Série continua afiada no seu conteúdo político, mas é chegada a hora de uma revolução na narrativa

Por Társio Abranches
Colaboração para a Revista O Grito!

De todos os arcos de Ex Machina lançados até agora no Brasil, Fumaça e Fogo é o que o prefeito super-herói enfrenta menos problemas, mas é o momento em que ele parece atingir o seu limite. Ao comentar na imprensa que já teria fumado maconha em tempos de faculdade, Hundred dá início a um novo escândalo. Para piorar, uma mulher se incendeia na sua frente na escadaria da prefeitura e as investigações revelam que ela é mãe de Cleveland Severtson, um homem preso pela Grande Máquina por traficar maconha. Isso complementa a trama política, onde um homem vestido de bombeiro e com uma tara sexual por máquinas passa a amedrontar os nova-iorquinos.

O interessante da história é como ela representa a dificuldade de tratar questões polêmicas na sociedade sem ser demasiadamente moralista. Nós bem conhecemos essa dificuldade, como foi visto nessas últimas eleições com a questão sobre o aborto e da religião. Na série, a maioria dos aliados do prefeito, até os que apóiam mudanças nas leis antidrogas, aconselha Hundred a se afastar da discussão e deslocar os seus esforços para outras áreas. É notável um quadrinho da indústria norte-americana tratar desse tema sob diferentes pontos de vista sobre o consumo da maconha.

O arco Fumaça e Fogo também introduz a personagem January Moore, nova estagiária e substituta da falecida Journal, sua irmã. Ela é praticamente igual à irmã, só que com o cabelo mais curto. O mesmo ar irônico, os mesmos ideais e o mesmo desembaraço em demonstrar opiniões na frente de superiores. A única diferença é que January parece guardar certo rancor do prefeito e servir como uma espiã. Provavelmente terá grande importância na derrocada do mandato de Mitchell nos próximos números.

Outra personagem que recebe algum destaque, no final, é Rick Bradbury, o fiel guarda-costas. É um capítulo à parte, onde um matador profissional com pinta de alemão ameaça Bradbury com uma arma, alegando que seus empregadores pretendem alcançar o prefeito Hundred através dele. Entre uma fala e outra são mostrados flashbacks da vida de Bradbury, desde sua infância solitária até o momento em que promete ajudar Hundred a se tornar prefeito. Vemos que Bradbury é um cara bastante abandonado e desprotegido, ao mesmo tempo esperto e bastante dedicado a defender o seu chefe, custe o que custar.

Em geral, é uma boa edição, mas não tão boa quanto as anteriores. Por mais que o drama político seja o diferencial de Ex-Machina, seria legal mostrar mais sobre a origem dos poderes da Grande Máquina e desvendar alguns mistérios, mesmo que seja para criar mais dúvidas. É hora de uma reviravolta. Mitchell está à beira de um colapso, chegou até mesmo a perder o controle dos poderes uma hora. Seria chato ver no próximo arco só mais um escândalo e outro assassinato. Para uma série se tornar excelente, precisa quebrar algumas das próprias regras e permitir novos avanços na narrativa.

EX-MACHINA VOL. 5 – FUMAÇA E FOGO
Brian K. Vaughan (texto) e Tony Harris (arte)
[Panini Comics, 132 págs, R$16,90]

NOTA: 7,0

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