“EU DEIXO ISSO INTEIRAMENTE EM SUAS MÃOS”
Eu não fazia a mínima ideia de como a minha vida estava pra mudar quando chegou às minhas mãos aquele exemplar de Watchmen
Por Delfin, especial para O Grito!

Era um dia de março de 1989. Eu estava no meu primeiro emprego, como estagiário e ajudante de laboratório da Faculdade de Engenharia Elétrica da Unicamp. Eu não era bom, era irresponsável e, na verdade, era um trabalho verdadeiramente chato. Descobri algumas coisas nesse emprego: o que eu não queria fazer na vida, o que não gostava de fazer e, por oposição, também o que gostava e o que queria.

Naquela época, eu tinha voltado havia pouco tempo a ler quadrinhos de heróis. Eu nunca tinha sido um fã. Quando criança, meu pai me comprava os gibis Marvel e King Features da RGE. Nunca, nunquinha tinha aparecido um Ebal por lá. Talvez por isso eu tenha ficado tão surpreso quando eu cheguei à casa dos meus tios, aos 16 anos, e encontrei um gibi sem capa do Super-Homem, no qual ele estava na nação terrorista do Qurac. Estava lendo sem compromisso até chegar à última história. Lá, encontrei pela primeira vez Cósmico, Noturna e a Legião dos Super-Heróis. E uma informação que me deixou chocado: Clark Kent nunca tinha sido Superboy.

Como assim? Foi o que eu pensei de chofre. E tudo aquilo que eu vi nos desenhos? E nas séries de tevê? Algo estava errado demais na minha cabeça e, enfim, esse foi o processo que me fez correr atrás da minissérie do Cósmico, que me fez correr atrás de Lendas, que me fez correr atrás de Crise e de todas as revistas DC da Abril e, ainda, tudo o que eu pudesse encontrar da Ebal e da editora americana. Foi um processo que, até aquele dia de março a que me referi, durou menos de seis meses.

Sempre fui uma pessoa que prestou muita atenção à publicidade, mesmo quando eu ainda chamava tudo de comercial ou de anúncio. Em algumas das revistas mais recentes, eu via propagandas de revistas especiais. Uma sobre um Batman mais brutal, como eu jamais imaginara, e outra sobre um tipo diferente de herói, num mundo um pouco diferente do nosso. E também correria atrás desses gibis se, naquele dia do laboratório, ele não tivesse vindo atrás de mim.

O sobrenome do cara era Varjão. Nunca soube direito o que ele fazia por lá. Eu nunca soube direito o que ninguém fazia, essa é a verdade. Eu estava muito perdido e as minhas únicas certezas vinham na hora do almoço, quando eu podia me encostar num canto e ler algum dos gibis que eu levava pra lá diariamente. Daí chegou esse Varjão pra mim e me veio com um papo, mais ou menos assim:

“Cê não sabe que gibi emburrece as pessoas?”

“Eu me alfabetizei lendo gibi, Varjão.”

“Mas isso se para de ler quando se é criança, cara. Se te pegam lendo isso, vão te encher o saco.”

“Que peguem. Tô na minha hora de almoço e eu faço o que eu quiser.”

“Cê gosta mesmo disso?”

“Fazia tempo que eu não lia. Agora descobri que tem muita coisa aqui que eu gosto. Eu sempre quis ser o Lanterna Verde, sabe?”

“Por quê?”

“Ah, ele tem um anel de poder. E o poder dele tá na cabeça. Pensa nisso: é muito foda.”

“Eu ia jogar um gibi no lixo agora. Quer pra você?”

“Que crime jogar no lixo! Tão ruim assim?”

“Eu odiei. Tó.”

E foi assim que chegou às minhas mãos o quarto número da primeira edição de Watchmen. A história tava no meio, mas o que era aquilo? Gibi com textos no meio? Uma história de pirata no meio da história? Heróis que agiam escondido das pessoas e que faziam sexo e eram presos pela polícia? E aquelas cores opressivas! Eu não fazia a mínima ideia de como a minha vida estava pra mudar quando Alan Moore, Dave Gibbons e John Higgins invadiram a minha vida daquele jeito.

Consegui rapidamente todos os outros exemplares e, pouco tempo depois, comecei a minha carreira na área, como jornalista especializado. Conheci algumas pessoas que até hoje são grandes parceiros e amigos, como o Jean Okada e o Ricardo Giassetti. Eu e o Giassetti, aliás, dedicamos um tempo enorme no início dos anos 90 esmiuçando cada detalhe da história, cada simbolismo nos desenhos, cada detalhe de roteiro. Ainda hoje, Watchmen me surpreende a cada releitura. É assim com os clássicos.

A impressionante história de Moore é um grande exemplo de ficção científica, um dos poucos a figurar na seleta lista dos cem melhores romances em língua inglesa do século passado – e também a única história em quadrinhos. Nela, o desdobramento de dois aspectos mudam completamente a história e a cultura humana: o aparecimento real do vigilantismo mascarado, inspirado nos heróis pulp e dos primeiros quadrinhos de heróis, e o surgimento (ainda que acidental) de um verdadeiro super-humano. Nesse aspecto, é uma história brilhante e um dos principais exemplos populares do que hoje se chama ficção especulativa.

Watchmen possui números impressionantes. É um dos poucos títulos de quadrinhos que resistiram mais de vinte anos sem sair do catálogo de uma editora. Suas diversas edições, apenas nos Estados Unidos, chegam aos milhões de exemplares – um feito tanto para a ficção científica como para os quadrinhos. É até hoje o único quadrinho mundial a receber o prêmio Hugo de ficção científica e fantasia, rompendo magistralmente uma barreira conceitual que até hoje impede o reconhecimento, por parte da academia de ficção científica, de outras excelentes séries de arte sequencial.

Pra mim? Eu me sinto um pouco protetor, um pouco justiceiro, quando lembro de Watchmen. Como uma espécie de Seymour, aquele gordinho abobalhado que trabalha no jornal The New Frontiersman, a decisão final ficou totalmente em minhas mãos. Watchmen, no fim, foi a primeira de muitas histórias que consegui salvar de um fim certo. E as consequências disso abalaram todo o meu mundo.

* Delfin é jornalista especializado em quadrinhos e editor da versão brasileira de Os Bastidores de Watchmen (Aleph)

ESPECIAL WATCHMEN
[+] POR GERMANO RABELLO
[+] POR HECTOR LIMA
[+] GALERIA
[+] EXCLUSIVO: QUADRINHISTAS BRASILEIROS REVEEM A OBRA

Sem mais artigos