ATÉ A ÚLTIMA GOTA DE SANGUE
Num mundo onde nem mesmo os vampiros são felizes, ainda precisamos recorrer à literatura gótica de uma Europa decadente para fabular a agonia da civilização ocidental
Por Luíza Lusvargui, articulista da Revista O Grito!, de São Paulo

True Blood, a série da HBO, vem ganhando uma legião de fãs no mundo inteiro e se tornou mania. Crepúsculo, a saga, atrai adolescentes impúberes que fazem filas durante horas nas portas dos cinemas para acompanhar mais um episódio da história romântica de Bella e Edward. Da mesma forma, na década de 1960, as garotinhas desmaiavam para ver as aventuras dos Beatles na telona. Anne Rice, a criadora de Lestat, se tornou uma referência cult do romance gótico moderno associando precisamente vampiros e rock, como se pode ver em seus livros e nos filmes A Rainha dos Condenados e Entrevista com o Vampiro. E, enquanto Crepúsculo apóia seu sucesso na temática de amor adolescente que remete à Romeu e Julieta de Shakespeare, True Blood, seguindo a trilha de Rice, faz do vampirismo uma critica a sociedade consumista americana.

Os personagens que povoam as aventuras da garçonete Sookie Stackhouse, narradas em livros por Charlaine Harris, incluem todo o imaginário erótico de uma civilização que começa na Grécia de Dionísio, bacanais e sacrifícios humanos, para comentar a contemporaneidade asséptica da Aids e o vazio das sex shops. Na história de Harris, os japoneses inventam o sangue sintético e os vampiros aparecem em público para dizer que não são lenda, mas sim seres reais, que agora podem voltar a viver em sociedade sem prejuízo dos humanos. Influentes, assumidos, os vampiros atraem humanos em busca de adrenalina extra para dar novo alento a uma vida que se alonga insossa no paraíso pacelado do cartão de crédito, ultimamente quase sempre bloqueado por falta de pagamento. Desta forma, o impasse entre o progresso da ciência do mundo burguês capitalista e o atraso medieval gótico representado pelas trevas do poder nobiliárquico fica temporariamente resolvido.

Assim, a hipocrisia de um político gay, viciado em sangue de vampiro, a nova droga, vai entrar em cena, bem como os cultos fanáticos de igrejas movidas a discursos hipocritamente moralistas em busca de dinheiro e poder. A fábula pós-moderna de Allan Ball, de Six Feet Under, expõe feridas nunca cicatrizadas, transformando a típica cidadezinha do interior pacata em pesadelo lisérgico, com antropomorfos, lobisomens e telepatas. Nada será como antes, sugere a vinheta em que a Klu Klux Khan surge em cenas de arquivo ao lado de cultos evangélicos negros e strippers ao som de um blues, “Bad Things” do Jace Everett. Animais em decomposição e um batismo n’água, quase um afogamento, surgem mixados na memória de um vídeo caseiro. Fascinada, a garçonete Sookie, que representa os ideais de liberdade da América para todos, vai se apaixonar por um desses monstros, o vampiro bonitão Bill, e, após a morte de sua avó, deixar a cidadezinha de Bon Temps, em Louisiana, rumo a grande cidade, no caso Dallas, para descobrir que vive numa nação em conflito, ameaçada por esses seres que no passado simbolizavam o poder doentio de nobres sanguinários, como Lady Bathory e Vlad.

O primeiro vampiro a aparecer na ficção inglesa parece ter sido mesmo o do conto de Johann Tieck, publicado em 1800, Wake Not the Dead (Não acorde os mortos), mas o gênero só se tornou popular com a publicação de The Vampyre, do Dr. John Polidori, em 1819. O personagem central era lorde Rutven, o vampiro do título, uma caricatura mal disfarçada do grande poeta inglês, lorde Byron, amigo de Percy e Mary Shelley, resultante de um encontro na noite, junto a um lago na Suíça, em que também nasceu o Frankenstein – uma aposta literária entre amigos.

Em 1847, surgiu Varney the Vampire, or the Feast of Blood (Varney, o vampiro, ou o festim de sangue), 800 paginas de referencia ao macabro. Seu autor permaneceu no anonimato. Houve outras histórias publicadas em série, claro. Por exemplo, The Vampire Demon (O demônio vampiro); ou The Martyred Virgins (As virgens martirizadas), de 1849, e muitos contos sobre o tema. Sua escrita foi uma tradição incorporada pela nova literatura americana do novo século. Seus personagens, assim como Lady Bathory, a vampira mais famosa da Europa Central, simbolizavam uma espécie de agonia da aristocracia, encurralada pelo surgimento de novas formas de governar.

A associação entre cinema e vampirismo sempre foi pródiga. O livro Carmilla, de Sheridan Le Fanu (1872), inspirou a obra do cinema mudo, Vampyr, do diretor dinamarquês Carl Dreyer (1932). Mas o mais famoso foi o filme Nosferatu – Uma Sinfonia do Horror (Nosferatu, eine Symphonie des Grauens), de F.W. Murnau, (1922), uma obra-prima do cinema expressionista alemão. Foi baseado em Drácula, de Bram Stoker (1897). refilmada por Werner Herzog, em 1976, com Klaus Kinski. O Nosferatu de Murnau, o conde Orlock, foi considerado como um prenúncio da ascensão do nazi-facismo na Europa, expressão maior da banalização do mal. Drácula representaria a luta da era das trevas – o passado monárquico romântico – diante do progresso introduzido pelas inovações tecnológicas capitalistas.

O Vampiro de Copacabana era apenas um marido infiel, interpretado por André Valli, que saia fantasiado pelo carnaval carioca em busca de aventuras extraconjugais. O Nosferatu de Ivan Cardoso, com Torquato Neto, alimentava-se de referências ligadas ao cinema mudo, o primeiro a esboçar em imagens o culto a essas criaturas satânicas, os vampiros. Será que é mesmo necessário recorrer à literatura gótica de uma Europa decadente para fabular a agonia da civilização ocidental? O sangue derramado em guerras como a do Iraque, ou ainda na guerra civil que travamos diariamente nas grandes cidades brasileiras, não seria suficiente? Bem, a julgar pelo êxito de True Blood e Crepúsculo, não. Num mundo onde podemos deixar de existir em segundos, atropelados por algum turbilhão cósmico, e em que a fome continua a existir de forma endêmica, apesar dos avanços da medicina, nem mesmo os vampiros são felizes. E pelo visto, não vamos nos livrar deles tão cedo. Mortos-vivos, eles ainda estão entre nós.

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Luisa Lusvarghi é escritora, jornalista e doutora em Comunicação pela ECA-USP.

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