LA BEAUTÉ EST DANS LA RUE
Máxima do maio de 68 parisiense se aplica às artes visuais quarenta anos depois
Por Joana Coccarelli, colunista d’ O Grito!

Este ano vimos o artista plástico britânico Damien Hirst vender, separadamente, três de suas peças por um modesto montante e US$200 milhões, e despedir 17 dos 22 funcionários de seu ateliê na seqüência. Vimos também o ícone do design Philippe Stark declarar que o design morreu, lamentando ter perdido tempo em criações que “não servem para nada”.

Talvez seja o primeiro abalo na arrogante verticalidade das artes visuais; é possível que a clássica polêmica em torno do que é arte “de verdade” e o que é lowbrow esteja ensaiando uma chegada a termos. Certo, exagero meu. Mas em 2008, enquanto o pessoal do pedestal pirava, o povo das ruas fervia. Em grande estilo.

Para citar um exemplo aqui do Brasil mesmo, vimos os irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, a.k.a. Os Gêmeos, serem convidados pela abravanada Tate Gallery para grafitar sua fachada para nada menos que o evento “Street Art”, em maio. Em 2007, junto com os também grafiteiros Nunca e Nina, mulher de Otávio, já haviam pintado um castelo escocês de 500 anos, a pedido de seus moradores.

Ninguém menos que o supra-sumo do guerrilla stencil Banksy havia sido cogitado para a tarefa, o que só aumentou o prestígio de nossos rapazes. Mas 2008 foi muitíssimo movimentado para ele também: para começar, sua verdadeira identidade foi revelada após um ano de investigações do jornal inglês Daily Mail. A notícia correu o mundo, jornais, blogs e comunidades em polvorosa. Banksy continuou agindo como se nada tivesse acontecido e foi para Nova Orleans desafiar o Gray Ghost, um sujeito local adorado por policiais por apagar grafites com seu rolinho de tinta cinza. Em seu website, Banksy diz que “o Gray Ghost causou mais danos para a cultura da cidade do que qualquer furacão nível cinco poderia”.

No Brasil, o Gray Ghost foi o prefeito Kassab e seu plano de “limpeza visual” da cidade de São Paulo. O projeto visava principalmente outdoors e publicidade mas espirrou no grafite. Regina Monteiro, a própria responsável pela empreitada, reclamou da cobertura com tinta cinza do enorme mural que Os Gêmeos pintaram na avenida expressa Vinte e Três de Maio, que foi elaborado com a permissão da prefeitura. Para evitar sacrilégios como este, foi criado um registro dos grafites que deverão ser protegidos de ações como as de Kassab.

Painel do’ Os Gêmeos que foi apagado por Kassab. Em São Paulo, grafites serão protegidos contra esse tipo de ataque

De modo que a arte de rua anda se impondo. Mas para isso às vezes ela se vale do estereótipo arruaceiro dos pichadores (não confundir com grafiteiros). Foi o caso da invasão da galeria Choque Cultural (SP), especializada em arte underground, por pichadores que protestavam contra, palavras deles, “o marketing, a institucionalização e a domesticação” de uma arte que deveria ser exposta única e exclusivamente na rua.

A ação teve continuidade no primeiro dia da Bienal de Artes Plásticas da cidade, quando quarenta pichadores tomaram um andar inteiro estampando palavras de ordem nas paredes. Para o artista Ricardo Basbaum, que estava lá, “a Bienal tem de saber lidar com isso. É um modo de expressão em estado bruto. Não acho graça. Acho feio, mas é parte da sociedade. E a Bienal tem de estar aberta para a sociedade”. Esta idéia parece ter refletido sobre a organização do evento, já que houve reticências sobre se deveriam ou não passar o rolinho sobre o que havia sido feito.

Por fim: Bansky fez o mesmo protesto, à sua maneira. Temendo que a destacada ascensão da arte de rua deste ano acabe enveredando para o universo do consumo, ele disse: “O graffiti não chantageia emocionalmente as pessoas, não as faz se sentirem gordas ou correr para comprar alguma coisa – talvez com exceção de produtos de limpeza muito poderosos”.

Sem mais artigos