NOTAS DO SUBSOLO
Em Moscou, o universo gay é underground, literalmente. Paralelo ao clima intolerante da sociedade, uma nova geração cresce conectada à cultura pop e cria a própria personalidade. Preparado para ouvir dance batidão?

Por Paulo Floro
Enviado especial a Moscou

A fachada numa rua pouco movimentada de Moscou denunciava apenas uma típica construção comum da era soviética. Uma passagem dava acesso a um pátio enorme dividido por vários prédios. Numa das laterais, uma porta pequena, sem inscrição levava a um bunker no subsolo. Um homem alto vestido de preto pede o casaco dos clientes e, sorrindo, tira a última dúvida de que ali naquele lugar tão escondido funciona um animado bar com karaokê. É assim a vida noturna gay na Rússia, onde o termo “underground” é literal, no que isso tem de bom e ruim.

Localizadas em locais pequenos e antes usados como reservatórios ou habitações simples em tempos de invernos rigorosos, os bares frequentados por homossexuais são em grande maioria discretos ao extremo. Os clientes se articulam pela internet e redes sociais. Baza é um bar pequeno. Sua maior característica é abrir aos domingos e fechar já durante o dia, atraindo frequentadores de outras casas. Num pequeno palquinho, o DJ toca apenas música eletrônica russa. Um velho alto e grisalho puxa uma mulher morena e corpulenta para dançar. Regados a vodka com cerveja, eles gritam mais do que a música.

A Rússia em geral parece amar música eletrônica mais comercial, ou dance music como eles chamam. Artistas locais regravam hits na língua do país e dos gringos, apenas algo mais poperô como Rihanna, Britney Spears, David Guetta e Pussycat Dolls fazem sucesso. Anastacia ainda é sucesso por aqui. Ironizados no resto da Europa pelo gosto musical duvidoso, artistas locais acabam restritos ao território russo e países eslavos, o que não é pouco. Já passava das 3h da madrugada quando o DJ toca “I Will Survive” na versão de Yulia Mihalchik, em russo, obviamente. O crescimento dessa cena tem relação com a queda do regime soviético, que permitiu uma invasão do pop ocidental. Alguns empresários que atuavam à revelia do Partido Comunista já produziam bandas e eventos musicais em plena União Soviética.

A abertura também permitiu a chegada de modernos equipamentos de som, antes raríssimos no país, como sintetizadores, baterias eletrônicas e mesas de mixagem. Toda essa conjuntura levou aos russos um hype tardio do som synth-pop que alegrou pistas europeias durante décadas, como Depeche Mode, Madonna e A-Ha. Na metade dos anos 1990, o crescimento da dance music em Moscou e São Petersburgo, as maiores metrópoles da Rússia, refletia bem o descompasso de tendências que iria moldar o mercado fonográfico até os dias atuais. “O dance music, com suas batidas fortes, vocais femininos, com muita influência de techno e trance é a verdadeira música popular russa”, disse o blogueiro Anastasia, que também atua como DJ. “O universo gay acaba fomentando essa cena, ainda que não tenhamos abertura”, opina.

Mesmo com um histórico de liberdade de expressão recente para os padrões ocidentais, a Rússia ainda recebe críticas por seu tratamento aos gays. Todos os anos, a tentativa de fazer a parada gay em Moscou termina em pancadaria. A mais série delas aconteceu em 2007 quando cerca de 20 pessoas foram presas e centenas ficaram feridas num conflito entre nacionalistas e manifestantes da marcha. Ano passado, dezenas de ativistas foram detidos, mas nenhum agressor foi preso. A homossexualidade na Rússia foi descriminalizada em 1993, mas a sociedade ainda permanece intolerante. A dupla TaTu, o último sucesso que os russos conseguiram exportar e que vendia uma suposta relação lésbica sempre comparecem às paradas.

Num país tão grande e que não para de receber imigrantes, a mentalidade do povo mais retrógado começa a entrar em choque com uma elite jovem e enriquecida com capital estrangeiro. A boate Central Station, nascida em Moscou abriu no início deste ano uma filial em São Petersburgo. O lugar impressiona pelo tamanho, mas em se tratando de um entretenimento voltado para o público LGBT, ainda conserva ares clandestinos. Numa noite fria, perto dos 10 graus negativos, um trio de garotos, um deles segurando uma garrafa de vodka e andando como se estivesse desfilando na passarela, desce a rua da estação Novokuznetskaya. Tudo está deserto, com exceção de jovens que andam se entreolhando em direção à porta da boate.

Do lado de fora, dezenas de pessoas passam frio enquanto aguardam uma liberação na entrada. A Central Station institucionaliza o face control, por isso o ver-e-ser-visto faz toda a diferença para poder entrar, assim como um look convincente. Carros passam devagar pelo local e a impressão que dá é que a qualquer momento uma batida levará todos dali. O clima é tenso até a tão aguardada vez na fila chegar. Com quatro andares, a CS, que os russos chamam de Tsentralnaya Stantsya costuma trazer DJs estrangeiros, shows performáticos e exposições. Construída numa antiga fábrica soviética, tem bares e restaurante. Marcas de prestígio como a Absolut, entre outras, costumam derramar dinheiro em um investimento ainda hostilizado pelo país.

Fachada do Propaganda: clube é símbolo do público trendy de Moscou

Pop, camarada
Entre os amantes de música eletrônica em Moscou, uma tribo muito específica costuma bater ponto no Propaganda, um dos bares mais conhecidos da cidade e ligado à cena independente. Apenas um dos dias é dedicado ao público gay, os domingos. Durante o dia, o lugar funciona como um restaurante, todo decorado com motivos da antiga união soviética. À meia-noite, todas as mesas do salão são retiradas para dar lugar à pista de dança. Como é permitido fumar em praticamente qualquer lugar na Rússia, o ambiente fica logo enfumaçado. A lotação é rápida e logo diversas pessoas aguardam do lado de fora no frio para conseguir entrar. Não há face control, mas praticamente ninguém quer sair, e perto de 500 pessoas seguem até de manhã com electro batidão nos ouvidos.

Localizado no Kitay-Gorod, bairro frequentado por estrangeiros jovens, estudantes e alberguistas, o Propaganda aproveita a fama que conquistou no boca a boca de quem vai a Moscou. Sua vizinhança é formada por bares, gays ou não, muitos abertos 24h, como o PIR O.G.N. Longe do trendy, a diversão ao estilo kitschy russo é encontrado em bares menores. Um deles, o Dary Moria, remonta aos tempos soviéticos e se auto-proclama como o mais antigo. Frequentadores antigos lembram que se encontravam aqui ilegalmente, usando a palavra “fishes” (peixes) para se referir ao local e a si mesmos. Por isso, em inglês o nome da casa é conhecido como Gifts of the Sea (presentes do mar). Outro muito conhecido, o Samovolka fechou recentemente. Como as informações da cena ainda são passadas de forma discreta, muitos ainda chegam a procurar por ele. O nome é uma expressão em russo que significa “ausência não autorizada do quartel”. Criado em 2001, se tornou popular, mas pelas referências militares, sempre foi malquisto pela cidade.

Invasão do oeste
Shows do mundo ocidental começam a invadir a Rússia tão logo o inverno rigoroso começa a ficar ameno. Em um passeio pelos arredores da Praça Vermelha era possível ver cartazes anunciando shows de bandas indies como o Interpol. Esses grupos possuem um público específico e os shows acontecem geralmente em locais pequenos, ou em clubes de dance music. O mercado de entretenimento ainda é recente no país e o que se vê nas ruas é uma explosão de cultura pop, a começar pela quantidade de revistas importadas e suas franquias, entre elas a Esquire, Rolling Stone, Vogue, entre outras. Economia emergente, o país ainda inspira mistério e a população ainda conserva uma personalidade fechada. Em Moscou, é muito difícil encontrar alguém que fale inglês. É curioso descobrir um país tão diferente do que estamos acostumados a ver, e perceber o quanto ele pode ser pop e familiar.

Alguns hits na Rússia que conferimos na reportagem

Via GRA (sim, existe uma banda chamada assim, um dos maiores sucessos nas rádios). E o nome da banda tem, de fato, relação com o nome do remédio. Mas, também faz um trocadilho com uma palavra em ucraniano que significa “jogos vocais”. A banda é formada por bonitas garotas do país vizinho Ucrânia.

Ёлка (pronuncia-se Yuka)

Equivalente das cantoras pop de porte grande, ganhou muito destaque com clipes superproduzidos.

Слава (Tsláva)

http://www.youtube.com/watch?v=xqaNsOliHkg&feature=relmfu

Aposta numa atitude mais rocker, mas é puro dance batidão para todos cantarem na boate.

Потап и Настя (Potap e Nastya)

http://www.youtube.com/watch?v=WdVT0EWBtW8

Dupla esquisita exótica que aposta nas tradições russas misturado com música eletrônica.

Sem mais artigos