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Bulldogma é uma HQ que não cabe no papel. A obra de Wagner Willian empreendou uma divulgação que ocupou diversas mídias, o que é pouco comum no quadrinho nacional. Por isso mesmo, o gibi já é um marco. Com suas mais de 300 páginas, o livro traz elementos de ficção científica, drama, humor e uma narrativa que evoca a Nouvelle Vague francesa.

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O livro, que sai pela editora Veneta, mostra a vida da designer e ilustradora Deysi Mantovani. Após mudar-se para um apartamento com histórico de abduções alienígenas, ela passa a vivenciar diversas situações absurdas em seu cotidiano. Deisy também precisa lidar com sua rotina profissional e cuidar de sua vida amorosa que não anda muito bem. Ao seu lado, sempre presente, o buldogue francês Lino. A primeira aparição da personagem foi em um conto do livro Lobisomem Sem Barba (Balão), segundo lugar no prêmio Jabuti 2015 de melhor ilustração.

Com uso de uma narrativa fragmentada, mas coesa, Willian consegue envolver o leitor por conta de dois elementos que foram essenciais à obra: ritmo e personagens verossímeis. O autor também se deu bem nos riscos que correu ao apostar em novos enquadramentos e planos, além de não utilizar a tradicional linha divisória entre quadros. A impressão que fica é que Bulldogma tem um tempo próprio, não-linear. Buscando mais realismo, Willian subverte uma narrativa clássica ao incluir na trama lembranças, conversas online, cenas de filmes e diversas outras referências da cultura pop e da filosofia.

Bulldogma chama atenção pela campanha de divulgação que incluiu book trailers, uma série de entrevistas feitas por Deisy com profissionais ligados ao mercado de quadrinhos e um site com extras da obra.

Batemos um papo com Wagner Willian sobre o processo de criação da obra, seus planos para o futuro e como é conviver com uma personagem de tanta personalidade quanto Deisy. De bônus, uma playlist inspirada na HQ feita especialmente pra gente.

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Esta é sua primeira HQ. Como foi seu envolvimento com quadrinhos, qual a lembrança mais remota?
Esta é a primeira impressa. Deus é o Jiraiya saiu antes pela Nébula. Cara, acho que as primeiras páginas de quadrinhos que passaram por meus olhos quando criança completamente extasiada foram as Superaventuras Marvel. Que formas, que cores, que apelo visual havia ali! Durante a infância, acordava de madrugada (coisa que ainda faço) e ficava assistindo àqueles filmes antigos de kung-fu e bang-bangs à italiana. Quando vi na banca de jornal aquela capa com um ronin e seu filho, não pensei duas vezes em dar uma olhada. Minhas mãos tremiam. Eu queria ser o Lobo Solitário. (risos) Tinha como ficar imune àquilo?

Eu ia te perguntar como surgiu Bulldogma, mas acho que gostaria de saber antes como surgiu Deisy Mantovani.
Hahha, boa! Deisy é daquelas personagens inevitáveis que sempre estiveram por ali, esperando a deixa pra chegar na voadora sobre o peito do autor. Ela não aguentava mais, precisava dizer umas verdades. Soltou o verbo em Lobisomem Sem Barba (Balão Editorial). Continuou em Bulldogma. E agora está lá enchendo a cara de café em lindas conversas com a nata dos quadrinhos no Flerte da Mulher Barbada enquanto o absurdo vai emoldurando as entrevistas no final.

Bulldogma impressiona pelo fato de ser uma narrativa bem longa, pouco comum no mercado de quadrinhos brasileiro. Como foi produzir esse quadrinho?
Foi um processo altamente não recomendado porque não tinha sequer um esqueleto da história. Fui improvisando como se fosse um músico de jazz. Tinha uma imagem para o final e alguns monólogos. A medida em que escrevia as cenas para esses monólogos, os desenhos apontavam para outros caminhos. A coisa foi se construindo de uma maneira quase orgânica. Nisso, deletei muitas páginas, alterei tantas outras. Foram praticamente dois anos negociando com a Deisy.

O Bulldogma é um dos poucos quadrinhos brasileiros que teve uma estratégia de divulgação bem orquestrada, transmídia. Como foi bolar essas ações e o que está achando do resultado?
Opa, obrigado, meu caro! O Bulldogma me permitiu isso. São ações citadas na própria HQ. O livro Flerte da Mulher Barbada que ela autografa é o mesmo que está sendo produzido. A questão de trazer desdobramentos para o meio virtual também é abordado. O que eu não havia pensado foi a questão dos book trailers, coisa que foi sugerida pela Veneta. E, cara, como eu gostei de fazer isso! Senti o gostinho do cinema enquanto editava. A internet está aí ser aproveitada. Se através dela posso aumentar a abordagem do livro, criando essas janelas de eventos, acho extremamente valido me valer disso, levando o Bulldogma por outros caminhos. O resultado tem sido formidável! Principalmente o lance das entrevistas.

Uma das coisas que mais me chamou atenção na HQ foi como você trabalha essa nossa comunicação de hoje, em janelas de mensagens, aplicativos. Sempre me incomodou como muitos filmes e livros, que se passam no presente, totalmente ignoram o jeito como nos comunicamos hoje, sempre destacando as ligações de voz. É um anacronismo gritante. Já você não só deu atenção a essa questão, como tornou importante para o curso da HQ. Pode nos contar mais desse processo?
Conto tudo pra você. A questão era tornar o Bulldogma o mais real possível. Uma personagem que se apresenta como ilustradora freelancer, trabalhando com recursos digitais, ficando horas em frente à tela de um computador, era de se esperar que ela passasse grande parte de sua vida no modo “online”. Ela tem conta em redes sociais? Claro. Ela vê vídeos no Youtube? Sem dúvida. O que eu fiz foi conduzir o que ela estava conversando e assistindo para modelar a narrativa, principalmente nos vídeos. Se prestarmos atenção, a maioria é sobre questões alienígenas. Funcionam como uma ressonância alien.

Outra coisa que curti muito no livro: o “tempo” diferente de cada página. Esse tempo dilatado, a possibilidade do leitor passar o tempo necessário em cada quadro, é uma das características mais marcantes da linguagem dos quadrinhos. E me parece que você soube trabalhar bem com isso.
Você está querendo me seduzir? Está conseguindo, hahahahah. Obrigado, Paulo. Voltando a essa vontade de criar uma narrativa mais próxima da realidade, o tempo não é sempre contínuo. Somos atravessados por lembranças que disparam por causa de um cheiro ou um sabor que sentimos em um idílico passado ou nos pegamos fazendo projeções obscuras sobre o futuro enquanto embarcamos em um metrô lotado. Quis trabalhar em cima disso.

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A HQ tem referências de todos os tipos, videogames, filmes, música, filosofia. E você teve preocupação de pontuar todos eles. Qual a importância desses links para a obra e como foi organizar todos eles?
Pelo menos para mim, essas referências funcionam como textura ou um tipo de trilha sonora ambientando a história. Sem ignorar a possibilidade de tornar o leitor confortável ao reconhecer tais símbolos como se dissesse: “vem cá, senta aqui comigo” para tirar-lhe o chão na página seguinte.

Me pareceu inevitável perguntar. Qual a influência da Nouvelle Vague francesa em Bulldogma?
Truffaut, Godard, Resnais, todos da Nouvelle Vague romperam com a narrativa linear tradicional, ousaram ângulos e cortes cinematográficos, trouxeram personagens marginais às telas com essa característica de expor um fragmento na vida deles. Espero ter me aproximado disso. Geralmente, separo as histórias em duas categorias: histórias sobre fatos e histórias sobre personagens. Na primeira, o crucial é a trama. A maioria das personagem servem como dispositivos para a ação se desenvolver. Na segunda, a composição psicológica da personagem, suas digressões, são o principal, a trama serve apenas para sustentar suas opiniões. Tentei transitar entre esses dois caminhos.

Bulldogma permite diversas leituras por ser uma obra muito aberta, cheia de possibilidades. O que achou do feedback até aqui? Como é lidar com uma obra quando ela já está solta no mundo?
Insigths, surrealismo, flashbacks, referências extraterrestres, o mercado das ilustrações, a vida freelancer, questões sobre a nona arte, são vários elementos manipulados durante a narrativa. O desafio foi trabalhar com tanto elemento e ainda assim fazer o leitor continuar a virar página, propor um quadrinho de 320 páginas com bastante texto e ainda tornar a leitura ágil. Até agora tenho colhido comentários de que isso tem acontecido. Às vezes me pego sorrindo sozinho. Tanto na página do Facebook sobre o Bulldogma como no blog, tenho postado os comentários sobre o quadrinho. São comentários de pessoas que admiro como Daniel Lopes, Petreca, D´Salete, Mitie, Audaci, Kroll, Ramon, Cecconi, Oliboni, Juscelino, Liber e tantos outros. Essas impressões são verdadeiros presentes. Por que torna-los públicos? Porque não tenho vergonha na cara, nem assessoria de imprensa. Mas com amigos como esses, quem precisa?

Quais seus próximos planos no universo dos quadrinhos?
Bem, estou trabalhando em duas HQs: O Maestro, o Cuco e a Lenda e “Silvestre”. Antes de publica-los certamente virá o livro de entrevistas como o pessoal do meio, o Flerte da Mulher Barbada. Vamos ver o que acontece.

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A PLAYLIST DE BULLDOGMA
Pedimos a Deysi a Wagner que criasse uma playlist que servisse de trilha sonora para a leitura de Bulldogma. O resultado ficou bem legal, com Curumin, Eddie, CSS, Björk cantando Milton Nascimento e mais um monte de coisa boa. Saca:

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