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TOM WOLFE, O SEM PIEDADE
Escritor lança livro indicado por Bush a vários amigos e chega ao Brasil semana que vem
Por Rêmulo Caminha

O Rio de Janeiro vai receber Tom Wolfe na próxima quinta-feira. Convidado para a conferência de abertura da Bienal do Livro na cidade, o autor desembarca no Brasil para também lançar seu mais novo trabalho. Trata-se do título Eu sou Charlotte Simmons da editora Rocco.

Observador atento da conjuntura política, econômica e social americana, Wolfe faz da sua origem um objeto de sátira. Ele descreve o ambiente universitário dos ianques. Tudo é relatado e, por fim, delatado. Festas, traições e drogas permeiam o tão lisonjeiro e fecundo ambiente científico da América.

Sem muita pompa, ele escreve para George W. Bush, que já confessou ser assíduo leitor de Tom. Ao perceber tamanho apreço pela obra, não negou se sentir orgulhoso e arriscou seguir na contramão da intelectualidade de Washington, que refuta qualquer idéia ou gosto oriundos do republicano.

Além de protagonizar polêmicas, o autor foi responsável pelo incremento do jornalismo literário nas conturbadas reuniões de pauta dos jornais americanos. Em vez de apurar um homicídio e escrever sobre o fato, propôs conotá-lo, figurá-lo, metaforizando termos e embriagando o leitor que se deixasse levar pelas sutis rimas ou referências afáveis a Flaubert, Zola ou Dostoiévski.

Responsável desde a prática até a teoria da corrente, Wolfe incendiou as redações americanas com a proposta de levar a literatura às manchentes. Em 1960, seu empenho era se debruçar sobre algum texto e dar ao leitor não mais um texto industrial, condensado e impessoal. Tom desejava somente ousar e desbancar o pedestal da imparcialidade, que custou ao jornalismo uma produção em série, burocrática e, acima de tudo, penosa para quem consome e produz.

Hoje em dia, o peso do termo “News Journalism” é algo semelhante como o da bossa nova. Os seus donos carregam em si o ideal seguido por milhares de jornalistas no mundo inteiro. Na época, tudo era moda. Uma contravenção ao mundo pós-industrial, das notícias inebriantes da televisão que percorriam o mundo inteiro num flash ao vivo.

Opondo-se, ousando e inovando, Tom propôs somente resgatar o tom melódico, até aristocrático e prepotente dos cafés de antigamente onde se exibiam, além das ideologias, a capacidade de compreender o mundo através do saber.

EU SOU CHARLOTTE SIMMONS
Tom Wolfe
[Rocco, 684 págs, R$ 65]

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