Carlos Saura durante exibição de seu filme Peppermint Frappé

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CANNES 68: O CHOQUE DE MAIO
Considerado por jovens cineastas representante do conservadorismo, o Festival de Cannes não passou incólume às revoluções do período
Por Alexandre Figueirôa, colunista do O Grito!

Os anos 60 foram efervescentes sob diversos aspectos, e o cinema, como era de se esperar, refletiu as grandes mudanças da sociedade registradas no período. O Festival de Cannes também não escapou da onda de renovação e contestação que se espalhou pelos quatro cantos do planeta. Mas, 1968 foi, sem dúvida, o ano chave desse processo de transformação. E o maior evento cinematográfico do mundo viu o glamour e o desfile de astros e estrelas, no Palácio do Festival e na Croisette, ser rapidamente substituído pela contestação e pelo debate político.

Na verdade, o estado de tensão no cinema francês já estava acionado desde fevereiro, quando o então ministro da Cultura, o escritor André Malraux havia afastado, por razões políticas, Henri Langlois da direção da Cinemateca Francesa. O episódio, mobilizou cineastas, críticos e transformou a redação da revista Cahiers du Cinema no quartel-general de resistência. Depois de inúmeros manifestos e passeatas, Malraux recuou, e Langlois, no início de maio, foi reconduzido ao cargo. Entretanto, a paixão política havia contagiado todos os envolvidos no acontecimento.

Quando os estudantes da Sorbonne foram às ruas, o clima de protesto se espalhou, e a partir de 17 de maio, na Escola de Fotografia e de Cinema, localizada na rua de Vaugirard, em Paris, se instalou o “Estado Geral do Cinema Francês”, com cerca de mil e quinhentos profissionais e estudantes se encontrando regularmente, durante quinze dias, para discutirem e trabalharem em comissões, apresentando projetos de transformação e de renovação do cinema. Uma espécie de revolução dentro do cinema francês estava em gestação e os jovens cineastas não deixavam de encarar o Festival de Cannes como um representante do conservadorismo.

A 21ª edição do festival começou, portanto, com nuvens de tormenta no horizonte. Alguns participantes exigiam que o evento fosse suspenso e, para completar, sindicatos e grevistas da Côte d’Azur e redondezas, utilizaram o impacto midiático do festival para desfilar suas reivindicações. No dia 18 de maio, a bagunça tomou conta da sala de exibição. O então diretor do festival, Robert Favre le Bret, ainda tentou contornar a situação, invocando o caráter internacional da competição e afirmando a falta de cortesia da França com as delegações estrangeiras, pleiteando, ao menos, que os 28 filmes concorrentes, fossem exibidos.

Mas, as palavras moderadoras de le Bret não foram acatadas. Quando a sessão do filme Peppermint Frappé começou, logo depois, o cineasta Jean-Luc Godard e outros manifestantes subiram ao palco, a cortina foi fechada, e as luzes se acenderam, com o próprio diretor, Carlos Saura, e sua companheira e atriz Geraldine Chaplin, resolvendo impedir a continuação da projeção. A sessão foi, então, anulada e os rebeldes se fecharam na sala Jean Cocteau, e deram início a uma maratona de debates liderada por Claude Lelouch, a quem se juntou nomes como François Truffaut, Godard, entre outros. Na ocasião, Truffaut leu uma moção adotada no dia anterior na escola da rua de Vaugirard e o diretor tcheco Milos Forman, que havia apresentado seu filme O Baile dos Bombeiros, também no dia anterior, anunciou que retirava sua obra da competição.

A partir dali a confusão se instalou e o quadro se complicou com quatro integrantes do júri oficial se demitindo – Louis Malle, Roman Polanski, Mônica Vitti e Terence Young – e se engajando nas discussões. Para o diretor do festival não restou alternativa, e, em nome do conselho de administração do festival, optou-se pela suspensão do evento.

Quem estava presente aos acontecimentos daquele ano em Cannes, ficou a impressão que aquela seria a última edição do festival. Mas, como aconteceu em outros setores da vida social e política, Cannes soube deglutir a rebelião e, na edição de 1969, ela reapareceu não em tumultos, e sim na tela, sob a forma de filmes com temáticas políticas retratando operários e camponeses em luta, ou refletindo as mudanças de comportamento produzidas pelos movimentos libertários, entre os quais Z, de Costa-Gavras, If, de Lindsay Andersen (ganhador da Palma de Ouro), O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (prêmio de direção), e Easy Rider, de Dennis Hopper.

Foi também a partir dos acontecimentos de maio de 68, que a Sociedade de Realizadores de Filmes, decidiu fundar a Quinzena dos Realizadores, cuja primeira edição se deu em 1969. A iniciativa tinha um caráter de contra-festival, e promulgava uma certa liberdade de escolha das obras selecionadas e privilegiava, sobretudo, jovens cineastas. No seu primeiro ano foi a Quinzena quem levou a Cannes, filmes de Bernardo Bertolucci, Philippe Garrel, Nagisa Oshima, Roger Corman e André Téchiné. Todavia, embora tenha surgido com um certo espírito contestatório, ela acabou, com o passar dos anos, se moldando ao evento, e hoje é, sem dúvida, reconhecida pela própria direção do festival, junto com a Semana da Crítica (iniciada em 1962), como um espaço onde emergem jovens talentos e novas correntes estéticas e que contribuíram para tornar Cannes uma lenda no mundo do cinema.

Diretores, entre eles Godard e Truffaut, discutem em 1968, em Cannes
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