É dessa que eu gosto
Efervescência da música paraense contemporânea ultrapassa limites regionais

Por Iara Lima

O título da reportagem faz referência a um verso de “Legal e Ilegal”, canção do primeiro álbum de Felipe Cordeiro intitulado Kitsch Pop Cult e no qual ele consegue mesclar guitarrada, fazer alusão ao ritmo marabaixo (original do Amapá), introduzir Drum’n Bass, toques de samba e soar como algo que lembre Karnak. Difícil? Não, a mistura é mais do que palatável. Essa é a nova cara da cena paraense, que será apresentada por Felipe com show no Abril pro Rock, no Recife, na noite de sexta-feira (25).

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“Belém está para a música hoje assim como Recife esteve nos anos 90 com o Manguebeat”, arrisca Leo Barbalho, músico, arranjador e compositor por trás dos teclados da banda da cantora Pernambuco-paulistana Lulina. Coincidentemente, Lulina se apresentou na segunda-feira de Carnaval deste ano no Rec Beat, mesmo dia do show do paraense Manoel Cordeiro e os Desumanos, banda que foge a quaisquer rótulos, mas que possui o DNA da famosa envergadura caribenha da guitarrada típica do Norte do país.

O que acontece com os Desumanos é um bom retrato do apelo pop e da aura mítica da qual foi investida a atual cena paraense. Além do próprio Manoel Cordeiro, os Desumanos é composta por seu filho Felipe Cordeiro (teclados), pelo baterista francês Stephane San Juan (que já gravou com Thiago Pethit e Tulipa Ruiz); pelo produtor carioca Kassin no baixo (que assina álbuns de Caetano Veloso), e Liminha, ex-Mutantes e produtor de artistas como Erasmo Carlos, Gabriel O Pensador, Chico Science e Cidade Negra, na guitarra base.

Belém está para a música hoje como Recife esteve nos anos 90 com o Manguebeat, diz Leo Barbalho

“Talvez o motivo pelo qual as pessoas tendem a comparar a cena manguebeat à música contemporânea do Pará é que há 20 anos Pernambuco conseguiu deslocar um pouco do eixo musical que existia àquela época”, pondera Felipe Cordeiro, que salienta que há outros estados onde a música precisa ser ‘reconhecida’, evitando ao máximo a palavra ‘descoberta’. Apenas para se falar em Rec-Beat, o festival já serviu de palco para o próprio Felipe Cordeiro, Gaby Amarantos, Metaleiras da Amazônia, Carimbó Uirapuru, La Pupuña e Mestre Vieira, entre outros. Todos Made in Pará.

Sonoridade que foge a quaisquer rótulos, a música contemporânea paraense se apresenta sob os mais diversos formatos. Duvida? Pois foi no Pará que surgiu a primeira banda de metal a registrar um disco, a Stress, ainda nos anos de 1982. Historicamente, entretanto, a música paraense já fervilhava muito antes da nova safra. Que o digam os sucessos de Pinduca na década de 1970 ou de Alípio Martins, imortalizado em canções como “Onde Andará você”, “Eu quero gozar” ou “Piranha”.

Uma das vertentes utilizadas para explicar a sonoridade típica do estado, por exemplo, viria do fato de que a comunicação fluvial com os países fronteiriços sempre teria sido mais fácil do que a terrestre feita com o restante do país. Daí viriam as influências caribenhas tão presentes na guitarrada. Além do já citado Pinduca, fazem parte do universo musical da terra nomes como os mestres Vieira e Curica, além de mestre Cupijó.

Além da Guitarrada, também fazem parte deste universo multicultural e do intrincado xadrez musical paraense sonoridades como Carimbó, Siriá, Lundu, Brega (e tecnobrega) e Lambada. Na cena atual, entretanto, não há divisões ou bandeiras. O Duo Strobo, por exemplo, alia o talento dos virtuosos integrantes ao rock e à música eletrônica. Dona Onete faz um carimbo chamegado. Artistas como Luê, Aíla e Lia Sophia não renegam as origens do brega. O guitarrista Pio Lobato, ex-integrante da banda Cravo Carbono por sua vez, não só resgatou os nomes virtuosos da Guitarrada como é queridinho de figuras do mainstream como o baiano Lucas Santtana, que compôs “Recado ao Pio Lobato” e do pernambucano Lúcio Maia, que assina “Recado ao Pio extensivo ao Lucas”, no disco Mundialmente Anônimo.

E em épocas de globalização os ventos que sopram do Pará trazem boas novas com a realização de festivais como o Se Rasgum (hoje o maior da Região Norte e considerado um dos melhores do país) e com o apoio estatal do Governo do Estado não apenas através de leis de incentivo à cultura, mas com a realização de festivais como o Terruá Pará. O Terruá integra a política pública de difusão e circulação da música paraense e leva os artistas da casa a outros estados, promovendo maior interação entre as bandas e apresentando o material dos artistas para a imprensa especializada.

Foto: Alan Soares/Divulgação.

Album de Camila Honda está sendo produzido por Felipe Cordeiro (Foto: Alan Soares/Divulgação).

Coincidentemente, é justamente após a realização do primeiro Terruá, em 2006, que começa a se delinear aos olhos do restante da nação a identidade de uma dita “música paraense contemporânea”. Hoje, a direção do Terruá – com shows em Belém e São Paulo – é assinada pelo produtor Carlos Eduardo Miranda. Pelo festival, que também se apresenta sob o formato de coletânea em CD e DVD, já desfilaram nomes como o próprio Cordeiro, Fafá de Belém, Sebastião Tapajós, Gaby Amarantos, Arraial do Pavulagem e Lia Sophia, somando um total de mais de 50 atrações em três edições.

Foto: Caroline Bittencourt/Divulgação.

Foto: Caroline Bittencourt/Divulgação.

Felipe Cordeiro, a voz de uma geração

O músico, produtor musical, ator, filósofo e cantor Felipe Cordeiro é, antes e a despeito de qualquer substantivo, um pensador que questiona o universo a seu redor. Para introduzir o leitor ao maravilhoso mundo do “Bigodón Endiablado” (uma de suas alcunhas), Felipe é filho do guitarrista Manoel Cordeiro, nome conhecido na música paraense desde a década de 1980 com a sua banda Warilou, que propunha a mescla das cumbias e sonoridades caribenhas à música brasileira. Não soa estranho que seja hoje um de seus maiores parceiros.

Estudante de música desde os 11 anos, sua formação passou por piano e bandolim. Na universidade, optou pela filosofia e começou a compor para festivais de músicas. O estilo era baseado em clássicos da MPB como choros, valsas ou sambas-canção. Após uma passagem pelo teatro, no qual descobriu ser apto a agregar seus dotes de cantor às composições, passou a questionar seus processos internos críticos da MPB tradicional. “Eu procurava uma música que se comunicasse com as minhas inquietações, que dialogasse com a minha realidade”, revela.

A gravação de seu primeiro álbum – Kitsch Pop Cult – foi engendrada ainda em Belém, onde conheceu o DJ pernambucano Patrick Tor4. Este, por sua vez, o apresentou a André Abujamra, que assina a produção de ‘Kitsch’. Foi com o repertório deste disco – que ainda não estava finalizado – que Cordeiro (e seu pai) se apresentaram no Recife pela primeira vez em eventos como o Rec-Beat (2011) e depois no Porto Musical (2013). Em terrinhas pernambucanas se apresentou ainda no Festival de Inverno de Garanhuns (2012) e fez participações em shows de Gaby Amarantos, Zé Cafofinho e na banda do próprio pai, os Desumanos.

Atualmente, Felipe se divide em vários compromissos: além de promover o disco Se Apaixone Pela Loucura do Seu Amor, lançado em 2013 com recursos da Natura Musical e que foi produzido por Carlos Eduardo Miranda, ele está produzindo o álbum da paraense Camila Honda. Para conhecer a alma do ‘Bigodón Endiablado’, três das faixas do novo disco estão disponíveis aqui.

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Iara Lima, jornalista, é paraense e morre de saudades de um bom tacacá.

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