BOAS E VÃS FILOSOFIAS
Satira do nascimento do pensamento ocidental com Epicuro, Sócrates e Platão se converte em tema de quadrinhos
por Fernando de Albuquerque

Já está nas prateleiras das livrarias brasileiras o álbum, em edição de luxo, Epícuro, o Sábio. Mais um lançamento da Conrad, com 168 páginas, que traz uma tradução bem cuidada e elaboração de qualidade. Inteligente, bem-humorado, inusitado, o trabalho prima pela crítica ferina à base de quase todo o pensamento ocidental: a sociedade ateniense clássica. Se por um lado a democracia de Atenas primava pela pluralidade de pensamento, pela ousadia de idéias, por outro ela ostentava um lado pouco conhecido: um machismo que beira a ferocidade e um preconceito estremado contra as mulheres.
O personagem principal da trama é Epicuro, filósofo que pregava a exacerbação dos sentidos, dos prazeres, e cujo pensamento originou a palavra epicurismo. Como outros jovens gregos (na história e provavelmente na vida real), ele almeja um dia chegar ao patamar de Sócrates, que é retratado como um intelectual pernóstico, cercado de discípulos tietes, dono de um ego abismal e de um humor mordaz, principalmente na hora de avaliar as idéias dos novos pretendentes ao posto. Prazer que se torna ainda mais acurado quando o “pensador” em questão se trata do atrapalhado e tímido Platão.
O livro é uma grande tiração de onda com a profusão de pensadores que trafegavam nas ruas de Atenas. Sobre o machismo, a abordagem é mais do que pertinente: quem já leu um pouco de história dos gêneros sabe que foi lá, na pátria da democracia, que o estado patriarcal fincou raízes e criou o mundo sexista e altamente misógeno. Para quem não sabe os atenienses viam as fêmeas como seres menores, intelectualmente desprezíveis e, até mesmo sexualmente, menos desejáveis que os jovens discípulos que seguiam os mestres e educadores.
No álbum, tudo começa com a chegada de Epicuro em Atenas, que tinha como meta abrir uma escola de filosofia, ganhar discípulos e fama. Mas ao trocar a ilha de Samos pela badalada capital grega, o pensador se envolve em muitas confusões, deflagradas por um encontro com a deusa da agricultura Deméter. Ela muda seu destino forçando Epícuro, ao lado de Platão e do ainda jovem Alexandre resgatar Perséfone das mãos de Hades, também conhecido como plutão.
A partir daí, o trio se mete em todo tipo de trapalhada e aperto. Cruzam com Cerbero, o cão de várias cabeças, guardião dos portais do inferno e com Caronte, o barqueiro que conduz os mortos até Hades. O trio se depara ainda com uma galeria de personagens emblemáticos da mitologia, como Hércules, Paris, Ulisses, só para citar alguns ícones. Na mistura entre mito e verdade, o trio, que de fato existiu, também se encontra com outro grande mestre: Homero, autor da Ilíada e da Odisséia.
A história é divertida, chega a ser inteligente, mas é recomendada principalmente para os que têm alguma base de mitologia grega e de filosofia. Sem esse conhecimento, fica difícil captar as piadas e tiradas, as gozações e sarros com os “papas” do pensamento ocidental. Não por acaso, a história foi produzida pelo norte-americano Sam Kieth, que junto ao inglês Neil Gaiman deu vida a um dos personagens mais fascinantes das HQs, o Sandman.
É ele quem assina a parte gráfica, digna de ser apreciada pela profusão de detalhes, e efeitos. Já o roteiro traz a assinatura do também norte-americano William Messner-Loebs, que escreveu séries como Mulher Maravilha e The Flash, mas que se consagrou com este álbum.

EPICURO O SÁBIO
Sam Keith e William Messner-Loebs
[Conrad, 168págs, Trad. Carlos Patati, R$ 54]
NOTA: 9,0

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