que só prejudicaria a obra. Só peca por não trazer uma melhor contextualização da história e seu autor, como o texto do release entregue à imprensa, repleto de boas reflexões e informações.

Com esta HQ, Fahrenheit 451 pode ser considerada uma obra-prima em todas as mídias em que foi lançada.

FAHRENHEIT 451
Tim Hamilton (texto e arte), adaptação sobre obra de Ray Bradbury
Tradução de Ricardo Lísias e Ricardo Marques
[Globo Graphics/Globo, 160 páginas, R$ 39,90]
[Recomendado]

NOTA: 9,0

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