BOM PRATO
Comida, sexo e poder dividem espaço em apimentado causo rodrigueano
Por Eduardo Carli

ESTÔMAGO
Marcos Jorge
[Estômago, BRA, ITA, 2007]

Pode parecer bizarro, mas os temas culinários (!) vem dominando as telonas ultimamente, em filmes do mais pop ao mais cult: do simpaticíssimo ratinho gourmet de Rataouille, a divertida animação Pixar/Disney, à família de imigrantes que cria um restaurante dentro de um navio em O Segredo do Grão, ótimo drama francês, as narrativas que orbitam ao redor da comida têm se multiplicado – na maior parte das vezes agradando aos mais diversos paladares. O cinema nacional segue a moda com esta apimentada comédia Estômago, um causo politicamente incorreto e bem engraçado sobre poder, sexo e comida.

O filme vem faturando importantes prêmios no circuito de festivais por aí. No Festival do Rio 2007, levou pra casa grande parte das maiores honrarias da noite: Melhor Filme (Escolha do Público), Prêmio Especial do Júri, Melhor Diretor e Melhor Ator (para João Miguel). A produção italiana-brasileira contou com a direção do estreante em longas-metragem Marcos Jorge, cineasta que estudou na Itália nos anos 90 e já possui um currículo respeitável em curtas metragens, filmes publicitários e video-instalações – e agora surge como uma das promessas do cinema nacional para os próximos anos.

A receita para se produzir um prato de tanto sabor? Muita irreverência, atuações genuínas e todo um cuidado para tornar essa história aparente culinária numa metáfora de algo maior. Pois em “Estômago” o dom culinário do protagonsita Raimundo Nonato acaba se tornando uma ferramenta de poder e de ascensão social: o fato de que ele cozinha bem é o que possibilita que este um pé-rapado, sem um puto no bolso e sem um barraco onde cair morto, consiga subir na vida como um foguete.

Se nosso “herói” começa o filme em estado de quase mendicância, sendo apenas mais um migrante pobre que foi procurar o pote de ouro na cidade-grande, depois de ter seu talento descoberto sua vida subitamente se transforma: dinheiro, status e até um caso de amor cruzam seu caminho. Um verdadeiro gourmet da classe operária nasce para a glória.

A narrativa se divide inteligentemente em dois momentos: dentro e fora da prisão. O espectador não sabe ao certo como é que o cozinheiro acabou indo em cana, ele que parece tão simpático e bom-moço, mas os acontecimentos no mundão e no mundinho correm paralelos apresentando muitas semelhanças. O cozinheiro, seja no presídio ou “em liberdade”, vê-se sempre rodeado por um sistema social baseado no teorema “os peixinhos grandes comem os peixinhos pequenos”. E por isso ele usa e abusa de sua capacidade de encantar os paladares para tirar vantagem e escalar os degraus na hierarquia. Um cozinheiro tipicamente brasileiro, como se vê, que não se contenta em encantar os degustadores com seus pratos, mas quer com isso ganhar os privilégios sociais que a vida lhe negou.

Por isso talvez dê pra dizer que este é um personagem que encarna uma ambição comum a tantos brasileiros: a de conseguir, num passe de mágica, sair do anonimato direto para o estrelato. Não deve ser por mera sacanagem que se diz que o povo do Brasil não é lá muito adepto do trabalho duro: nos sonhos acordados que sonham as multidões, não é raro encontrar fantasias de súbita transformação de status social através da varinha de condão de algum dom esportivo ou artístico, por exemplo. Quantos milhares de garotos espalhados pelas favelas e periferias do país sonham em se tornaram os novos Pelés e Robinhos, que de uma hora para outra passam a encantar a nação, vendo sua a conta bancária multiplicada por 100 do dia para o noite? “Estômago” é, portanto, uma história tipicamente brasileira – hilária ao mesmo tempo que tragi-cômica – que mostra de que meios estranhos as pessoas podem se valer na luta por poder e pelo gostinho de finalmente sair das sarjetas. Seria mais ou menos assim que sairia um “A Vida Como Ela É” de temática culinária, se Nelson Rodrigues tivesse vivido para escrevê-la.

NOTA: 8.0

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