EM BUSCA DO VERDADEIRO BELO
Não é difícil encontrar na rua mulheres que não nasceram loiras, mas ostentam as madeixas douradas à base de farmacoquímicos. Se não tem cabelos lisos nada que uma chapinha quente com iôdo e uma tomada não dêem um jeito. Do mesmo modo é fácil achar rapazes que se matam em academias para estuturar uma barriga que se, no mínimo, se aproxime do tanquinho de músculos que tanto é visto em filmes, minisséries, programas de televisão e revistas de fofoca. Para aqueles que se tornaram escravos inadvertidos do modelo de estética da magreza alabastrina Suely Machado, diretora e coreógrafa do espetáculo Geraldas e Avencas está aí para desmentir esse padrão e levá-lo ao chão.
A Revista O Grito! entrevistou essa coreógrafa que questiona padrões de beleza para de consolidados e que estão, cada vez mais, incrustrados na alma dos brasileiros.
Por Fernando de Albuquerque

BEM, PRIMEIRO, COMO SURGIU O NOME DO ESPETÁCULO?
Depois de muito pesquisar e pensar em um nome, acordei às 4 horas da manhã de um dia de ensaio, no final do processo com o nome: “Geraldas e Avencas”.
Geralda é um nome que resistiu ao tempo, um nome forte, símbolo de mulheres guerreiras. Todos nós conhecemos uma tia, uma avó, uma lavadeira, uma costureira com esse nome. Avenca é uma planta rara, difícil de cuidar, facilmente perecível, não suporta muito sol, não gosta de muita umidade. Assim temos o comum e o raro, o popular e o erudito, o forte e o sensível, como somos, como o paradoxo que refletimos no espetáculo: na busca da perfeição podemos chegar ao excesso, agredindo e mutilando nossa natureza humana.

JÁ QUE O ESPETÁCULO FALA DE BELEZA, É CLARO QUE NÃO É SÓ BELEZA QUE ESTÁ EM QUESTÃO. ISSO FAZ PARTE DE ALGO QUE VOCÊ ACREDITA SER UM COMPROMISSO (ESTÉTICO, POLÍTICO, FILOSÓFICO)?
Sim creio ser impossível para um criador não se posicionar através de sua obra. Sou uma pessoa comprometida com a resistência e permanência da luta pelo diálogo, pela inclusão, emoção, do sensível, enfim da preservação da natureza humana. Como mulher não posso aceitar calada essa padronização, esse embrutecimento das relações, essa busca pelo igual para sermos aceitos, essa incapacidade de convivermos com as diferenças, num país tão grande, diversificado, qual abrange tantas raças, tantas influencias e culturas. Cansei de ver adolescentes deformando corpos, cabelos, rostos belíssimos buscando referências em outros padrões de beleza em detrimento de suas características tão especiais. O espetáculo é também um desabafo, não só nosso mas de várias pessoas sensíveis a essa plastificação.

EM GERALDAS E AVENCAS VOCÊ FAZ UMA CRÍTICA À PERFEIÇÃO QUE LEVA À DEFORMAÇÃO. MAS TODO ESPETÁCULO DE DANÇA PARTE DO PRESSUPOSTO DA PERFEIÇÃO CONTIDA NO PASSO E NO TRAÇADO DA NARRATIVA DA APRESENTAÇÃO. COMO VOCÊ CONSEGUIU CONGRUIR ESSA DUALIDADE?
Busquei na história pessoal e na bagagem artística de cada bailarino vivências, traços, cicatrizes que pudessem ter sido modificadores em suas trajetórias, deixando marcas em suas vidas, e pedi a eles que transformassem isso em movimento. Foi buscando corpos não tão perfeitos, movimentos oscilantes e instáveis, além de preenchimentos através do figurino, que desenvolvemos um resultado diferenciado, menos preconceituoso, encontrando beleza em outras possibilidades estéticas. Ainda hoje se fomenta o mito em torno do corpo do bailarino. Da perfeição do corpo do bailarino. A necessidade da magreza, da perfeição da musculatura que tanto cerca, pelo menos, os padrões do balé clássico. Você critica essa perfeição. Geraldas e Avencas aponta outras possibilidades, tanto de movimento como de estética, mas não podemos negar o desenvolvimento e fortalecimento do corpo do bailarino que vem de sua prática de dança. O condicionamento físico é essencial e a prática diária modela, define e fortalece a musculatura. Não estamos com o trabalho fazendo uma apologia ao desleixo corporal, apenas refletimos sobre os excessos, sobre a mutilação que levam a doenças e deformações. Somos admiradores do balé clássicos, praticamos esse estilo de dança diariamente, apenas não queremos ser escravizados pelos padrões ditados pela mídia.

EM ENTREVISTA VOCÊ AFIRMOU QUE ESTAMIRA E CRIANÇAS DO ÊXODO SÃO SUAS INSPIRAÇÕES. VOCÊ PODERIA EXPLICAR ESSE ENCONTRO ENTRE SEBASTIÃO SALGADO E MARCOS PRADO?
Esse encontro se deu em mim. Sebastião Salgado através de seu livro “Crianças no Êxodo”, nos mostrou que crianças em campos de refugiados de guerra, apesar de estarem vivendo uma situação de risco, mutiladas, vestindo roupas encontradas em escombros, posavam para suas fotos, expondo outro padrão da beleza, dignas em seus olhares profundos e posturas.
Marcos Prado nos presenteou com um documentário que nos fez questionar o que é lucidez o que é loucura? Nos dois casos, saímos de padrões convencionais, encontramos pérolas da natureza humana nos mostrando o reverso da vida.

COMO ACONTECEU O CONVITE À ZECA BALEIRO E O DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO DE COMPOSIÇÃO?
Meu marido é musico, me apresentou o Zeca e tive a oportunidade de fazer o convite e ele aceitou. O trabalho durou mais ou menos 5 meses e durante esse tempo ele associava a agenda de shows com visitas a BH para que pudéssemos juntos construirmos e discutirmos as idéias que iam surgindo. Ele assistia aos ensaios e inspirado nas cenas criou uma trilha original para o espetáculo.

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