UM ROCK BEM PARTICULAR
Conferimos o show de lançamento do videoclipe “Nescafé”, do Apanhador Só, no Rio de Janeiro e batemos um papo com a banda sobre as novidades depois do elogiado primeiro disco

Por Marcos Xi
Entrevista por Renata Arruda
Do Rio de Janeiro

Tímidos e simples, os quatro rapazes porto-alegrenses que compõem a Apanhador Só sobem ao palco de um Studio RJ impaciente. Estamos em abril de 2012 e já faz quase um ano desde a última vez que a banda esteve no Rio de Janeiro. O público se junta ao pé do tablado, observando Alexandre Kumpinski afinar a guitarra e anunciar que o telão que antes passava um filme de cowboy dos anos 50, agora faria a estreia oficial do clipe de “Nescafé”. Dois passinhos para trás – não muito para não perder o lugar próximo ao palco – e aos poucos uma pequena roda se abriu para que todos pudessem ver aquele conglomerado de belas imagens que às vezes lembram um Instagram em vídeo, dirigidas e roteirizadas por Bruno Carboni para a letra de Kumpinski e Ian Rammil – que também aparece no clipe -, e que traz ainda Antonio Ternura assinando a fotografia e Richard Tavares a direção de arte.

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O show se desenvolve como uma reunião de hits, cantados por um público que parece fiel àquela banda de um único álbum de inéditas. Pedidos de música, gritinhos ao início das canções e sorrisos no ar de muitos dos jovens que estão ali e talvez mesmo não entendendo do que falam as letras, querem participar do rock que o Apanhador Só produz.

Quando “Nescafé” é tocada ao vivo, não parece que minutos antes a música foi ouvida no telão junto ao clipe. Tocando o primeiro e homônimo álbum na íntegra, a cada intervalo, Alexandre lembra que existem bonotons, camisas, adesivos, CDs e fitas cassetes à venda na banquinha atrás do público; numa vaga lembrança de que ali em cima está uma banda independente que ainda pretende entrar em estúdio neste ano para a gravação do seu segundo álbum – e todo apoio será bem-vindo.

E algumas das faixas que provavelmente estarão no próximo álbum e já vem sendo apresentadas ao vivo para o público é “Torcicolo”, uma popsong colante, facilmente digerível e assobiável, com um refrão em vocalização propositalmente criado para que sua cabeça repita-o por dias. Mas o auge do show foi a execução da também inédita “Paraquedas”: a faixa é um misto denso de guitarras soturnas e rufados intermináveis, causando arrepios, num incrível momento de hipnose coletiva musical. Esta será lançada em maio em um vinil branco de 7”, e trará uma faixa inédita como lado B. Ambas produzidas por ninguém menos que Curumin e Zé Nigro. Será, talvez, a grande música do ano.

Talvez a semi-expulsão do palco do Oi Futuro Ipanema, um ano antes, fazendo com que a banda fosse para a praça em frente terminar o show em formato acústico-sucateiro, tenha mitificado um pouco o som da banda e causado a curiosidade do público carioca sobre quem é aquele animado grupo. Ainda que a Apanhador Só esbarre na porta das rádios, numa palavra a mais em cima do palco ou mesmo no tempo de estrada em casas de médio porte, eles sempre terão o seu fiel crescente e público para ampará-los nos caminhos da música brasileira.

Alexandre Kumpinski conversou com a gente rapidamente por telefone um pouco antes do show no Studio RJ, onde falou sobre os próximos planos da banda e sobre a dificuldade de bandas como a Apanhador Só em marcar shows na cidade do Rio. Confira:

O primeiro disco foi lançado em 2010
Esse show é o lançamento do clipe de “Nescafé”, o terceiro clipe do primeiro álbum e seria também o último que a gente vai trabalhar nesse disco. A gente pretende entrar em estúdio nesse ano pra gravar o segundo álbum, mas  até ele ficar pronto, só deve ser lançado só no ano que vem. Não chegam a ser três anos trabalhando o mesmo disco, teve também o “Acústico-Sucateiro”, onde a gente inaugurou um novo formato.

E por isso vocês prolongaram o tempo até o próximo de inéditas?
É, isso e porque a gente também está fazendo shows e pra uma banda independente entrar em estúdio não é assim tão fácil; precisa de equipamentos, engenheiro de som. E tem os shows, as viagens, a gente precisa organizar o material e compor também, pra ter um repertório já interessante, completo.

E é uma opção da Apanhador Só continuar como banda independente? Já surgiram propostas de selos, gravadoras?
A gente já teve algumas propostas mas não achou muito interessante mesmo.

Por que?
Começa pela liberdade criativa, passa por um condicionamento ideológico,  o mercado…

Eu noto também que você faz questão de manter um relacionamento direto com o público, usa sua conta no Facebook pra falar de outras coisas que não são apenas sobre a banda, interage, coisa que alguns preferem não fazer. É importante pra você?
Sim, sim, é importante total, se não fosse isso não ia ter [a gente]. A gente acha que assim a relação com o público e com o mercado é muito mais justa, muito mais democrático. A gente acredita muito nessa mudança mesmo do mercado e do pensamento das pessoas, de como elas encaram…

Há um tempo você comentou em entrevista que os membros da banda trabalhavam em outras coisas, ela ainda não era viável economicamente. E hoje?
É viável economicamente, mas às vezes a gente trabalha com outras coisas. Mas o foco principal é a banda mesmo. Eu trabalhava com cinema antes,  mas basicamente a gente só trabalha com a banda mesmo.

Vocês já lançaram um CD, K-7 e agora vão lançar o vinil de “Paraquedas”. Tem um show de lançamento marcado para maio, não é?
Sim, é um compacto em vinil, 7”. A gente vai lançar dia 19 maio em São Paulo, no Cine Joia e as outras datas eu não me lembro agora, tem que olhar.

E o DVD?
A ideia do DVD acabou ficando de lado por falta de dinheiro. Pra finalizar um DVD é um trabalho que exige meios, dedicação, precisa dos profissionais de audiovisual e a gente não pode fazer sem um dinheiro razoável pra finalizar. Então a gente decidiu que se a gente precisa levantar bastante dinheiro ,então que a gente levantasse pro próximo álbum, não pra um DVD, por enquanto. Ele acabou ficando congelado, mas pode ser que daqui a um tempo saia e aí a gente até tenha mais material.

A gente gravou o show de lançamento do primeiro álbum aqui em Porto Alegre. Foi filmado com 8 câmeras e todo o áudio gravado com canal. Tem como fazer um material bom e tem os outros shows também, daqui a pouco a gente faz  do lançamento do próximo disco, de repente já sai até um DVD mais completo. Tem algumas coisas gravadas do Acústico-Sucateiro [as intervenções promovidas pela banda], principalmente aqui em Porto Alegre onde a gente acaba tendo mais gente que trabalha com isso, com cinema, com equipamento de gravação, câmera.

E vocês pretendem fazer alguma intervenção no Rio?
Dessa vez a gente não vai conseguir por causa do tempo, mas a gente sempre tenta. Quando chega numa cidade pra tocar, a gente faz uma intervenção. No Rio a gente acabou fazendo intervenção acústico-sucateira meio de última hora na saída do show no Oi Futuro. Mas dessa vez a agenda tá apertada, não vai dar tempo.

A Apanhador fez esse show no Rio no ano passado e agora vocês voltam para mais um show. Por que tão poucos shows por aqui?
É difícil levar show pro Rio. A gente vai muito pra São Paulo, e São Paulo é do lado do Rio, não é uma dificuldade geográfica a gente chegar aí. Da minha experiência, eu acho (eu posso estar errado), mas aí no Rio  é um pouco mais fechado pra esse cenário independente, de rock independente. Acaba não tendo espaço,  não  tendo tanta gente, tanto produtor interessado em levar shows.

Não aparecem convites.
É meio porque não aparece tantos convites assim; se aparecesse mais, a gente iria com certeza porque o público daí gosta bastante, os Shows que a gente fez tinha bastante gente cantando junto e tudo, então o único motivo pra gente não ir é falta de oportunidade mesmo. É uma coisa mais da cidade do Rio de Janeiro mesmo, não é nenhuma falta de vontade nossa.

Fotos: Roberta Sant’Anna

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Marcos Xi é jornalista e editor do blog Rock in Press.

Renata Arruda é jornalista e escreve no site Scream & Yell, no portal Scriptus Est e na Revista Cultural Novitas. Também assina o blog Escrevedora.

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