Tião (Foto: Divulgação)

UM ENFANT TERRIBLE EM CANNES
Por Rafael Dias

O apelido parece ser de um garoto, mas ele já é adulto, tem 25 anos, fez apenas dois filmes e já vai a Cannes. Tião, alcunha de infância de Bruno Bezerra, participa da 40ª edição da Quinzena de Realizadores com o curta Muro, único representante brasileiro na mostra paralela do mais classudo festival de cinema, que será aberta na próxima quarta-feira (dia 15) e vai até o dia 25.

O filme pernambucano foi selecionado entre 11 trabalhos de diretores “promissores” de todo mundo. Um fato curioso: na mesma seleção, concorre o ator Louis Garrel, filho do cineasta francês Philippe Garrel (diretor de Amantes Constantes, que também concorre em Cannes com Frontière de L’Aube). Louis (Os Sonhadores) faz a estréia como diretor com o curta Mes Copains.

Antes de Muro, Tião havia feito Eisenstein (2006), um curta de direção tripla, com Leonardo Lacca (Décimo Segundo) e Raul Luna, colunista deste O Grito!, seus parceiros da Trincheira Filmes. Nesta nova produção, filmada em Vila da Conceição de Cima, distrito de Serra Talhada, sertão pernambucano, a trama gira em torno de temas como progresso técnico e o atraso social.

Numa brecha rápida enquanto viajava ao Rio de Janeiro para concluir uma cópia do curta, horas antes de embarcar para França, Tião conversou com a reportagem por e-mail. Avesso aos holofotes, disse não esperar troféus. “Estar lá já é um grande prêmio”.

O GRITO! – Cannes é a grande meca em que todo cineasta sonha algum dia estar. Mas você não tem o receio de, tão precoce, ser posto sob análise da crítica do mundo inteiro ao lado de cânones como Woody Allen, Wong Kar-Wai e Steve Soderbergh?
Tião – Eu acho que deve ser uma experiência incrível. Não tô com nenhum receio. Na verdade, eu tô louco pra terminar de trabalhar no filme e começar a mostrar ele por aí. Apesar de ficar um pouco nervoso (e, estranhamente eu ainda não tô sentindo isso – deve ser a correria aqui), é sempre muito bom você poder mostrar o seu filme, ainda mais quando você tem a oportunidade de conversar sobre ele em debates ou coletivas. Como o filme que eu fiz (e geralmente é assim com obras de arte) pede o complemento do seu significado através do olhar das outras pessoas que o assistem, eu tô é muito ansioso pra que ele seja analisado por quem for. Eu acho que ele é um filme que dá espaço para que quem tá assistindo construa seus significados e fica claro, desde o primeiro fotograma, a importância dessa participação.

Com Muro, Pernambuco participa pela 3ª vez da competição na Riviera francesa, em toda sua história. Um feito nos últimos 3 anos apenas (Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, e Vinil Verde, de Kleber Mendonça Filho, foram exibidos em 2005). Como você explica isto: um cinema de resistência, restrito e com parcos recursos, ir tão longe?
Eu não sei, acho que pelo fato de que não existe realmente uma indústria de cinema em Pernambuco (no Brasil praticamente todo). Quem tá fazendo, tá fazendo pra expressar uma visão. E ainda é meio irreal se pensar em lucros vindos disso. Você até pode ganhar alguma coisa como cachê de algum projeto, mas é bem mais fácil não ganhar ou até perder, colocar o dinheiro no filme. Bom ou ruim, o que é feito em Pernambuco me parece ser naturalmente autoral, contextualmente autoral. Os projetos partem dos diretores, em geral. Acho que hoje é importante sair de um discurso que a gente ouviu muito nos últimos dez anos, de que fazer cinema em Pernambuco é difícil, e que só conseguir terminar um filme é uma vitória. De fato, é complicado se fazer um filme, em todo lugar. No nosso contexto é mais ainda. Mas esse discurso pode acabar validando alguns filmes-atrocidades (no mau sentido) só porque eles conseguiram passar no Cine-PE, ou só porque eles foram lançados. Acho que a gente tá num tempo de se voltar para a qualidade do filme, de enriquecer os conceitos, de dialogar estética e linguagem de igual pra igual com o resto do mundo (e resto do mundo é uma expressão bem bairrista, né? hehe).

Em Eisenstein, você co-dirigiu e atuou em um filme “conceitual”, quase todo falado em russo. Enquanto que, em Muro, você trata de um tema universal, o progresso versus o atraso, ambientado no interior de Pernambuco. É um rumo totalmente diferente que você toma?
O processo de Eisenstein foi importantíssimo para o Muro ser o filme que ele é hoje. Apesar do processo turbulento, foi minha primeira escola de direção, de relacionamento com equipe e do complexo processo de transferir uma idéia para filme. Ele criou as bases para que eu continuasse esse aprendizado no Muro. Eisenstein é um filme “conceitual”, mas eu espero que o Muro também seja, afinal o filme vem de conceitos. É importante dizer que eu escolhi o interior de Pernambuco por ter espaço orgânico, mas as histórias do filme não se passam no interior de Pernambuco. Apesar de Eisenstein ter sido dirigido ao lado de duas outras pessoas, Leonardo Lacca e Raul Luna (ou seja duas outras visões de mundo), eu não acho que é um rumo totalmente diferente, o que eu segui no Muro. Eisenstein fala mais de um microcosmo, mas ambos os filmes partem de uma realidade pra ir pra outro lugar, e ainda assim falar sobre a realidade.

[O grande prêmio é] saber que o filme vai passar nas melhores condições de projeção possíveis, ser visto por muita gente e poder dialogar e ver filmes em um festival voltado para cinema de autor

A chance de desfilar pela Croisette lhe dá margem de se deparar com um Dardenne, um Godard ou um Herzog. Em algum momento, você acha que vai deixar a pose de diretor de lado e dar um de tiete? Com quem você gostaria de topar no tapete vermelho?
Acho que essa parte de locomoção não é tão glamurosa não. Ao menos, pelo que me falaram, é menos desfilar pela croisette e mais evitar esbarrões, porque parece um formigueiro. Se eu encontrasse alguns dos diretores que admiro, tentaria entregar meu filme a eles. Tem muita gente que eu queria ver lá, mas acho que quem eu mais queria ver agora no tapete vermelho seria minha namorada e meus amigos. Deve ser muito engraçado ver eles lá. E eles tão indo antes de mim.

Soube que você ainda está finalizando o curta e que, quando chegar em Paris, ainda vai pôr legendas em francês no filme. Vai dar para exibi-lo da maneira como planejava?
Estamos terminando a cópia do filme em francês. Quando chegar lá, ele deve ir pra Paris pra serem colocadas legendas virtuais em inglês para a exibição. O processo do filme foi bem louco. Eu passei mais de um ano montando a imagem com João Maria e tive que fazer toda montagem de som com Kleber Mendonça e Emilie Lesclaux em 2 semanas. Mas o que o filme ganhou com o trabalho deles de som foi incrível. Estamos bem felizes com o resultado. Um sentimento de completude muito bom.

Na Quinzena de Realizadores, você concorre com diretores da nova safra, pouco ou quase nada conhecidos, com exceção do ator francês Louis Garrel (Amantes Constantes e Os Sonhadores), que estréia como diretor. Você acha que ter sido selecionado para a mostra já está sendo de boa valia ou sua intenção é mesmo levar um prêmio para casa?
Nem sei se tem prêmio de melhor filme, mas tem um que é dado por uma companhia de telefone chamado “um olhar novo”. Com certeza estar lá é o grande prêmio. Saber que o filme vai passar nas melhores condições de projeção possíveis, ser visto por muita gente e poder dialogar e ver filmes em um festival voltado para cinema de autor.

Acho que hoje é importante sair de um discurso que a gente ouviu muito nos últimos dez anos, de que fazer cinema em Pernambuco é difícil, e que só conseguir terminar um filme é uma vitória

Cegueira, de Fernando Meirelles, ou Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas. Qual dos brasileiros, na sua opinião, tem mais sprint para levar a Palma de Ouro?
Cara, essa eu, realmente, não tenho muita idéia. Mas acho que seria mais para Dardennes, Lucrecia Martel… mas quem sabe? Eu teria que ver os filmes pra dar um palpite melhor. Acho só que o de Water Salles/ Daniela Thomas me parece ser mais “brasileiro”, não pelo tema, mas pela produção. De qualquer forma teria que vê-los.

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