DYLAN, MULTIFACETADO E AO SABOR DO VENTO
Todd Haynes faz uma ousada biografia de Bob Dylan , mas é Cate Blanchett que sustenta o filme
Por Rafael Dias

Ícone cult do folk-rock e o mais pop dos beatniks, Bob Dylan vem sendo esmiuçado à exaustão agora nos anos 2000, quando completa seis décadas de vida em plena atividade. Exemplo disso são o documentário No Direction Home, de 2005, dirigido por Martin Scorsese, e o livro Dylan: a Biografia, de Howard Sounes, que se destacam pelo didatismo em tentar desvendar o mito. Avesso a tudo o que já foi feito até agora, Todd Haynes preferiu lançar um petardo a seu modo. Eu Não Estou Lá, última cinebiografia do cantor, foge de todas as convenções. Fragmentado e livre, o filme compõe um Dylan multifacetado e emblematicamente poético. Seria uma obra-prima, fiel à iconoclastia e ao sentimento de liberdade dos anos 1960. Mas, por um pequeno e decisivo detalhe, tropeça no próprio afã de ousar.

O argumento do filme, ninguém lhe tira este mérito, é muito engenhoso. De maneira perspicaz, Haynes saiu pela tangente do convencional, repartindo Dylan em seis pedaços, ou seis personagens diferentes que já tenha “encarnado” ao longo da vida ou fizeram parte dela, para estruturar uma cinebiografia totalmente inovadora e com um tom aberto e carinhosamente afetivo. Para isso, escalou um elenco repleto de nomes credenciados por Hollywood, como Cate Blanchett, Heath Ledger, Julianne Moore, Christian Bale, Richard Gere etc, que montam, como um quebra-cabeças, a vida do cantor, fazendo referências elegíacas a Woody Guthrie, sua principal influência no folk; Billy The Kid, Jack Rollins, entre outros, em um painel rico de emulações e intertextos. A receita do bolo, até aí, está perfeita. Ah, falta pôr a cereja: a aprovação inconteste do próprio Dylan para o roteiro assinado por Haynes em parceria com Oren Moverman.

A falha está justamente na narrativa do filme, naquilo que propõe ser revolucionário. De uma forma geral, Eu Não Estou Lá obedece (ou desobedece) a um fluxo sem um ponto convergente definido. Ou seja, o enredo encarece de um foco, um fio condutor que ligue uma cena à outra. Até para os fãs antigos, com estoque mais embasado acerca da biografia do intérprete, é difícil fazer as conexões e acompanhar a trip. Muito menos, claro, para os neófitos, o que só reduz o raio de amplitude da obra em tocar um número maior de pessoas. Apesar da idiossincrasia, Haynes é generoso ao captar a aura rebelde, o clamor de uma geração inconformada com o consumismo desenfreado e a agitação da poesia beat no efervescente cenário de Greenwich Village, reduto de intelectuais e outsiders na Nova York sessentista.


Cate Blanchett como Dylan: a repercussão de sua atuação conduziu o sucesso do filme

A alma do filme, no entanto, está nas mãos (e na peruca indisfarçável) de Cate Blanchett, que encarna Dylan, sob o heteronômio de Jude Quinn, em sua fase mais auspiciosa e fértil, prestes a revolucionar o folk e o rock mundial. Graças a sua atuação comedida e brilhante, o filme ganha fôlego da metade para o final, com vários momentos enfadonhos pelo ritmo arrastado. Sem Blanchett, a obra não teria “cara” nem “corpo”. Ela perdeu a estatueta de melhor atriz coadjuvante do Oscar, à qual era franca favorita, para a “estranha” Tilda Swinton; uma injustiça a mais para o rol de erros da Academia. Mas isso não lhe tira o peso por esse papel. Ademais, sabe-se que essa categoria “coadjuvante” existe não para premiar os melhores, mas sim aqueles que cumprem o melhor papel de prestar suporte a um protagonista.

A trilha sonora de Eu Não Estou Lá também vale pela ida ao cinema. Em vez de fuçar o baú do cantor, Haynes encomendou a colaboração de artistas de renome da cena indie, neo folk e surf, como Sonic Youth e Jack Johnson. Apenas uma canção não é cover, a que empresta o título ao filme, faixa original de 1967, raríssima por sinal. O público, se estiver mais atento, pode ainda se deliciar com citações cult a figuras do universo literário e musical da época, como o poeta Allen Ginsberg, o romancista Norman Mailer e aos Beatles (este numa hilária cena com Blanchett). Haynes pode não ter acertado em cheio neste filme, mas ele está em casa: por duas vezes, adentrou na seara musical, em Velvet Goldmine e Superstar: The Karen Carpenter Story. Pode pecar por ter um estilo solto até demais, ele tem esse direito. É audaz, no entanto, ao reinventar o mito Dylan.

EU NÃO ESTOU LÁ
Todd Haynes
[I’m not there, EUA/Alemanha, 2007]

NOTA: 8,0

Clipe do filme

Trailerdo filme

– Show quoted text –

Sem mais artigos