O ZEFIRINA BOMBA VAI RACHAR A SUA CABEÇA
Por André Azenha, colaboração para a Revista O Grito!, de São Paulo. Foto Ricardo Tomassis

Ilson Barros, vocalista e guitarrista (ou violeiro) do Zefirina Bomba é o Dave Grohl do rock independente brasileiro. A comparação não é musical (ainda que ambos cantem e toquem guitarra em seus respectivos grupos). Mas refere-se à forma espontânea como os dois se comportam em relação a shows, ao público e à mídia. Como o vocalista do Foo Fighters, Ilson tem presença de palco, é atencioso com a platéia e mesmo após cinco anos radicados em São Paulo, com elogios da mídia especializada, participações em programas de TV e indicações a prêmios na bagagem, mantém a simplicidade e não foge de entrevistas.

Basta colocar um gravador na frente dele para que o pernambucano de nascimento, mas paraibano de criação, fale por horas e horas. Foi assim numa excelente entrevista que ele me concedeu em 2006, quando contou sua trajetória num relato impressionante e com momentos hilários, e nesse novo bate papo concedido com exclusividade no camarim do Sesc Santos, minutos antes de subir ao palco com os companheiros de banda, e igualmente bons músicos e legais, Martin Batista (baixo) e Guga Almeida (bateria). Na pauta, a produção e o lançamento (programado para o final de novembro) do segundo disco do trio.

Antes de subir ao camarim, precisei da autorização da homem na produção do Sesc que organizou o show. Por um telefone interno, cheio de marra, ele disse: “A banda me informou da entrevista, mas eu não posso atrasar o show”. O início estava programado para as 21h30. E eram 21h15 naquele momento. Dei a entender que o papo não se prolongaria e ele teria a banda em cima do palco no horário. Ao chegar no camarim, informei o trio e a empresária deles, Thelma Ramalho, que não poderia demorar, e a conversa rolou descontraída em dez minutos (depois do show conversaríamos muito mais). Às 21h30, o Zefirina Bomba subiu ao palco.

Quem já é fã irá encontrar, no novo disco do trio, algumas características marcantes do grupo. Assim como o primeiro álbum, Noisecoregroovecocoenvenenado, o título do segundo mantém o tom irônico e provocativo. Nós Só Precisamos de 20 Minutos para Rachar Sua Cabeça representa de forma certeira tudo o que está no disco. Afinal, são 21 músicas distribuídas em pouco mais de 32 minutos no álbum. Porrada do início ao fim. “O plano era gravarmos menos faixas, mas o Rafael (Ramos, produtor que já trabalhou com Los Hermanos, Ultraje a Rigor e Pitty, entre outros artistas) ia falando: põe essa, essa outra também. Coloca mais uma. E quando percebemos já havíamos colocado todas as faixas que estão no disco”, lembra Ilson, sentado no chão do camarim.

Mas gravar com um produtor conhecido não significa que a banda amoleceu ou fez concessões para ficar “mais famosa”. O som característico do Zefirina, que mistura punk, hardcore, com sua essência nordestina, está mantido. Tanto que o álbum atual começa onde o anterior acabou (“A última faixa do Noisecore… continua no início desse”, diz ele ) e foi produzido em estúdio durante praticamente uma hora e meia. “Gravamos quase tudo num dia (13/07), das 11h20 à 13h05, ao vivo, numa tomada só. Os vocais eu gravei no dia seguinte e posteriormente refizemos somente quatro músicas”, relata o vocalista.

Ao vivo, as canções de Nós Só Precisamos de 20 Minutos para Rachar Sua Cabeça mantém a crueza e a potência do power trio, mas ao mesmo tempo revela uma banda que evoluiu musicalmente. Não é aquele velho papo chato de amadurecimento musical, mas nota-se que as músicas estão mais trabalhadas, a pegada continua a mesma, porém com mais precisão.

Quem freqüenta shows do Zefirina sabe que não é de uma guitarra que Ilson extrai seus riffs, mas de um violão distorcido que virou o instrumento do vocalista porque ele não tinha grana pra comprar uma guitarra quando estava começando. E este ano, num show realizado na época do carnaval, em Salvador, o músico se despediu de seu primeiro instrumento. “O violão quebrou no show, e esse que eu trouxe é novo”, diz ele. Na apresentação em Santos, a banda levou até uma guitarra, que “deu pau” logo na primeira música, o que fez alguém do público gritar: “Não adianta, é praga do violão!”. E o show seguiu com o velho/novo instrumento.

O público presente não lotou o bar do Sesc Santos, porém pôde divertir-se bastante em pouco mais de uma hora de show. Garotos roqueiros (alguns vestindo camiseta da banda) pularam em frente ao palco. Curiosamente, alguns idosos estavam no local. Há explicação: todas as quintas, no Sesc da cidade, acontecem eventos musicais no bar do clube, e tem gente que vai sempre, mesmo porque pessoas com mais de 60 anos pagam o preço mais barato. E mesmo após os primeiros acordes potentes, nenhum senhor saiu do lugar.

Com repertório dividido entre as faixas de seus dois CDs, e um cover do Nirvana, o Zefirina fez rock como o gênero sempre deveria ser. Cru, divertido, dançante, sem frescura. Enquanto outras formações que ainda se consideram independentes planejam cada fala que irão dar durante os shows e à imprensa, calculam quais roupas devem vestir, Ilson, Martin e Guga portam-se como jovens que poderiam ser nossos amigos de faculdade. Se está calor (e no dia em questão aconteceu a maior temperatura em Santos de 2009), qual o problema em usar bermuda? Eles mesmos carregam seus instrumentos, depois das apresentações fazem questão de conversar com os fãs e autografar os CDs.

Aliás, quem foi pôde comprar o primeiro disco por R$ 10,00. “Manter um valor acessível é algo que os garotos sempre fizeram questão”, afirma a empresária da banda, Thelma Ramalho. “Certa vez chegamos a encontrar numa loja em São Paulo o disco por R$ 31,00. Como alguém irá comprar um CD de uma banda independente por esse valor?”, questiona ela.

A relação entre os três músicos e a empresária também é algo especial. Os quatro nos transmitem a sensação de serem grandes amigos. Para viajar, dividem um Uno que já rodou quase 50 mil quilômetros. “Ilson não conhece a existência dos aviões”, brinca Martin. O vocalista, por sinal, é quem toma o volante quando pega a estrada. “O incrível é que ele consegue chegar a 140 quilômetros por hora num Uno”, diverte-se Thelma. Ilson escuta o comentário e diz em voz baixa: “Na verdade já alcancei até 170.”

Para o final do ano, o Zefirina Bomba lançará oficialmente Nós Só Precisamos de 20 Minutos para Rachar Sua Cabeça, dá uma parada nos shows para que todos possam visitar seus familiares nas festas de final de ano e depois voltam com força total à turnê. Se passarem pela sua cidade e você gostar de rock, não deixe de ir.

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