A SOCIEDADE ESTÁ BEM CARETA
Mesmo com tantos avanços gritando, Suzy Capó, e seu festival Pop Porn, deixam explícito nítido retrocesso da mídia e das pessoas ao falar de sexo

Por Juliana Dias
Da Revista O Grito!, em São Paulo

Em um domingo frio na capital paulista, por volta das 19h30 o Matilha Cultural recebe pessoas para o seu primeiro debate, sobre Sexo @ Internet. Mediado por Carol Parreiras, estudante de doutorado sobre sexo e internet da Unicamp, ele conta com Beth Vieira (do site Vida Secreta), Chris Lima (performer de strip-tease fetichista) e Erik Galdino (do Disponível.com e da revista ACapa). Em volta da mesa dos participantes, o público está espalhado por pufes e banquinhos, participando ativamente (do evento).

Cena de O Diabo na Carne de Miss Jones (Divulgação)

O debate mais parece uma conversa boa, daquelas em que um assunto puxa o outro, passando por temas variados: o acesso do adolescente ao sexo pela internet; a objetividade com que se propõe sexo na rede; a publicidade tímida de produtos sexuais como o KY, e até a linha tênue entre falar sobre o tapinha que não dói e promover o espancamento da mulher. Para cada tópico, os espectadores contam suas experiências e muitos confessam seus fetiches, que são encarados de forma tranquila pelos outros no ambiente. Dominatrix, podólatras, homens que gostam de ser dominados: lá, nada é demais, afinal aquele espaço foi criado exatamente para isso – de modo verbal, claro. O clima esquenta, mas em todos os momentos se mantém descontraído. Cada tirada de humor rende muitas risadas.

Enquanto isso acontece, a criadora e uma das principais organizadoras do evento, Suzy Capó, transita pelo espaço para checar se está tudo ok. Entre uma volta e outra, ela cedeu entrevista para a Revista O Grito!. Depois de passar por um elevador cheio de adesivos a favor da adoção de animais (a principal proposta do Matilha Cultural), Suzy nos indicou um lounge no quarto andar do prédio, onde também funcionava uma sala de cinema. Haviam alguns pufes rodeados de revistas adultas, quadrinhos eróticos e desenhos pornôs. Todo o acervo espalhado veio de uma mala achada em um depósito de um prédio de um amigo de um amigo da Suzy. E a dita mala estava lá, também exposta na parede. Foi naquele ambiente que ela, íntima com o gravador na mão, contou sobre a produção do festival e as caretices que ainda enfrentamos hoje, especialmente na mídia.

Trecho de 10 Dias (Sem Bater) (Divulgação)

OG!: De onde veio a ideia do PopPorn Festival?
Suzy: A inspiração veio do PopPorn Berlin, que está a caminho da sexta edição. No ano passado, eu fui conferir o evento, que acontece em outubro. Tinha acabado de sair de outro trabalho e a minha ida só confirmou a ideia que eu já tinha: queria fazer um desses no Brasil. Mas, eu só comecei a produzir mesmo em fevereiro. E aí eu senti que tinha que fazer já! Teve um sentido de urgência, pois era pouco tempo para fazer, maio era a melhor época e não podia ser feito no segundo semestre, que já tem coisa demais [outros festivais do gênero].
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Veja programação completa do festival

Quais as principais diferenças entre o PopPorn de Berlin e o do Brasil?
O festival aqui é diferente. Lá é um festival de cinema. Aqui é multidisciplinar, e acho importante que seja assim. Acho que se fosse só filme poderia ficar muito preso a esse conceito e seria muito difícil de afirmar o diferencial: de que não é uma mostra de filmes eróticos como qualquer outra, ela flerta com a arte, com a cultura pop, e até mesmo as coisas tradicionais de pornografia tem um diferencial ao que vc pega na locadora. E se não tivessem as exposições e os debate ficaria ainda mais dificil de marcar essa diferença.

O festival acontece em muitos lugares. Qual o motivo?
Comecei querendo fazer em vários lugares para chamar diferentes públicos. Por outro lado, quando eu conheci esse espaço, eu achei o espaço perfeito [Matilha cultural] e queria agregar tudo aqui. Mas, por outro lado, a produção do espaço não tem muita afinidade com o que a gente está propondo, então fragmentamos, como era na ideia original.

Filme sobre a história do polêmico Bruce LaBruce será exibido no festival (Foto: Divulgação)

Como está a recepção do público?
Eu acho que a recepção do público é bem variada. Quem está aqui está interessado e está curtindo. Ontem mesmo teve o workshop [de filmes pornôs caseiros] de número de inscrição maior que as vagas e uma mistura de pessoas muito interessantes. Eram 20 vagas e participaram 25 pessoas. A maioria eram jovens. Mas o público daqui, a maioria das primeiras sessões do cinema encontramos muitos senhores. No Festival em Berlin, o público majoritário é de mulher heterossexual. Aqui no Brasil, acho que tem mais homem.

O que você achou da recepção da mídia, sobretudo esse tema que muitos ainda mexem com tanto cuidado?
Ontem fiquei bem decepcionada com a recepção da mídia. Tivemos coisas que foram vetadas em um grande veículo. Houve uma entrevista com os produtores do workshop, em que eles contavam de maneira bem prática como ele acontecia. Essa descrição podia se enquadrar na descrição de qualquer outro workshop. E não tinha nada demais. Mas foi cortada, não saiu [no workshop atores faziam uma performance sexual enquanto os alunos faziam seus vídeos].

Então, você acredita que ainda sente-se um tabu grande com um festival como esse?
Eu senti – e só pude comprovar depois que chegou o momento de divulgar – que na verdade a sociedade está bem careta. Houve um grande retrocesso em relação ao sexo, pornografia e sexualidade comparando a 30 ou 40 anos atrás. É realmente bem frustrante, especialmente se compararmos aos anos setenta e oitenta. Talvez pela aids e dos avanços das religiões fundamentalistas com certeza contribuiram para essa caretice toda,mas com certeza a aids, que parou um pouco o sexo livre. O Diabo na Carne de Miss Jones, por exemplo, foi um filme já passou em outros tempos e que eu não consegui passar em circuito de arte hoje em dia, tive que levar em um cinema no centrão para exibir [Cine Dom José, no centro de São Paulo].

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