O artista Guillermo Kuitca (Divulgação).

O artista (Divulgação).

A SOLIDÃO SEGUNDO GUILLERMO KUITCA
Artista argentino explora percepções espaciais e o sentido de ausência na exposição Filosofia para Princesas

Por Andressa Monteiro

A Pinacoteca do Estado de São Paulo apresentou de julho a novembro de 2014 a exposição do artista argentino Guillermo Kuitca, Filosofia para Princesas. Com cerca de 50 obras expostas, entre elas, uma instalação, desenhos e pinturas, a mostra reuniu trabalhos produzidos durante toda a trajetória artística de Kuitca, desde os anos 80 até 2013.

Guillermo é considerado um dos mais importantes pintores da América Latina e de sua geração. Começou seus estudos no ateliê de Ahuva Szlimowicz, em Buenos Aires, nos anos 70, com uma carreira internacional precoce. Antes de completar 20 anos de idade, seus primeiros trabalhos, com grande projeção, já haviam sido expostos em galerias na Argentina.
Habitual na produção do artista, a solidão aparece em telas que pintam e desenham esteiras vazias de aeroportos e teatros sem plateia. A sua obra é conhecida por tratar de questões percebidas no campo filosófico e em uma atmosfera sensitiva de isolamento, deslocamento, representações abstratas e referenciais de espaço, vista na criação de mapas e de planos arquitetônicos.

Giancarlo Hannud é o curador da exposição – que já fez parte de coleções públicas e privadas na Europa, nos EUA, no Brasil e na Argentina. A única instalação de Filosofia para Princesas é a Le Sacre, (A Sagração), de 1992, constituída por 54 camas. Em seus colchões, foram pintados mapas de diferentes lugares do globo.

A obra "Terminal". (Divulgação).

A obra “Terminal”. (Divulgação).

De acordo com Guillermo, Le Sacre é um desenvolvimento do trabalho com colchões, retomando a primeira obra que fez com esse objeto – uma série de três colchões, que foi mostrada na Bienal de São Paulo de 1989. As camas de Le Sacre são menores do que camas de verdade, e, por isso, às vezes, são chamadas de “camitas”.

O fato dos mapas estarem projetados sobre camas é proeminente para uma análise da percepção e definição entre regional x global e perto x longe. “Eu queria brincar com a perspectiva e o tamanho das coisas; não estamos tão próximos delas [camas] quanto pensamos. Eu queria um olhar ampliado de algo, como a cama, um objeto tão próximo quanto nosso próprio corpo, para, então, visualizá-la dentro da casa, a casa dentro da cidade e a cidade dentro do mapa. Um zoom que se aproxima cada vez mais, ou se afasta cada vez mais”, afirma o artista.

Dramas humanos referentes a sentimentos sombrios e de isolamento são retratados pelo pintor em suportes variados, cuja existência se faz presente em cenas escuras e, por vezes, sensuais – como é o caso da pintura El mar dulce (O mar doce), de 1984.

Filosofia para Princesas (Philosophy for Princess II), de 2009. (Divulgação).

Filosofia para Princesas (Philosophy for Princess II), de 2009. (Divulgação).

O artista consegue conectar limitações intrínsecas de uma técnica pictórica com um poder de grande evidência criativa – apresentado em uma natureza visual por vezes opaca e escura e outras vibrante e intensa. Há uma cognição de ausências de ordem geográfica e presenças de ordem imaginativa, que se compõem e se complementam.
Não se deixe iludir pelo título da mostra, pois nada lembra um contos de fadas ou remete a trabalhos femininos e delicados. Filosofia para Princesas tem origem na pintura Philosophy for Princess II, de 2009, onde Guillermo une elementos primordiais de seu trabalho, como uma coroa de espinhos, plantas arquitetônicas e pinceladas cubistoides, ou seja, que lembram o Cubismo.

Qual seria a filosofia a que o título se refere? Ou quem seriam essas princesas? Respostas concretas, nesse caso, podem ser supridas pelas imaginárias. Sim. Imaginá-las parece ser suficiente, da mesma forma que o imaginar e o sugerir são questões presentes no corpo da obra do artista.

Ele origina espaços de solidão e de ausência, insinua presenças e memórias submergidas, distantes ou mortas, além de construir mapas de solidão e de distanciamento físicos, geográficos, comportamentais e psíquicos.

Na pintura Terminal, de 2000, o que há é a ausência e o vazio do individuo, do mundo e do tempo. Nada é claro ou explicativo na confusão de um cenário desabitado. O sentimento comum e de dependência é o mesmo que temos quando nossas bagagens são extraviadas ao viajarmos, ou quando esperamos de maneira frustrada por ela.

Não é apenas a ausência da figura humana presente, mas sim a exposição de lugares e objetos que carregam em si a implicação de uma futura ocupação humana com a qual nunca chegaremos de fato a visualizar – apenas seus rastros e histórias contadas e esquecidas. Nada é diretamente relatado ou retratado, mas, ao mesmo tempo, tudo é familiar e estranho.

Desenhos de teatros inacabados, camas desarrumadas, mapas de rodovias anônimas trazem essas sugestões sutis, mas jamais afirmadas. Os ambientes e espaços escolhidos pelas telas, como hospitais, teatros e cidades, são espaços de vasta solidão espectral, assim como o desejo pelo espaço do descanso, pelo retorno ao familiar.
Já em camitas, usadas como tema central em Le Sacre, passando também pela pintura de El mar Dulce, é possível sentir efeitos que despertam dores e prazeres, desconfortos e descansos. Há um espaço da perda de sono que vai de encontro com a solidão.

Mais um exemplo de ausência vista no trabalho de Kuitca é a obra Del 1 al 30.000, (Do 1 ao 30.000), de 1980 – a mais antiga exposta na Pinacoteca, na qual o artista escreveu os números de 1 a 30.000 numa citação aos 30.000 desaparecidos na ditadura argentina na década de 60. Novamente, a constante presença de formas, nuances e sugestões de fantasmas e espectros se tornam presentes nos últimos 35 anos de carreira de Guillermo.

Analisando as obras por uma ponto de vista de angulação, posicionamento e espaço, certas pinturas se alteram radicalmente, dependendo de onde o espectador está localizado, como no caso da Del 1 a 30.000. Um olhar mais distante pode traduzir massas abstratas de tinta. Porém, ao chegarmos mais perto da obra, notamos que, na realidade, trata-se de uma série de pequeníssimos números desenhados pacientemente, mas lidos como volumes de longe. O mesmo acontece nas obras entituladas de L’Encyclopédie (A Enciclopédia), de 2010 e em Poema pedagógico II, de 1996 – de longe uma pintura abstrata e, de perto, carteiras de escola.

A noção de espaço e de leitura das pinturas, que, se aproximadas aos olhos podem ser vistas de uma forma, e, se distanciadas deles são visualizadas de outra maneira, possuem relação com o trabalho impressionista do pintor francês Claude Monet. Se de longe vemos os famosos jardins aquáticos do pintor, de perto, eles se tornam borrões de pinceladas largas, intensas, abstratas; borrões que se condensam quando o espectador se afasta.

Esses esquemas de espaços, que se transformam sob o olhar do espectador, trazem um efeito equalizante e tranquilizador. Há a libertação de representações pictóricas, ilusões difíceis de serem elucidadas ou analisadas, mas somente sentidas.

Nota-se uma substituição de leituras e de imagens explicadas por um “saber visual” – presente na memória do espectador de forma inconsciente, mas presente – e vinculado a diferentes noções de imagens semelhantes ou comparativas com outras obras e autores. A noção de distanciamento e de proximidade, aqui, só nos é permitida pelo o que a nossa mente nos deixa perceber.

Para Alan Pauls, no texto Potência do óbvio, presente no livro Guillermo Kuitca: Filosofia para princesas; obras de 1980 – 2013, da Pinacoteca do Estado de São Paulo, “há uma economia de informações na obra de Kuitca que é vital para entender o seu trabalho: as plantas arquitetônicas e mapas de assentos falam sobre a família e o grupo de pessoas que não habitam estes espaços, além de modos de vida e costumes próprios. O lugar-comum visto nos temas de suas pinturas é econômico e paradoxal, um ponto de condensação, de difusão, que possui inespecifidades, mas ao mesmo tempo é pontual e expansivo, conciso e vago. Para Guillermo, ‘sabemos tudo dessa família. Precisamente por não saber nada”’.

A arquitetura e a música, elementos tão importantes para Guillermo, são transformados em linguagens comuns. “Queria que meus quadros funcionassem como uma canção”, dizia o artista sobre a série Siete últimas canciones (Sete últimas canções), de 1986. “Uma canção é uma estrutura quase perfeita. É um bloqueio breve de tempo com uma rara peculiaridade: não sabemos nada dela, não conhecemos a sua história, não temos uma noção precisa do que conta a sua letra, não entendemos sequer o idioma em que é cantada. E, no entanto, pinçamos uma palavra ou outra, e por algum motivo pensamos que essa experiência é completa”.

Portanto, a canção como lugar-comum é estritamente a inversão de proporções: um objeto do qual desconhecemos tudo, e que produz em nós o efeito de uma experiência total e/ou plena.

O trabalho de Kuitca representa, além disso, uma similaridade com uma Enciclopédia, que procura catalogar, etiquetar e identificar cada parte de um delírio geográfico, na tentativa de nomear o mundo e reduzi-lo a mapas.

Se a pintura tem possibilidades e contemplações no mundo das sensações, é a de aguçar as diferenças entre o que conhecemos e ignoramos, entre saber tudo e não saber nada, entre desconhecer tudo e experimentar tudo, o que pode torná-la cada vez mais real e válida – até para o bem da sua democratização e de discussões no processo de sua produção perante artista e público.

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