Foto: Vera Marmelo

A VIAGEM SONORA DOS TIGRALA
Para os Tigrala a música é um exercício de liberdade total e a mais recente fase elétrica é a reconciliação com o percurso inicial do conjunto

Por Pedro Salgado
Colaboração para a revista O Grito!, em Lisboa

O percussionista Ian Carlo Mendoza e os guitarristas Guilherme Canhão e Norberto Lobo constituem o núcleo duro dos Tigrala. É na síntese instrumental dos seus componentes que resultam os vectores do projecto musical lisboeta.

Do cruzamento de diferentes abordagens artísticas surgiria, em 2010, Tigrala. No primeiro trabalho da banda, recorda-se a vertente acústica e um punhado de boas músicas apoiadas num conceito sônico multicultural e celebrativo.

A actuação elétrica no 2º Festival Terapêutico do Ruído, em Lisboa, a 4 de Fevereiro de 2011, demonstrou que o grupo pode destilar rock sujo e psicadelismo sem concessões. Em conversa com a Revista O Grito! os Tigrala falaram do seu trabalho.

» Crítica do disco dos Tigrala

Que tipo de paisagens sonoras procuram retratar nas músicas ?
Não existe um entendimento prévio, tudo flui naturalmente. É um trabalho livre em que não pensamos no sentido da estrutura, nem em outros aspectos composicionais. Acaba por ser um exercício de liberdade e, acorde após acorde, transforma-se numa forma de expressão muito expontânea e de diversidade. Acaba por ser a melhor maneira de manifestar a nossa identidade.

O tema “Chiquitito” tem uma evidente carga física. Concordam ?
Concordamos! Tem uma carga física porque está ligado a duas tradições. É o cruzamento de dois costumes extremamente ligados à terra: latino-americano e português. Isso dá um certo peso à música, que é muito dançável. Há uma ideia de festa associada e procurámos explorar a rímica através do famoso três por dois, que existe em todas as culturas. Música é celebração e é também a procura do transe. Nos africanos isso resulta da repetição constante, e forte, de um ritmo.

Como classificam a vossa performance no Festival Terapêutico do Ruído ?
Somos nós mesmos, mas numa nova abordagem. A fase elétrica acompanhou-nos desde o início da carreira. No momento, procuramos desenvolver essa ideia e abrir caminho por aí. Isto não significa que estejamos a abandonar nada do que já fizémos anteriormente, mas sim abraçar a eletricidade. O concerto da Music Box foi um exemplo disso e da concretização de uma sonoridade que sempre nos acompanhou.

No show, senti que conseguiram destilar algum rock sujo. Qual é a opinião de vocês?
É verdade (risos). Tudo foi executado de uma forma quase aborígene e selvagem. Essa ideia transmite-se fácilmente para as pessoas que assistiram ao show. Quando vimos o vídeo dessa actuação reparámos que a potência sonora é ao mesmo tempo muito melódica, mas ninguém se atrapalha. De certa forma é um tricot muito estranho de instrumentos e há também uma ideia de psicadelismo associada à interpretação.

Podemos dizer que a música produzida é um convite para uma viagem ?
Para nós é de certeza absoluta. Porque temos mais tendência a incluír menos estruturas, coisas combinadas ou âncoras. Quando fazemos shows, e nas actuações elétricas em especial, partimos de ideias combinadas, ou não, e isso permite-nos viajar, comunicando uns com os outros. As pessoas que nos ouvem também devem sentir isso, pelo fato de os Tigrala serem uma banda solta e que não se limita apenas a tocar músicas atrás de outras.

Como vai ser o próximo trabalho dos Tigrala ?
Temos falado muito sobre isso e iremos gravar em breve. Mas existem faixas que gravamos para o primeiro CD e que ficaram de fora: “Pichilinga”, “Lucifecit” ou “Blusão”, e também um reggae, que poderão ser aproveitadas. Ainda não decidimos se vamos apostar em sons elétricos, sons improvisados de temas novos ou um misto entre músicas acústicas e elétricas. Outra ideia pode passar pela inclusão de mini-faixas e improvisações. Alguns dos temas elétricos que tocamos têm estrutura, mas são elásticos, não têm uma duração definida e isso abre espaço a muitas possibilidades.

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