O CU REFILMADO
As novas liberdades e conquistas no campo da sexualidade e da aceitação das relações homoafetivas darão um novo status a esta parte do corpo tão estigmatizada

Por Biu da Silva
Especial para Revista O Grito!

Este buraquinho apertado por onde saem os excrementos dos seres humanos é um tabu cultural. Enquanto olhos, boca, mãos, seios e até mesmo pênis e vagina podem ser retratados, pintados, filmados, cantados em prosa e verso, o cu e as atividades em torno dele ainda são motivo de censura. O fato de expelir os restos dos alimentos em forma de uma pasta mal cheirosa o coloca num patamar de desprestígio injusto. Como elemento da nossa constituição biológica, o esfíncter anal é tão importante quanto o seu oposto: a boca, considerada nobre por suas qualidades gustativas e expressivas. Mas, é bom lembrar que sem um local de saída do que se ingere a vida humana seria bem complicada. Logo o cu, lá embaixo, escondido no meio da bunda e com seu odor e formato peculiar, não pode ser estigmatizado. Sobretudo agora que, pouco a pouco, além de sua função biológica principal, ele vem sendo alçado também à condição de órgão sexual, finalidade reconhecida, mesmo pelos mais dignos tribunais que, em diversos países pelo mundo afora, estão encarregados em definir o que é e o que não é permitido.
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Especial: O [*] Reconfigurado nas artes plásticas

Bom, contudo é preciso dizer que o uso do cu além do trivial papel de expelidor de cocô é uma prática que se perde na poeira do tempo. Mesmo nas civilizações mais antigas e primitivas destinar o fiofó para brincadeiras sexuais já era algo comum, embora, claro, tais atividades praticadas por homens ou mulheres tenham sido sempre alvo de proibições, castigos e censura. Muita gente pagou caro – prisão, excomunhão religiosa, castigos corporais medonhos e até forca e fogueira – por querer fazer do seu orifício anal (ou de outrem) objeto de prazer. Mesmo nos dias de hoje, em pleno século 21, em muitos lugares as penas continuam severas para quem em vez de realizar o ato sexual por meio do tradicional papai e mamãe inventa em usar o cu para dar e sentir gozo.

Os sodomitas, designação atribuída a estes indivíduos que se servem do cu para se divertirem, até mesmo em sociedades liberadas e modernas, nem sempre podem chegar por aí dizendo naturalmente serem adeptos da prática. Escritores libertinos como o Marquês de Sade, o poeta italiano Aretino, o português Bocage, entre outros, que, no passado, falaram do cu com naturalidade, embora sejam reconhecidos pelo valor literário de seus escritos, com certeza ainda provocam rubores em mentes pudicas. O mesmo é válido para imagens como a célebre foto do fotógrafo norte-americano Robert Mapplethorpe enfiando o punho do chicote no seu próprio ânus. No teatro, idem. Aqui no Brasil o único que fala e mostra o cu para todo mundo sem qualquer melindre, por exemplo, é o ator e encenador José Celso Martinez Correia (foto ao lado) do Uzyna Uzona (Oficina), inclusive nos exercícios que realiza com seu elenco, um deles é exatamente uma “dilatação da bolsa anal” cuja finalidade é permitir ao aprendiz de ator soltar pum ou fazer cocô em cena quando bem entender.

No cinema o assunto também é tema controverso e delicado. Com exceção dos filmes pornográficos heterossexuais ou gays que mostram os limites do cu sendo rompidos sem cerimônia para apimentar suas imagens, na tela mainstream é bem mais difícil a sodomia ser apresentada sem recato. Nos anos 1970 o mundo ficou chocado quando o cineasta italiano
Bernardo Bertolucci, em O Último Tango em Paris, dedica uma cena em que o ator Marlon Brando sugere passar manteiga no pinto para penetrar a jovem anônima com quem ele está se relacionando (a atriz Maria Schneider). Mas é bom lembrar que tudo é apenas insinuado, ou seja, ninguém vê o pênis do ator e muito menos o cu da atriz. Menos recato teve outro italiano, o diretor Pier Paolo Pasolini, ao realizar um dos filmes mais ousados da história do cinema: Saló, ou Os 120 Dias de
Sodoma
, no qual um grupo de pessoas tranca-se num castelo e se entregam a toda sorte de práticas libidinosas e nas orgias que se seguem, os cus dos protagonistas obviamente não são poupados das sevícias empreendidas. É preciso dizer que o filme de Pasolini não é uma obra pornô, mas trata-se de um libelo sócio-político com finalidades bem específicas que vão muito além de provocar o estarrecimento do espectador.

Cena de Querelle, com Brad Davis (Foto: Reprodução)

Outro filme em que temos uma relação anal de significado bem perturbador está em Querelle, de Rainer Werner Fassbinder, inspirado na obra homônima de Jean Genet, sobre um marinheiro que chega ao porto francês de Brest. Em uma das cenas, o marinheiro vivido por Brad Davis submete-se com prazer aos caprichos de um robusto barman. A cena torna a experiência um relato de sensualidade intrigante pela complexa personalidade do protagonista e pelos questionamentos sobre os papeis sexuais que ele convoca no transcorrer da narrativa. Recentemente, tivemos o filme Short Bus, de John Cameron Mitchell, também com cenas de sexo explícito e sexo anal, com isto sendo tratado sem vulgaridade, uma vez que o diretor está mais preocupado em refletir sobre a aceitação dos desejos sem receio de pré-julgamentos. Também podemos citar aqui o filme Madame Satã, de Karim Ainouz, reconstituição da história do famoso malandro carioca negro e homossexual, em que podemos ver uma cena de relação anal, tratada com naturalidade e beleza.

Certamente, com o avanço das conquistas sexuais e do livre direito do uso do corpo, e agora ainda mais com o reconhecimento legal das relações homoafetivas, as condutas envolvendo o uso sexual do cu passam por um processo de reconfiguração e estão sendo pouco a pouco absorvidas, deixando de lado certos julgamentos morais e de interdição para aceitá-las num quadro de normalidade bem mais abrangente. A partir disto, ao menos nestas sociedades, o número de filmes com práticas sexuais envolvendo a penetração anal deverá crescer, pois eles deixam de ser vistos como algo à margem ou panfletos de uma conspiração de pervertidos para trazer à luz algo que sempre se praticou em todas as esferas.

Pessoas conservadoras e grupos religiosos provavelmente vão fazer alarido e espernear contra estes avanços, achando que o mundo vai entrar numa roda viva de permissividade e vícios que vão destruir a ordem e minar a moral das famílias. Quando, na verdade, o que teremos simplesmente é menos hipocrisia nas relações sociais. Se um cineasta deseja fazer um filme sobre o cu, vai assisti-lo quem quer. Se eu acho que isto vai me levar para o fogo do inferno basta então não vê-lo. Recentemente vi um filme do Michael Winterbotton, Nove Canções, sobre um casal heterossexual que se conhece num concerto de rock e passa a viver uma relação intensa. O filme é simples, mas bonito e ousado. Ele tem cenas explícitas de sexo convencional, sexo oral e penetração anal, tudo mostrado com naturalidade e de forma poética. Pois bem. Ao terminar de assisti-lo não me bateu a louca de sair correndo para entregar a tarrasqueta ao primeiro que encontrasse no caminho só porque gostei do filme.

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